segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Vulcão Villarica, o meu Everest

Objetivo  principal: ascensão ao Vulcão Villarica -- a cereja do bolo da viagem de 8 dias

Última erupção: março de 2015

Local: Pucon, centro-sul do Chile, região de Araucania, a  780 km de Santiago

Data: 27/ 11/2019

Altitude: 2847m

Distância percorrida: subida e descida, cerca de 10km

Tempo de ascensão: pouco mais de 4 horas, com vento,  gelo e  muita neve

Tempo de descenso: duas horas de skibunda, como criança; uma louca aventura

Ganho de elevação: cerca de 1400m 

Nível de dificuldade: pesado  

Temperatura: sensação de -5º (sol entre nuvens) na cratera/cume

Sentimento: conquista de quem atingiu o cume do Everest sem necessidade de escalar as montanhas de 8000m do Himalaia

Exigências principais: desafio requer boa cabeça e  preparo físico exemplar pra não dar vexame

Visual:  beleza indescritível, fenomenal

Agência responsável: Antü, Rios e Montañas.

Guias para o quarteto brasileiro: Óscar e Pancho, nota 9.

Custos: cerca de R$ 500 por pessoa (mas vale a pena)

Outros eventos de destaque da viagem: 1)trilha dos Lagos no Parque Huerquehue ( 14 km de ida e volta, com 760m de ganho de elevação e seis horas de pernada, passando pelas lagunas Verde e El Toro); 2) trilha na reserva/santuário El Cañi ( 20 km de ida e volta em nove horas, com  difíceis 1400m de ganho de elevação, para curtir a beleza e o silêncio da floresta de araucárias em processo de regeneração,  passar pelas lagunas Las Totoras e Negra e atingir o alto do mirador Melidekiñ, de onde se contemplam quatro vulcões, entre eles o nosso Villarica. 

Aventureiros de Pucon: Milton, Mari, Angela e Raddi

Dedicação:  que fique como legado de orgulho aos meus netos Victor, Júlia, Davi, Matheus, Cecília e a doce caçulinha Beatrice. Foram tatuados na minha panturrilha e estão perpetuados no meu coração.

Gratidão eterna:  obrigado meu Deus

Fotos aleatórias:  
































quinta-feira, 31 de outubro de 2019

TRAVESSIA PETRO X TERE: 3 DIAS EM 13 HORAS

O bom senso e a inteligência mandam fazer a  travessia da  belíssima Serra  dos Órgãos (RJ) em três dias,  com dois pernoites nos abrigos do Castelo do  Açu e da Pedra do Sino.  E o período ideal, com temperaturas amenas e chuvas raras, vai de maio a setembro.

Porém, há pessoas teimosas. Percorrer os  difíceis cerca de 30 km de Petrópolis a Teresópolis em três dias já não é fácil. Fazer em um dia, então,  soa como loucura quando o corajoso não é atleta de montanha.

Pois é... mas não é que o cabeçudo aqui acaba de realizar tal proeza em menos de 13 horas? Novamente ao  lado do guia/amigo Vitor Nunes, de Resende, a façanha aconteceu na última sexta-feira. 

Inicialmente, a travessia tradicional estava prevista para a época adequada -- chuva  rara e temperatura amena -- talvez   maio/junho de 2020, ao lado de esposa e amigos da montanha.

Só que, depois da aventura   maluca do bate-e-volta na Pedra do Frade, em agosto,  acho que fiquei meio empolgado e decidi fazer  agora em outubro mesmo. Com o Vitor na guiada. 

Combinamos fazer  P x T em dois dias -- 22 e 23/10 --, dormindo só no Açu, mas não deu certo por compromissos de outra  pessoa que pretendia ir junto  e pelo mau tempo.

Preparado física e psicologicamente, na quarta-feira de manhã o caipira aqui fez uma proposta  quase indecorosa pro Vitor: "E aí Vitão, que tal encarar a serra em apenas um dia -- light and fast --, sem preocupação com a beleza cênica daquele paraíso?"

Meu amigo não titubeou:" Boralá Raddi! Demorô! Em um dia?Quando?"

"Sexta-feira agora" -- respondi, sem pestanejar.

