quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Sobre GUIAS e guias

Há algum tempo, troquei mensagens bem interessantes com o Marcelo Delvaux,  conhecidíssimo e respeitado guia profissional de montanha. Intenção era montar  espécie de Os 10 Mandamentos do Guia de Montanha nota 10. 

Por isso mantive contato preliminar  também com vários guias, a maioria pelos quais já fui conduzido. Texto não rolou por falta de tempo de alguns para responder. Outros por esquecimento,  opção pessoal ou  até  certa má vontade. Sem problemas, entendo; continuo respeitando e grato a todos pela convivência sempre amiga, leal e profissional.

Isto posto, aqui transcrevo a resposta por escrito do Marcelo, a quem agradeço muito. Espero que o relato seja útil a guias e clientes, principalmente:

"Sobre guia, eu enfatizaria que deveria estar qualificado e possuir habilidades  requeridas para o exercício da profissão. Por exemplo, se é um guia de turismo, deveria possuir formação técnica ou superior em turismo. Se é um guia de trekking ou de montanha, deveria ter um título ou certificação correspondente.

Infelizmente, muitos guias do mercado brasileiro, principalmente na área da alta montanha, não possuem a qualificação necessária para o exercício da profissão. Qualificação oferecida somente em outros países.

Inclusive, disponibilizam serviços onde essa qualificação é exigida, como no Aconcágua, por exemplo, burlando as regras desses  lugares. Isso, além de antiético, vai contra a tendência de profissionalização do mercado de aventura. 

Ter a qualificação para os serviços oferecidos é demonstrar  postura ética e de respeito para os clientes. Também são importantes as habilidades requeridas para as funções exercidas. 

Tem gente oferecendo serviços de guia de montanha que não sabe escalar, o que é incompatível com os requisitos exigidos para se conseguir certificação de guia de montanha, além de trazer insegurança para os clientes.

É fundamental que o guia esteja familiarizado com as técnicas necessárias e com o ambiente onde atua. Se oferece serviços em alta montanha, mas mora e passa a maior parte do tempo no Brasil, onde não há alta montanha, há algo de errado. 

Dando um exemplo na área de turismo convencional, se é um guia de turismo que leva clientes para a Disney, mas não fala inglês, também não está correto. 

Serviço de turismo, convencional ou de aventura, é algo especializado e um guia deveria oferecer aos clientes serviços compatíveis com suas habilidades. 

Marcelo Delvaux, o  GUIA



          

     POSTURA, ÉTICA, RESPEITO, EDUCAÇÃO...

Acho que outras características que o guia deve possuir estão bastante relacionadas com a qualificação e as habilidades requeridas: postura, ética, respeito ao cliente, paciência, educação e respeito com as populações locais, entre outras. 

Também acho que o guia deve ser alguém que detenha  amplos conhecimentos sobre a cultura, a história e as características das regiões onde trabalha, e não apenas oferecer  serviço de conduzir o cliente por roteiro específico. 

Ainda como complemento, lembro aqui algumas da competências técnicas específicas do guia de montanha: escalada em rocha ( mínimo sexto grau francês), escalada em gelo, trânsito em glaciar, trânsito em terreno alpino, resgate em gretas, autorresgate, resgate em terrenos verticais, primeiros socorros e medicina de montanha, guiada com corda curta e  guiada em terrenos verticais (rocha e gelo).

Os requisitos variam de lugar para lugar, bem com o currículo mínimo, que inclui  x montanhas acima de 6500m,  x acima de 5000m, x acima de 4000m, x graus de dificuldade D, x graus de dificuldade AD, x  graus de dificuldade PD, x invernais etc. O x depende da escola, do tipo de certificação etc. Portanto, não há um padrão para esses critérios.

Esclarecimento final: o  termo "guia de montanha" é único no mundo e inclui guiadas em montanhas como neve, gelo etc. Por isso não há diferenciação de um guia de montanha para o Brasil. 

Para o ambiente brasileiro se encaixa melhor guia de trekking ou guia de escalada para lugares que requerem  técnicas  verticais, como escalar o Pão de Açúcar, por exemplo.

Se formos usar a nomenclatura praticada no mundo, um guia de escalada que trabalha no Rio não poderia ser chamado de guia de montanha. Quando alguém diz "mountain guide" estão implícitas as competências mencionadas".




***MARCELO DELVAUX é guia profissional de montanha com título de guia  superior de montaña obtido na EPGAMT. É associado à AAGM e à AAGPM, além de credenciado no Parque Provincial Aconcágua. Pratica escalada  em rocha desde  a década de 1990 e alta montanha desde o início dos anos 2000, tendo realizado mais de 80 ascensões nos Andes e no Himalaia. É o terceiro brasileiro com mais montanhas acima de 6000m de altitude.      

  

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

PEDRA DO FRADE: BATE-E- VOLTA EM 13 HORAS

Altitude máxima: 1570m.