            CORRE-CORRE, INGRESSO E PASSAGENS

Na quarta-feira à tarde já estavam providenciados ingressos e passagens de ônibus. Foi um corre-corre danado. Ingresso se compra pelo site do Parnaso ( Parque Nacional da Serra dos Órgãos -- fundado em 1939 e com 20 mil hectares de área).  Sessentão não paga. Só apresenta  CPF e o voucher impresso (rsrs).

Quanto às passagens,  pela viação Águia Branca, comprei na Tersa de Santo André e embarquei no terminal Tietê, na Capital. Ônibus executivo de São Paulo a Petrópolis custou R$ 160; saiu  dia 24 às 23h e chegou  dia 25 às 5h45min. Jean foi um motorista exemplar. 

Na volta, de Teresópolis pra São Paulo, busão semi-leito custou R$ 168 e demorou oito horas. Dá muita volta e para em duas ou três cidades antes de Resende. Motorista Walmir  também deu conta do recado sem transtornos.

Intenção  inicial era começar a trilha às 6h, mas, pelo horário previsto de chegada do ônibus  já sabíamos que não daria. Encontrei o Vitor na rodoviária de Petrópolis, mas demoramos um pouco. Pagamos R$ 30 de Uber (Rogério, boa praça) até perto da portaria. 

Isso porque  antes não nos curvamos às primeiras pedidas abusivas de dois taxistas  e um  condutor de Uber: queriam cobrar R$ 90/100. Quase sugeri que fôssemos de ônibus, mas ia demorar muito. 


     QUEIJO, AJAX, ISABELOCA, CHAPADÃO E AÇU... 

Intenção   ficou na saudade! Vencida a burocracia normal para entrada no Parnaso, iniciamos a aventura exatamente às 7h45min, com previsão de conclusão em 12 horas, já às escuras. 

Como disse,  por encarar o desafio de caminhar leve e  rápido, praticamente não nos dedicamos à contemplação de tanta beleza. Desafio incluía  mais força, resistência, velocidade, equilíbrio, coragem, destreza, determinação e companheirismo. 

De cara, ainda no sombreado da mata e ao som dos riachos e do canto das aves, também não me esqueci de piar o inhambu, pedindo proteção ao saudoso pai, o seu Valério.

Normalmente o trekker mediano leva  de 6 a 7 horas até o abrigo do Açu . Como carregávamos apenas o necessário  na mochilinhas -- água, isotônico, lanches, castanhas, guloseimas, anorak, corta-vento, capa de chuva e troca de roupas pra não voltar fedidos --,  paramos pouco ( fotos na Pedra do Queijo e reposição de água no Ajax)  e cumprimos o trajeto de  8 km em 4h15min. 

Ganho de elevação nesta primeira perna chega a  pesados 1100m. Não é mole não! Dificuldade maior fica mesmo por conta da subida em caracol da Isabeloca,  antes de alcançar o Chapadão, o Cruzeiro e depois o abrigo. Muito sol e desnível acentuado.

Diz a lenda que o nome é homenagem à princesa Isabel, que nos tempos do Império costumava subir a montanha. Calma! A dondoca ia nos lombos de mula, sem ao menos sujar os meigos pezinhos, a charmosa sombrinha e o lindo vestido branco. 

Sonhando com um beijo da princesa, viajei  na maionese quando parei pra tomar água numa rara sombra e acabei esquecendo o stick (PQP! Essas mulheres!). Só percebi quando chegamos no  alto do Graças a Deus (auto-explicativo, né?). 

Até retornamos uns 300m, mas não adiantou nada.  Tive de fazer a travessia inteira sem o  sempre providencial e às vezes salvador e bastão de caminhada, porque lá é difícil encontrar madeira que dê um bom cajado. 
Castelo do Açu

Pico do Garrafão

Procura-se um Garrafão

Pedra do Sino: 2275m

Alegria: tudo vale a pena quando a alma não é pequena



Vitor e Raddi: companheirismo e gratidão

Visão  de Petrópolis

Graças a Deus




   ELEVADOR,  MERGULHO, CAVALINHO, COICE E SINO...