Ganho e perda de elevação: cerca de 1000m
.
Distância percorrida: 26km (ida e volta),

Tempo  total de percurso:  aproximadamente 13 horas ( 5h45min pra ir, uma pra curtir, e 6h15min para retornar).

Início  e fim do trekking:  1070m, margens do Rio Bonito (Brejal/Bananal/SP--Angra dos Reis/RJ).

Tipo: light/fast ( caminhar leve, com pouco peso, e rápido)


Objetivo: treinar, testar os limites, refletir e contemplar a  natureza com respeito.

Clima: céu azul na maioria do tempo, poucas nuvens no final  da tarde e temperatura média próxima de 20 graus.

Nível: difícil

Equipe: Vitor Nunes (guia), Flávio, Marcelo e Raddi.

Data: 29 de agosto de 2019.

Flávio, Raddi  e o Frade

Angra dos Reis vista do mirante 
A imponência da Pedra vista do mirante



Gruta  dos Alemães, quando a roda começa a pegar pra valer

Descanso  na gruta, último ponto de água

Um trator 6.4 nas alturas
Na descida da serra, vista do mirante




















































Isto posto, vai aqui pequeno relato da nossa  difícil aventura pelas bandas da divisa entre  os estados de São Paulo (Bananal) e Rio de Janeiro (Angra dos Reis). Por questões de praticidade e segurança, nossa ascensão foi feita partindo-se do bairro Brejal, zona rural de Bananal.

Rodamos 770 km ao todo. Saímos de Santo André na quarta-feira à tarde,  pegamos o Vitor em Resende, passamos por Barra Mansa e atravessamos a histórica Bananal para depois subir a serra. Curvas sem fim, com cotovelos carregados de emoção e certo enjoo (eu).

Ficamos no hostel/pousada Brejal,  do Carlinhos e da Estefânia,  bom papo, sempre  simpáticos e dispostos a bem servir. Tudo simples, limpo e aconchegante.  Chuveiro quente e refeição boa, com destaque para a truta com alcaparra e/ou pinhão. Ótimo café da manhã --  na quinta excepcionalmente servido às 5h15min e na sexta às 8h. Preço justo.

Pra facilitar e caminhar menos, na quinta fomos com o  jovem carioca  Marcelo,  de Jimny 4x4 ( sim, coube!), até a beirada do Rio Bonito. Após uma ponte,  quatro porteiras e alguma  lama, estacionamos, ouvimos a orientações do Vitor, alongamos e partimos por volta das 6h15min.

Daí foram quase seis horas de pauleira, a começar pela travessia do rio. Água pelos joelhos, botas nas mãos... um belo batismo. Descampado, mata, descampado, mata, outro descampado (de onde se avista a Pedra do Frade bem longe),  inúmeros charcos e muita lama.

No trajeto a lama na trilha só  reduz pouco antes da Gruta dos Alemães, o último  de muitos pontos de água. Antes disso, o riacho Goiabeira e alguns córregos. Antes também trilhas enlameadas, piso agravado pelo pisotear de animais utilizados na extração ilegal de palmito. É de  dar dó!  Desmatamento latente. Fiscalização zero! Pobre natureza!


                                          GRUTA, MIRANTE E  PEDRA...  NO LIMITE!


Se antes da gruta o piso judia  mas o relevo favorece porque não existem ladeiras e subidas significativas, depois a roda pega viu. E como!  A coisa fica preta! Dos 1150m até o 1570m, no cume,  passando pelos  cerca de 1350m do mirante, não tem almoço de graça. Sofrimento e dor.

Sobra ganho de elevação. Falta perna; falta fôlego. Felizmente também sobra sombra, já que 80% da trilha são percorridos dentro da mata. Parada no belo  mirante serve não só para fotografar a  pedra maior e todo o entorno de Angra como para descansar por uns 15 minutos antes de "atacar" o Frade.

Conclusão da primeira metade da aventura é por trilha mais técnica, com   enrosca-bambuzinhos, trepa-pedras, agarra- raízes e  até momentos de Indiana Jones utilizando cordas e escadinhas (madeira encordoada) em  inclinações pesadas.

Escalaminhadas finais devem ser feitas com extremo cuidado, muita atenção e firmeza a  cada passo ou pegada manual  por se tratar de lugares expostos. Perigo  constante, iminente. Faz parte. Passamos com louvor... e certo medo, pra dizer a verdade.

Confesso que nos 10 minutos finais, quando todos já haviam chegado,  o  sessentão aqui ficou com a pulga atrás da orelha, pensando como seria um resgate de helicóptero. Senti forte fisgada na coxa esquerda  e precisei subir meio na judiaria, quase me arrastando. Ninguém  viu! Quando o  flamenguista Vitor perguntou se estava tudo bem eu respondi que sim.

Cheguei no limite, mas valeu a pena. Muito!.  Um visual maravilhoso. Uma conquista memorável! Uma imagem inesquecível. Angra, Ilha Grande e Paraty  banhadas pelo mar carioca. Do outro lado,   a Serra da Bocaina, um mar de montanhas paulistas.