A segunda e teoricamente mais difícil perna da nossa  travessia tem cerca de 9km e  vai do Açu ao Abrigo 4,  próximo da Pedra do Sino -- ponto culminante da Serra do Órgãos com 2275m de altitude, contra 2150m do Castelo do Açu. É o trecho mais técnico da travessia.

Já com algumas nuvens escuras distantes, saímos do Açu ao meio-dia com previsão de vencer aquele mar de montanhas, lajedos e vales em cerca de cinco horas. Descanso rápido, e sebo nas canelas. Lá vamos nós!

De cara uma subidinha, seguida de um descidão por pedras  e nova subida, agora forte, pra chegar ao topo do Morro do Marco, de onde, na descida do outro lado, converge à direita  quem vai aos estonteantes Portais de Hércules. 

Na sequência, outro  o vale e  o Morro da Luva, passando pelo famoso elevador, após a Cachoeirinha. São cerca de 50 degraus  em vergalhões de aço colocados de forma irregular. 

Detalhe que a exatos dois metros do primeiro degrau eu senti fortes câimbras nas duas coxas. Meu Deus! Puro cansaço, já que a hidratação estava ok. 

Após uns 3 minutos, alguns alongamentos e o incentivo do Grande Guia,  bora subir a escadinha bem semelhante às da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí.

Também passamos  sem percalços pelo temido mergulho, superamos o   difícil Morro da Luva  e o Dinossauro, e chegamos ao dorso da Baleia, bem próximos ao  famoso Pico do Garrafão e à Pedra do Sino. 

Em seguida chegou a hora mais estressante para  alguns montanhistas,  o temido  e exposto Cavalinho.  Nada mais do que a simulação de montar num cavalo.  De pedra! Pra quem foi criado na fazenda Boa Esperança, nada a temer. Com a ajuda do Vitor, nem precisei de corda ou fita. Ali muita gente empaca. 

Bem próximo está o Coice ( do cavalo, lógico). Pedra de difícil entrada. Mas, com jeito e alguma força, deu pra  superar sem grandes dificuldades. 

Subimos no contorno da Pedra do Sino e chegamos ao Abrigo  4 no horário previsto. Comemos o que restava, descansamos um pouco, repusemos a água e, já sob intensa neblina partimos exatamente as 17h pra cumprir a terceira e última perna da aventura. 

      NEBLINA, MATA, RAIOS, CHUVA, TÁXI...

Previsão era fazer os cerca de 11km descendentes -- "descanso ativo"  kkk --   até a barragem em 2 horas e 30 minutos. De lá, do fim da travessia, pegaríamos um Uber ou táxi até a rodoviária de Teresópolis. Coisa de 12 a 15 min de carro, passando pela portaria pra dar baixa na entrada e cortar a pulseira vermelha.

Logo no início da descida, onde há sinal de celular, o Vitor falou com um condutor de Uber, que pediu R$ 90 pelo transfer. Achei um absurdo. Ele reduziu pra R$ 60. Ainda achei caro. O Vitor propôs R$ 45, mas ele não aceitou.  Ficamos de voltar a ligar...  (Que cagada!   Depois explico). 

Então começamos a descer a passos largos e muita conversa. Só descida. Existe um risco calculado, mas vai dar tudo certo! De repente, conforme previsão das agências meteorológicas, começou a escurecer,  esfriar e ameaçar chover. Isso por volta de 18h15min, quando já estávamos com as lanternas de cabeça. 

E não deu outra! Os raios passaram  a cair  mais próximos e a floresta se iluminava a cada  2/3 minutos. Vez por outra enxergávamos, bem longe,  as luzes de Teresópolis.

Mesmo sem o stick, aceleramos o quanto deu pra fugir dos raios, mas em seguida chegou a chuva forte. Um trinômio assustador: chuva forte, raios próximos e  mata escura. Parecia aqueles filmes de terror. PQP! Tenebroso! Sombrio! Assustador!

Pra ser sincero, fiquei com medo dos raios. E comecei a rezar pedindo proteção. Pelo menos pra que os relâmpagos perigosos cessassem. Chuva molha, mas não assusta tanto se não tiver vento. Raio não! Já passei por isso na Pedra da Mina. E me lasquei!