Cumprimentos, muitas fotos e  alongamento durante o descanso físico, mental, contemplativo e recreio alimentar. Além de orações agradecendo e pedindo proteção ao Papai do Céu.  Spray milagroso do Vitor  também ajudou e, felizmente, pude perceber,  preliminarmente, que a fisgada não era estiramento e sim cãibra. Por isso a  hidratação foi fundamental.


                                                 É HORA DE  VOLTAR. INTEIROS!






Raddão e o Frade

"Vai Marcelo, sobe" --  Vitor
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena

 Flávio e o merecido cumprimento do Vitor 

Guerreiros do Frade ......rsrs

Marcelo, Flávio, Vitor e Raddi iniciando o retorno, sem chororô










Doi no coração e no fundo da alma; parece que um vazio toma conta do seu corpo, da sua mente. Mas é preciso voltar. É preciso superar o cansaço físico e mental e  descer as escadinhas,  as cordas, as ladeiras,  as pedras,  superar a lama, o charco, o rio... tudo de novo, no sentido inverso. A segunda perna do trekking  também é desgastante quando falamos de bate-e-volta. Psicológico precisa ser forte. Né Vitão?

Programamos, mesmo sem tanta rigidez,  estar de volta ao conforto do Jimny antes do anoitecer. Saimos do topo do Frade pouco depois das 13h.  Com autorização do grande guia, fui um pouco mais à frente pra testar aquela dor  na coxa. Superei os obstáculos com alguma categoria, sem medo e sem dor

Em menos de meia hora eu  estava  no pé da Pedra do Frade à espera dos meus amigos. Só lamentei quando  fiquei sabendo que o Flávio havia torcido o joelho numa das escadas encordadas e estava caminhando com dificuldade.

Acontece com qualquer um. Inclusive com guerreiros do Frade.  Tudo está bem e, de repente... Por isso voltamos mais devagar, com extremo cuidado. Por isso não teve como chegar ao destino ainda sob a luz do dia.

De um total de 6h15min, foram cerca de duas horas  no escuro, com lanterna de cabeça. Imagina a cena naquela escuridão,   vez por outra procurando o caminho pelo GPS, pisando na lama, na bosta de cavalo,  na água.  Por isso o Fávio foi guerreiro . Determinação e resiliência nota 10. Merece aplausos ( Uma trilha difícil, com muitas bifurcações. Sem guia é bem fácil se perder. Chame o Vitor.  Patamar de gente grande).

Chegamos no rio Bonito antes das 19h30min. Atravessamos brincando , encharcados mas extremamente felizes, radiantes. Ainda bem. O Marcelo que o diga. Cá entre nós, só conto pra torcida do Coríntians: o  botafoguense estava com medo do escuro.

Na pousada,  banhos tomados, Flávio cuidado, nada melhor do que aquela truta feita  com esmero. Pra acompanhar, cerveja, vinho e até uma caipirinha de limão cavalo com mel que eu mesmo fiz. Afinal, nós merecemos. No dia seguinte, um retorno sem transtornos.

Obrigado Flávio! Obrigado Marcelo! Obrigado Vitor! Obrigado meu Deus por nos abençoar e proteger.




Início  da grande jornada











Flávio, o esforço de um guerreiro

quarta-feira, 17 de julho de 2019

TRAVESSIA MARINS X ITAGUARÉ EM 12 HORAS

Aqui vai um breve relato da  desafiadora travessia Marins x Itaguaré. Nada de três dias, o mais correto, prudente e tradicional. De novo sob a batuta do Leo (Araucária Expedições) e em  companhia do genro/filho Danilo, o objetivo era fazer em um dia. Light/fast -- leve e rápido. 

Desta vez sem muita preocupação com contemplações demoradas. Nem os pit stops foram superiores a 15 minutos. Tudo pra ganhar tempo e treinar forte pra novos desafios. 

Nossa mochila de 20/30 litros não carregava mais que seis quilos, já considerando os 2,5/3kg de água e Gatorade, dois lanches de salaminho e queijo, chocolate, mel, castanha, damasco e carb up, além de boné, lanterna de cabeça, stick e apenas  peças essenciais de frio. Corta-vento, fleece,  camiseta segunda pele e calça de trilha pra proteger dos bambuzinhos cortantes  -- fui vítima quando teimei em ficar de bermuda por sentir calor, me enrosquei e o sangue escorreu pela canela. 

Sem dúvida, ir leve foi uma boa escolha pra quem quer jogar pesado, revisitando Agulhas Negras ou conhecendo a Pedra do Frade. Ganho de elevação aproximado superior a 1600m, pouco mais do que o somatório de perdas. 

Pra superar 18km --  distância/referência secundária perto da altimetria e demais dificuldades físicas e técnicas -- foram exatas 12 horas de pauleira, com um trepa-pedra constante, assustadoramente constante e desgastante. Exceção às duas horas finais, quando a descida pela  trilha de pouca pedra e muita terra mata adentro não  terminava nunca.  