Papai do Céu ouviu minhas preces e os raios foram ficando mais esparsos, além de se distanciarem. A chuva  também diminuiu, mas  continuou por bom tempo. 

Vitor e eu nem conversávamos mais. Só se ouvia o pisar pesado na água. A trilha virou um córrego -- na Boa Esperança da minha infância era corguinho --, com armadilhas em forma de poças, raízes e pedras. E a tal da porteirinha anunciando o fim da travessia não chegava nunca! Meu Deus! Que sufoco! Uma noite sem fim!

Pior  é que o horário previsto  já estava comprometido. Por mais que andássemos, não rendia. E meu ônibus sairia às 22h. O Vitor já havia decidido que dormiria numa pousada próxima da portaria...

Depois de muito esforço e muita água, eis que  cumprimos o desafio e chegamos à tal barragem, concluindo (?) a travessia às 20h15min. Total de 12 horas e meia. Modéstia à parte, coisa pra gente grande. 

Concluímos? Nada disso! Pra  conseguir sinal e tentar de novo falar com o Lucas,  motorista do Uber que nos levaria  até a rodoviária,  ainda teríamos de andar cerca de l km, até um banquinho na beira da estrada da Barragem.

Cansados, extenuados e molhados, chegamos ao local e ligamos. Lucas  até atendeu,  mas disse que  já estava em Petrópolis e que já havia encerrado  o expediente do dia. E não tinha -- ou não quis? --  quem indicar pra nos salvar.

Ainda tentamos chamar carro  pelo aplicativo, mas não havia disponibilidade no entorno do parque. PQP! Ferrou! Tudo por minha culpa,  por não querer pagar os R$ 60 que o cara pediu no primeiro contato. 

Já eram 8h45min quando perdi a paciência. Afinal,  ainda faltavam 2km até a sede e minha viagem estava em risco. Sugeri que o Vitor continuasse  andando e tentando pelo celular,  enquanto eu iria correndo até a sede pra  pedir ajuda. 

Após 29 km ( 28 + 1) de montanhas, de um sobe e desce sem fim, de quase 2300m de ganho de elevação e 2200 de perda, ainda encontrei forças para correr com a mochila nas costas. Papai do céu de plantão. 

Pior é que na metade do trajeto minha lanterninha já não iluminava direito mais à frente; tive de andar  depressa pra enxergar sem cair. Cambaleante, mais de uma vez fui em direção às guias do caminho,  pra depois voltar para o  meio da estrada de bloquetes  e paralelepípedos e me aprumar. Afinal, era preciso chegar. 

E cheguei na portaria às 21h em ponto. Pedi e consegui ajuda importantíssima dos guardas-parque/seguranças Euclides e Geovane, a quem agradeço muito. 

Enquanto o Vitor não aparecia eles tentaram várias vezes,  por uns 20 minutos, até que o Euclides falou com um amigo taxista, o André. Às 21h32min o táxi chegou e mal deu tempo de me despedir do Vitor, que chegara há uns 10 min. 

André  demorou exatos 13 minutos para me levar até a rodoviária, onde consegui ir até o banheiro, tomar  um "banho de gato"  e  colocar roupas secas e limpas. Estava irreconhecível. Mas aliviado.

Embarquei às 22h  e cheguei no terminal Tietê após 8 horas de viagem. Mais uma vez quebrado, com sono, mas extremamente feliz pela conquista. Pronto pra voltar em maio, agora pra fazer  a travessia em três dias e curtir uma beleza rara. 

Mais uma vez, obrigado meu guia e obrigado meu Deus. 





















  

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Sobre GUIAS e guias

Há algum tempo, troquei mensagens bem interessantes com o Marcelo Delvaux,  conhecidíssimo e respeitado guia profissional de montanha. Intenção era montar  espécie de Os 10 Mandamentos do Guia de Montanha nota 10. 

Por isso mantive contato preliminar  também com vários guias, a maioria pelos quais já fui conduzido. Texto não rolou por falta de tempo de alguns para responder. Outros por esquecimento,  opção pessoal ou  até  certa má vontade. Sem problemas, entendo; continuo respeitando e grato a todos pela convivência sempre amiga, leal e profissional.

Isto posto, aqui transcrevo a resposta por escrito do Marcelo, a quem agradeço muito. Espero que o relato seja útil a guias e clientes, principalmente:

"Sobre guia, eu enfatizaria que deveria estar qualificado e possuir habilidades  requeridas para o exercício da profissão. Por exemplo, se é um guia de turismo, deveria possuir formação técnica ou superior em turismo. Se é um guia de trekking ou de montanha, deveria ter um título ou certificação correspondente.

Infelizmente, muitos guias do mercado, principalmente na área da alta montanha, não possuem a qualificação necessária para o exercício da profissão. Qualificação oferecida somente em outros países.

Inclusive, disponibilizam serviços onde essa qualificação é exigida, como no Aconcágua, por exemplo, burlando as regras desses  lugares. Isso, além de antiético, vai contra a tendência de profissionalização do mercado de aventura. 

Ter a qualificação para os serviços oferecidos é demonstrar  postura ética e de respeito para os clientes. Também são importantes as habilidades requeridas para as funções exercidas. 

Tem gente oferecendo serviços de guia de montanha que não sabe escalar, o que é incompatível com os requisitos exigidos para se conseguir certificação de guia de montanha, além de trazer insegurança para os clientes.

É fundamental que o guia esteja familiarizado com as técnicas necessárias e com o ambiente onde atua. Se oferece serviços em alta montanha, mas mora e passa a maior parte do tempo no Brasil, onde não há alta montanha, há algo de errado. 

Dando um exemplo na área de turismo convencional, se é um guia de turismo que leva clientes para a Disney, mas não fala inglês, também não está correto. 

Serviço de turismo, convencional ou de aventura, é algo especializado e um guia deveria oferecer aos clientes serviços compatíveis com suas habilidades. 

Marcelo Delvaux, o  GUIA



          

     POSTURA, ÉTICA, RESPEITO, EDUCAÇÃO...

Acho que outras características que o guia deve possuir estão bastante relacionadas com a qualificação e as habilidades requeridas: postura, ética, respeito ao cliente, paciência, educação e respeito com as populações locais, entre outras. 

Também acho que o guia deve ser alguém que detenha  amplos conhecimentos sobre a cultura, a história e as características das regiões onde trabalha, e não apenas oferecer  serviço de conduzir o cliente por roteiro específico. 

Ainda como complemento, lembro aqui algumas da competências técnicas específicas do guia de montanha: escalada em rocha ( mínimo sexto grau francês), escalada em gelo, trânsito em glaciar, trânsito em terreno alpino, resgate em gretas, autorresgate, resgate em terrenos verticais, primeiros socorros e medicina de montanha, guiada com corda curta e  guiada em terrenos verticais (rocha e gelo).

Os requisitos variam de lugar para lugar, bem com o currículo mínimo, que inclui  x montanhas acima de 6500m,  x acima de 5000m, x acima de 4000m, x graus de dificuldade D, x graus de dificuldade AD, x  graus de dificuldade PD, x invernais etc. O x depende da escola, do tipo de certificação etc. Portanto, não há um padrão para esses critérios.

Esclarecimento final: o  termo "guia de montanha" é único no mundo e inclui guiadas em montanhas como neve, gelo etc. Por isso não há diferenciação de um guia de montanha para o Brasil. 

Para o ambiente brasileiro se encaixa melhor guia de trekking ou guia de escalada para lugares que requerem  técnicas  verticais, como escalar o Pão de Açúcar, por exemplo.

Se formos usar a nomenclatura praticada no mundo, um guia de escalada que trabalha no Rio não poderia ser chamado de guia de montanha. Quando alguém diz "mountain guide" estão implícitas as competências mencionadas".




***MARCELO DELVAUX é guia profissional de montanha com título de guia  superior de montaña obtido na EPGAMT. É associado à AAGM e à AAGPM, além de credenciado no Parque Provincial Aconcágua. Pratica escalada  em rocha desde  a década de 1990 e alta montanha desde o início dos anos 2000, tendo realizado mais de 80 ascensões nos Andes e no Himalaia. É o terceiro brasileiro com mais montanhas acima de 6000m de altitude.      

  

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

PEDRA DO FRADE: BATE-E- VOLTA EM 13 HORAS

Altitude máxima: 1570m.