                                 TREPA-PEDRA SEM FIM 

Viajamos no dia 10 à tarde e dormimos em Passa Quatro, no Hostel Serra Fina, do jovem  Felipe, amigo do Leo. Tudo simples e a contento, com preço justo. Sono de cinco horas ( das 23h até as 4h) foi o suficiente até pra mim, que gosto de dormir 8 horas. 

Café tomado, estômago forrado, dente escovado, bota calçada, lá vamos nós,  às 4h30min. Não sem antes o Danilo observar que o teto do seu carro estava com gelo. Também, pudera, cerca de zero grau na madrugada. 

Demoramos uma hora pra vencer a estrada de terra e chegar ao "estacionamento" no final/início da trilha que leva ou traz do Pico do Itaguaré.  

Lá já nos esperava o possante Uno do seu Clóvis, conduzido pelo Maurício. Um piloto de Marmelópolis para o mundo.  E acelera!  Maurício Senna do Brasil, diria o intragável Galvão Bueno. O cara é fera viu! Ou louco!  PQP!  E nós corajosos PC!.

Chegamos ao acampamento base do Marins ( município de Cruzeiro) pouco antes das 5h30min, pagamos o transfer  atômico e em menos de 10 minutos  já estávamos iniciando a trilha no patamar de 1530m. Num pique danado, diga-se. (O que não me impediu de, na primeira grota, ouvir o pio protetor do meu inseparável nhambu amigo). Até pensei em perguntar pro Leo se queria matar o veinho ou fundir  o motor  do trator 6.4.

Os dois abriram o turbo; eu abri o bico... logo de cara. Tanto que chegamos ao primeiro pit stop -- ou stop and go? --, o Morro do Careca,  1800m, em cerca de 45min. De cara, uma bela visão do amanhecer, com sol, nevoeiro e  muito verde. 

No segundo mirante,  um colchão de nuvens brancas, aquela imensidão iluminada... um mar de montanhas de Minas Gerais. Aquela... que quem te  conhece não esquece jamais. Mais fotos e menos roupa. Temperatura inicial de 3° já beirava os 8°.  Presumo. 

Em ritmo um pouco mais conservador, superamos vales,  vários sobe-e-desce, inúmeros trepa-pedras difíceis, um paredão vertical de uns seis metros e chegamos ao Pico dos Marins, 2.430m, depois de 3 horas e 15 minutos de caminhada tão extenuante quanto gratificante. 

Ah, também superamos a falta de educação de pseudomontanhistas que fazem necessidades nas áreas de acampamento e ainda espalham sujeira pela trilha. Um absurdo! Questão de berço.

Subida da base ao pico dos Marins não é mole  não! Exige escalaminhadas e alguma técnica. Do acampamento base ao cume, aclive acentuado e muita laje de pedra, testando força, resistência, equilíbrio, flexibilidade, respiração, determinação,  joelhos, quadril e lombar. Lá no alto, depois do lanche merecido, aquelas fotos tradicionais e bora assinar o livro de cume.  Tudo nos conformes! 

Visual exuberante de grande parte das cidades do Vale do Paraíba. E com direito a Itaguaré de frente e Pedra da Mina mais ao fundo. Deu saudade!


Itaguaré com Pedra da Mina ao fundo


Sonhando com trepa-pedra até hoje







               MARINZINHO, PEDRA REDONDA E ITAGUARÉ

As 10h em ponto iniciamos a descida do Marins. Só fomos chegar à base do Itaguaré às 16h15min. Depois de superarmos os 2.350m do  Marinzinho ( bom ponto de reposição de água quase na base e o melhor lugar pra quem precisa abortar a travessia e descer para a pousada Maeda); e  em seguida   a Pedra Redonda, que  está em 2.300m e mais parece um enorme tóten com linhas retas. Sim, retas.

Ah, também deixamos pra trás inúmeros aclives e declives, verdadeiros mergulhos sem água, que em alguns momentos exigiram cordas, determinação e extremo cuidado para evitar acidentes. Especialmente quando se fica exposto nas alturas. Resumindo: a cada descida vertical cavalar, uma ascensão agressiva,  chocante. 

Cerca de 80m finais pra se chegar ao verdadeiro cume do Itaguaré (Pedra Sagrada, com 2315m) não é coisa para juvenil não! Pedras grandes e sem apoios confiáveis,  mais escalaminhadas, angulação significativa, falso cume, corda, precipício, elevador manual do guia, pulo do gato na volta e outros sacrifícios. Ah... perto da  base também tem água saudável, mas usamos clorin por precaução.

Fotos feitas  de forma acelerada. Só faltava assinar o livro do cume. Mas cadê o livro? Não estava na caixa de metal. Acho que o guardião -- seria o meu amigo Guto, o guia nota 10? --  levou e ninguém repôs. Paciência! Sem problema. 