Ganho e perda de elevação: cerca de 1000m
.
Distância percorrida: 26km (ida e volta),

Tempo  total de percurso:  aproximadamente 13 horas ( 5h45min pra ir, uma pra curtir, e 6h15min para retornar).

Início  e fim do trekking:  1070m, margens do Rio Bonito (Brejal/Bananal/SP--Angra dos Reis/RJ).

Tipo: light/fast ( caminhar leve, com pouco peso, e rápido)


Objetivo: treinar, testar os limites, refletir e contemplar a  natureza com respeito.

Clima: céu azul na maioria do tempo, poucas nuvens no final  da tarde e temperatura média próxima de 20 graus.

Nível: difícil

Equipe: Vitor Nunes (guia), Flávio, Marcelo e Raddi.

Data: 29 de agosto de 2019.

Flávio, Raddi  e o Frade

Angra dos Reis vista do mirante 
A imponência da Pedra vista do mirante



Gruta  dos Alemães, quando a roda começa a pegar pra valer

Descanso  na gruta, último ponto de água

Um trator 6.4 nas alturas
Na descida da serra, vista do mirante




















































Isto posto, vai aqui pequeno relato da nossa  difícil aventura pelas bandas da divisa entre  os estados de São Paulo (Bananal) e Rio de Janeiro (Angra dos Reis). Por questões de praticidade e segurança, nossa ascensão foi feita partindo-se do bairro Brejal, zona rural de Bananal.

Rodamos 770 km ao todo. Saímos de Santo André na quarta-feira à tarde,  pegamos o Vitor em Resende, passamos por Barra Mansa e atravessamos a histórica Bananal para depois subir a serra. Curvas sem fim, com cotovelos carregados de emoção e certo enjoo (eu).

Ficamos no hostel/pousada Brejal,  do Carlinhos e da Estefânia,  bom papo, sempre  simpáticos e dispostos a bem servir. Tudo simples, limpo e aconchegante.  Chuveiro quente e refeição boa, com destaque para a truta com alcaparra e/ou pinhão. Ótimo café da manhã --  na quinta excepcionalmente servido às 5h15min e na sexta às 8h. Preço justo.

Pra facilitar e caminhar menos, na quinta fomos com o  jovem carioca  Marcelo,  de Jimny 4x4 ( sim, coube!), até a beirada do Rio Bonito. Após uma ponte,  quatro porteiras e alguma  lama, estacionamos, ouvimos a orientações do Vitor, alongamos e partimos por volta das 6h15min.

Daí foram quase seis horas de pauleira, a começar pela travessia do rio. Água pelos joelhos, botas nas mãos... um belo batismo. Descampado, mata, descampado, mata, outro descampado (de onde se avista a Pedra do Frade bem longe),  inúmeros charcos e muita lama.

No trajeto a lama na trilha só  reduz pouco antes da Gruta dos Alemães, o último  de muitos pontos de água. Antes disso, o riacho Goiabeira e alguns córregos. Antes também trilhas enlameadas, piso agravado pelo pisotear de animais utilizados na extração ilegal de palmito. É de  dar dó!  Desmatamento latente. Fiscalização zero! Pobre natureza!


                                          GRUTA, MIRANTE E  PEDRA...  NO LIMITE!


Se antes da gruta o piso judia  mas o relevo favorece porque não existem ladeiras e subidas significativas, depois a roda pega viu. E como!  A coisa fica preta! Dos 1150m até o 1570m, no cume,  passando pelos  cerca de 1350m do mirante, não tem almoço de graça. Sofrimento e dor.

Sobra ganho de elevação. Falta perna; falta fôlego. Felizmente também sobra sombra, já que 80% da trilha são percorridos dentro da mata. Parada no belo  mirante serve não só para fotografar a  pedra maior e todo o entorno de Angra como para descansar por uns 15 minutos antes de "atacar" o Frade.

Conclusão da primeira metade da aventura é por trilha mais técnica, com   enrosca-bambuzinhos, trepa-pedras, agarra- raízes e  até momentos de Indiana Jones utilizando cordas e escadinhas (madeira encordoada) em  inclinações pesadas.