O que vale é a conquista. A sensação de quão nos sentimos gigantes ao chegar e o quão nos sentimos um grão de areia ao olharmos ao redor e observarmos a grandeza da natureza. Sim! É a mão de Deus, como diz o Gutão. 

Iniciamos o mergulho final por volta das 16h45min. Laje de pedra bem inclinada merece atenção especial. Se escorregar ou tropeçar, o tombo vai ser federal. Em 30 minutos, sob o testemunho do por do sol alaranjado, adentramos a mata. 

Uma ribanceira interminável! Principalmente pra quem já caminhou mais de 10 horas, está no limite físico e psicológico,  e ainda precisa se preocupar com  tropeções nas raízes expostas. Se perder a concentração o destino é o chão. 

Meia hora derradeira, já com lanterna de cabeça devido à escuridão, é menos traumática. Terreno mais plaino, beirando os riachos, favorece. Danilo abre o lacre do turbo e acelera.  Não demoramos pra chegar. Cansados,  sãos, salvos e muito contentes. 

Deu tudo certo. E a natureza nos premiou com uma beleza incomum. Chegamos quebrados, mas extremamente felizes. Lá estava o carro como deixamos. Brindamos com uma garrafinha de Pati -- pinga, gengibre, mel e limão. O vinho tomamos em casa, com a família. Afinal, merecemos. 

Obrigado Danilo! Obrigado Leo! Obrigado Senhor. 
Lindo por do sol na interminável descida do Itaguaré
 

Um trator 6.4 no pico do Itaguaré... rsrs
Danilo e Leo no Pico dos Marins















quinta-feira, 4 de julho de 2019

Mais sobre a Expedição Chapada


Conforme prometido,  faço aqui o relato  complementar  da viagem de maio à  inesquecível Chapada Diamantina. 

Nossa "Expedição Chapada" começou pela  incrível Travessia do Vale do Pati. Conforme já escrevi, foram cinco dias  de aventuras.  Cinco dias de rios, cachoeiras,  grutas, montanhas e muita trilha. 

No último dia de travessia,  depois dos deliciosos sorvetes de cachaça e de  graviola na Apollo, fomos conhecer o deslumbrante Poço Azul, próximo de Andaraí,  e de lá rumamos para  a aconchegante Mucugê, onde  jantamos e pernoitamos. 

Banho quente, boa comida, boa cerveja,  bom papo, bom sono... Prontos para encarar a cachoeira/poço do Buracão, no Parque Natural Municipal do Espalhado ( Ibicoara). 

Logo de manhã,  ao lado do amigo, motorista e também bom guia Zé Raimundo (Chapada Passeios), o Neto nos pegou na pousada, bem próxima ao iluminado cemitério bizantino. 

Foram cerca de duas horas até o parque, onde, agora sob a condução compartilhada com o  seu Janu,  caminhamos menos de uma hora, curtimos a linda cachoeira e  fizemos um rapel em paredões de 96m (cachoeira tem 85m), descendo nas águas geladas rodeadas por  rochas. 



Baixão: pousada da Bia, dona de simpatia ímpar




Rapel na cachoeira  do Buracão



Depois da aventura, nada mais justo  do que um almoço no capricho. Para variar nosso guia nota 10 mandou bem, com sucos, frutas, saladas e lanches variados. 

Barriga cheia, pé na areia!. Lá fomos nós para a pousada no povoado do Baixão,   da simpaticíssima dona Bia. Sorriso aberto,  suíte presidencial, limpeza impecável, banho bom e comida ótima. 

Sem contar a cerveja e aquela branquinha no capricho, ao som dos nambus alegrando o entardecer. Também foi legal conhecer os meninos Vitor (5 anos)e Leonardo (12), filhos de uma amiga da Bia.  O mais velho é corintiano roxo e quer ser goleiro. Já o Vitor torce pro Flamengo por influência do tio. Gozado que no Baixão pouco se fala  em Bahia e Vitória. 


Nosso sétimo dia na Chapada Diamantina foi especial. Desafio de 18km de trilha difícil pra chegar na cachoeira da Fumacinha ( mais próxima de Ibicoara, mas pertencente ao município de Mucugê) é totalmente compensador. 
Angela, Ana e Raddi flutuando no Poço Azul

Ana, Neto e Raddi na  belíssima Fumacinha:






Maravilhosamente gelada. Principal queda d'água tem mais de 100m de altura e beleza escultural. Trilhas de oito horas (ida e volta) entre matas, pedras e leito do rio são  extenuantes. Especialmente no final, faltando 200m para a Fumacinha. 

Nem todos conseguem chegar por pedras ou pela água. Nada que uma simples bóia,  puxada com  corda no máximo  por 50m, na correnteza, não resolva. Fica a sugestão capaz de evitar frustrações desnecessárias, como ouvimos  de um senhor  (Sérgio) no aeroporto de Tanquinho (Lençóis).  

Sacrifício  de muito trepa-pedra no rio valeu a pena.  Na minha opinião, uma das mais maiores e mais belas cachoeiras da Chapada Diamantina e talvez do Brasil.

Voltamos pro banho final na pousada da Bia. Não sem antes tomar um delicioso caldo de cana no início/final  da trilha. Depois, foram cerca de quatro horas de viagem cansativa até Lençóis,  onde ficamos e passeamos por mais quatro dias. 


                                          LAPA DOCE, MUCUGEZINHO  E PAI INÁCIO


Para fechar nossa expedição Chapada ainda visitamos várias atrações. A começar pela volta ao parque, com direito a cachoeiras, bacias,  antigos garimpos e salão de areia.  Nosso guia foi o Madson, outra figura comprometida com a profissão e conhecedor de detalhes históricos, geológicos e geográficos  da região. 

Ao lado de um guia local, Madson nos acompanhou  na  estonteante gruta da Lapa Doce (Iraquara), com cerca de 1km liberado aos turistas. Além da Angela e da Ana, por lá já passaram notáveis como Xuxa, Ivete Sangalo, Camila Pitanga, Ciro Gomes e tantos outros.

Depois passamos pelo Mucugezinho, onde nadamos no Poço do Diabo. Sempre sob a orientação e  cuidados do  atento Madson, que além de bom guia é taxista em Lençóis.  Tanto que nos levou ao aeroporto no dia de retornar. 

Pra completar o passeio do dia nós subimos o Morro do Pai Inácio, com uma visão espetacular  das  inúmeras montanhas da região, de onde só saímos na boca da noite. Visão é tão fascinante que nem mesmo a impossibilidade de assistir ao por do sol -- muitas nuvens --   gerou qualquer  sentimento de frustração. Foi lindo!



                              SOBRE POUSADAS, GUIAS E TRANSPORTE

Sobre guias  durante  todo o passeio nós já falamos de passagem.  Neto e Madson foram exemplares e podemos indicá-los sem restrições. Ótimos profissionais. Zé Raimundo, que nos acompanhou  no Buracão e na Fumacinha, também foi bem. Conhece do riscado. Melhor como guia do que como motorista -- pé pesado... rsrs.  

Sugiro contatos com guias autônomos -- de preferência  condutores que não incluam dependência de  maconha  no pacote de serviços, como presenciamos --  a partir de indicações confiáveis. Maioria das agências cobra bem mais. 

Quanto ao item alimentação, em Lençóis você estará sempre bem servido.  Comida pra  tudo quanto é gosto  e tudo quanto é bolso. Para aquelas comidinhas urgentes e lanches de trilha a sugestão fica por conta dos mercadinhos, sempre com preços acessíveis. 

Sobre as pousadas, no Vale do Capão ficamos na  Pé no  Mato. Gostamos. Limpeza,  banho, cama e café da manhã sem restrições. Só acho que o recepcionista não precisa forçar tanto a barra ao enaltecer  em excesso o café da manhã em detrimento da pousada como um todo.  Parecia tentar induzir  o hóspede de acordo com suas predileções pessoais.  Inconveniente. 

Maioria dos trilheiros parte  antes das 7h e o  belo café só é servido  a partir das 8h. Não  custa um funcionário entrar mais cedo de vez em quando e depois compensar.  Vila riponga  bem próxima da cachoeira da Fumaça ( 360m) é um charme. Indico.

Em Mucugê nós ficamos no Recanto da Chapada.  Tudo muito bom, inclusive o custo benefício. Só não  gostei  quando um senhora -- talvez proprietária --  colocou restrições ao  perguntarmos se nossos guias poderiam tomar o café da manhã conosco.  Como limitou o regalo ao "cafezinho", eles abriram mão, com o que concordei. Nada agradável. Só por isso eu não indico e não voltaria lá.  Preço justo, mas foi mão-de-vaca. 

Em  Lençóis, no centrinho,  nós ficamos  no Pouso na Trilha, onde também fomos muito bem tratados. Belo  e diversificado  café da manhã com cara de almoço, funcionários simpáticos e  prestativos, caipirinha da boa,  cama, banho e limpeza  a contento.  Preço nada abusivo.  Também indico. 

Sobre transporte, podemos começar pelo aéreo. Latam até Salvador. Ida e volta sem problema e com preços acessíveis. De Salvador a Lençóis fomos pela Azul. Preço abusivo por não ter concorrência e com apenas dois voos  semanais. 

Aeroporto de Tanquinho, distrito de Lençóis, também é bem chinfrim, sem infra-estrutura e com direito a banheiro sujo, sem papel higiênico e barata no saguão. Prefeitura e Azul poderiam investir pensando no turista.

Sem contar  os  constantes cancelamentos de voos por problemas técnicos ou  retornos por falta de teto em Tanquinho, onde não há aparelhos. Fique atento!  Ouvimos várias reclamações sobre cancelamentos de aéreos nada convincentes compensados por oito horas de estrada por meio de van ou ônibus. Cuidado!



segunda-feira, 3 de junho de 2019

VALE DO PATI, DE BRAÇOS ABERTOS PRA TI!