Escalaminhadas finais devem ser feitas com extremo cuidado, muita atenção e firmeza a  cada passo ou pegada manual  por se tratar de lugares expostos. Perigo  constante, iminente. Faz parte. Passamos com louvor... e certo medo, pra dizer a verdade.

Confesso que nos 10 minutos finais, quando todos já haviam chegado,  o  sessentão aqui ficou com a pulga atrás da orelha, pensando como seria um resgate de helicóptero. Senti forte fisgada na coxa esquerda  e precisei subir meio na judiaria, quase me arrastando. Ninguém  viu! Quando o  flamenguista Vitor perguntou se estava tudo bem eu respondi que sim.

Cheguei no limite, mas valeu a pena. Muito!.  Um visual maravilhoso. Uma conquista memorável! Uma imagem inesquecível. Angra, Ilha Grande e Paraty  banhadas pelo mar carioca. Do outro lado,   a Serra da Bocaina, um mar de montanhas paulistas.

Cumprimentos, muitas fotos e  alongamento durante o descanso físico, mental, contemplativo e recreio alimentar. Além de orações agradecendo e pedindo proteção ao Papai do Céu.  Spray milagroso do Vitor  também ajudou e, felizmente, pude perceber,  preliminarmente, que a fisgada não era estiramento e sim cãibra. Por isso a  hidratação foi fundamental.


                                                 É HORA DE  VOLTAR. INTEIROS!






Raddão e o Frade

"Vai Marcelo, sobe" --  Vitor
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena

 Flávio e o merecido cumprimento do Vitor 

Guerreiros do Frade ......rsrs

Marcelo, Flávio, Vitor e Raddi iniciando o retorno, sem chororô










Doi no coração e no fundo da alma; parece que um vazio toma conta do seu corpo, da sua mente. Mas é preciso voltar. É preciso superar o cansaço físico e mental e  descer as escadinhas,  as cordas, as ladeiras,  as pedras,  superar a lama, o charco, o rio... tudo de novo, no sentido inverso. A segunda perna do trekking  também é desgastante quando falamos de bate-e-volta. Psicológico precisa ser forte. Né Vitão?

Programamos, mesmo sem tanta rigidez,  estar de volta ao conforto do Jimny antes do anoitecer. Saimos do topo do Frade pouco depois das 13h.  Com autorização do grande guia, fui um pouco mais à frente pra testar aquela dor  na coxa. Superei os obstáculos com alguma categoria, sem medo e sem dor

Em menos de meia hora eu  estava  no pé da Pedra do Frade à espera dos meus amigos. Só lamentei quando  fiquei sabendo que o Flávio havia torcido o joelho numa das escadas encordadas e estava caminhando com dificuldade.

Acontece com qualquer um. Inclusive com guerreiros do Frade.  Tudo está bem e, de repente... Por isso voltamos mais devagar, com extremo cuidado. Por isso não teve como chegar ao destino ainda sob a luz do dia.

De um total de 6h15min, foram cerca de duas horas  no escuro, com lanterna de cabeça. Imagina a cena naquela escuridão,   vez por outra procurando o caminho pelo GPS, pisando na lama, na bosta de cavalo,  na água.  Por isso o Fávio foi guerreiro . Determinação e resiliência nota 10. Merece aplausos ( Uma trilha difícil, com muitas bifurcações. Sem guia é bem fácil se perder. Chame o Vitor.  Patamar de gente grande).

Chegamos no rio Bonito antes das 19h30min. Atravessamos brincando , encharcados mas extremamente felizes, radiantes. Ainda bem. O Marcelo que o diga. Cá entre nós, só conto pra torcida do Coríntians: o  botafoguense estava com medo do escuro.

Na pousada,  banhos tomados, Flávio cuidado, nada melhor do que aquela truta feita  com esmero. Pra acompanhar, cerveja, vinho e até uma caipirinha de limão cavalo com mel que eu mesmo fiz. Afinal, nós merecemos. No dia seguinte, um retorno sem transtornos.

Obrigado Flávio! Obrigado Marcelo! Obrigado Vitor! Obrigado meu Deus por nos abençoar e proteger.




Início  da grande jornada











Flávio, o esforço de um guerreiro