 Faz bem pros olhos; faz bem pro coração. Faz bem pro corpo; faz bem pra alma. Afinal, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Um quê de magia. Dois quês de liberdade. Três quês de superação. Quatro quês de sensibilidade. Cinco quês de admiração. Mil quês de respeito à natureza. 

Cachoeiras imponentes; rios de águas rasas e cristalinas;  poços  profundos de águas escuras como breu. Morros desafiantes; ladeiras íngremes. Grutas sinistras.   Campos gerais verde-amarelados a perder de vista. Exuberantes! Canions com paredões estonteantes.

Cenários cinematográficos. Paisagens deslumbrantes. Dignas de lágrimas; lágrimas de  emoção e  contemplação. De reverências à mãe natureza. Ali, só não ouve a voz  de Deus quem não quer. Só não sente a mão divina quem não quer. Reflexão inevitável. Quão pequenos somos nós, pobres mortais, sempre reféns de bens materiais. 

Vida simples; nativos  humildes, cativantes, trabalhadores braçais, sorrisos verdadeiros, anfitriões naturais. Assim é o baiano  Vale do Pati -- espécie de palmeira em extinção --, no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina, área de 152 mil hectares administrada (?) pelo Instituto Chico Mendes  -- ICMBio

O espaço  demarcado existe há  quase 34 anos. Nos limites, mais ao norte, ficam as  cidades de Lençóis e Palmeiras, com o charmoso distrito riponga do  Vale do Capão, onde dormimos e iniciamos nossa aventura.  Na parte central  estão Andaraí, o distrito de Igatu e a aconchegante Mucugê, antigo berço de diamantes, com o distrito de Guiné. Mais ao sul fica Ibicoara. 

Objetivo  da criação do parque é proteger  as serras do Espinhaço e do Sincorá, antigos berços de ouro, diamante, carbonato e silício. Lá existem três biomas predominantes, além de prados e campos rupestres: mata atlântica, cerrado e caatinga. E por ali serpenteiam rios, brotam quedas d'água e 300 km de trilhas de tirar o fôlego, em todos os sentidos.

Próxima ao Capão, a cachoeira da Fumaça, com 360m, é a mais alta da região. A do Cachoeirão, no Vale do Pati,  vem em seguida com 270m e aquela pedra, lugar cativo para fotos inesquecíveis.

Ao todo são 16 sítios arqueológicos, além do Marimbus, área alagada nos municípios de Lençóis e Andaraí. Uma pintura,   conhecida como Pantanal da Chapada.

Infelizmente, no parque não há  estruturas institucionais de apoio aos moradores e aos visitantes,  nem guaritas e tampouco segurança com guardas em número minimamente razoável.

Manutenção e conservação de tamanha beleza ficam mesmo mais por conta de guias e nativos, além da boa vontade de  trilheiros e turistas nem sempre tão conscientes e educados. Governos descompromissados praticamente nada investem no PNCD.

                                VALE DO PATI: DESAFIO E COLÍRIO

Fizemos -- Angela,  Ana e Raddi  -- a travessia em cinco dias, entrando pelo Capão.  Pati,   de braços abertos pra ti! Dia  6 de maio,  segunda-feira de manhã, pernas pra que te quero a partir das 9h desde o povoado do Bomba. Não sem antes ouvir as orientações do guia Neto, um condutor exemplar.  Agora um novo amigo. 

Mochilas nas costas, fotos de rostos  ainda saudáveis, lá vamos nós. De cara, equilíbrio para atravessar o rio. Em seguida a subida do Bomba. Frequência cardíaca sobe. Nada assustador.

Papo vai, papo vem: mais fotos  e mais informações locais  sempre relevantes do Neto, também corintiano e pai da Paloma, que adora futebol e se impõe nos campinhos e quadras de Andaraí.

Neto é daqueles profissionais realmente comprometidos com seu trabalho. Guia com segurança e conhecimento. Passa confiança.  Fala   da Chapada com desenvoltura, com detalhes históricos, geográficos, botânicos e culturais. 

Não tenho motivos pra duvidar, mas, a exemplo de muitos nativos daquelas bandas,  o Neto garante que viu OVNI quando trabalhava na Serra do Capa Bode -- na época de muito frio na montanha os testículos dos bodes desaparecem,  "sobem", dando a impressão de que os coitados foram capados. Ou seria obra dos ETs?

Então... bodes à parte... aclive superado, ritmo cardíaco controlado, ganhamos  a "planície"  Gerais do Vieira, por onde caminhamos por bom tempo em terreno encharcado. No seu final, antes do Rancho e da subida do Quebra-Bunda, pegamos uma chuvinha insignificante e uma densa neblina de boas-vindas. 

Porém, suficientes para exigir  corta-vento e capas protetoras, inclusive para as mochilas. A minha  agora mais pesada, porque, elegantemente,  a amiga Ana resolveu brindar a primeira noite na casa de nativos com um belo vinho chileno. Com certeza, valeu a pena. 








 Campos gerais do Vieira e do Rio Preto
Beleza ímpar e respeito à natureza


No final do Quebra-Bunda, inteiros, fomos  recompensados com janelas de visuais incríveis e  com o lanche/almoço do Netão. Pão caseiro, queijo, suco natural, mexerica,  manga, salaminho, atum, cenoura, pepino, tomate... meu Deus, que delícia.

Abastecidos. descansados, felizes e motivados, pé na trilha. Nada de subidas ou descidas no início. Um retão encharcado rodeado  por  belos morros, sempre nomeados pelo  G-10,  guia nota 10.  São as Gerais do Rio Preto. Vegetação baixa, já sem garoa e com temperatura ideal para caminhar.

Chegamos  ao famoso  mirante do Pati por volta das 17h,  com sol bem próximo de um horizonte colorido e infinito. Mais poses,  mais sorrisos, mais fotos,  mais alguns minutos... e começamos a descer a bem inclinada e temida Rampa da Ruinha/Igrejinha.  Um verdadeiro mergulho! Um "diponta" no açude , como se falava em Rio Pardo. 

Prestes a escurecer, não foi nada fácil. Risco de queda é iminente. Todo cuidado é pouco. Cerca de 30 minutos de  certa tensão, sem perder o foco.  Pior que  lá de cima dá a impressão de que a bem visível trilha final é fácil, plaininha.

Ledo engano! Tudo que desce também sobe; agora de lanterna na cabeça e um fiapo de lua no nível da montanha. Silhueta imperdível! Pra ficar na retina.

Só que a  casa do seu Wilson, depois da ladeira, lá embaixo, não chegava nunca. Nara, filha do  ausente anfitrião do dia, atendeu ao piscar de lanterna do Neto, mas depois a descida, no escuro, foi penosa. Um quiabo! Lisa, lisa! Escorreguei, mas como fechava a fila ninguém viu. Nem riu! 

Enfim, às 19h, após 22km de caminhada e um céu encantador,  salpicado de estrelas, a Nara veio nos receber de braços abertos. Indicou os quartos e disse que o  jantar já seria servido. Pra não atrasar outros hóspedes, brasileiros e gringos. 
Casa do seu Wilson: aconchego de 5 estrelas


Eu e a Angela ficamos numa quase suíte, com direito a luz. Luz! Cama boa, aconchegante, e quarto limpo. Banheiro exclusivo, bem ao lado. Chuveiro/ducha com água gelada. No ponto! À disposição até  tanquinho e varal pra lavar e secar botas e camisetas imundas e malcheirosas. 

Só pra lembrar: internet só para os moradores; captação de energia solar pra carregar baterias e alimentar tomadas e pontos de luz. Geladeira depende do gás que chega a cada 15 dias. Como quase tudo por lá, no lombo de mulas.

Então... banho tomado,  havaianas nos pés, leveza, liberdade, vinho bom, mesa farta, comida deliciosa. Só nos restava agradecer a Deus pela proteção, fazer o briefing do dia seguinte, admirar o imensidão celeste mais uma vez e dormir o merecido sono dos deuses.


MORRO DO CASTELO (LAPINHA), GRUTA E FUNIL 
Ana, Angela e Raddão na gruta de acesso ao Castelo


Morro do Castelo (Lapinha, para os nativos)
   
       Na terça-feira, após um belo café da manhã, o destino é o Morro do Castelo, pelos nativos chamado da Lapinha. Castelo foi definição de hippies e turistas. Mesmo porque, os nativos -- hoje não mais que 12 famílias que vivem do turismo e não mais as quase 3 mil  pessoas que dependiam do  extrativismo e depois do plantio  de café -- não conheciam castelos.   No  vale, antes também ocupado por quilombolas,  havia muitas casas, igreja, prefeitura e  até escola, mas castelo ninguém viu não.  

Pelas dicas do G-10, na terça-feira seriam mais cerca de 14km, incluindo o   icônico Morro do Castelo (1470m de altitude) e a Cachoeira do Funil.

Partimos com mochilas leves, por volta das 9h, pois na volta pegaríamos tudo pra comer e  dormir na dona Leia.  Atravessando e beirando  o rio, logo entramos na mata e começamos a subir. Inicialmente por terra, sem judieira: depois com inclinação pesada e por pedras, tipo escalaminhada. Por sorte, a maioria do percurso acontece pela sombra. 

Mas não foi fácil não! Creio que subimos e descemos pelo menos uns 8km.  No final da ascensão adentramos numa gruta bem ampla. Na ida  para o topo são 100m: na volta pegamos uma bifurcação e percorremos cerca de 300m. 

Valeu a pena! Visual  do Vale do Pati,  com a cachoeira do Calixto, é um colírio. Fotos de praxe nos mirantes. Hora de descansar, curtir e lanchar. Pra variar, o Neto ofereceu um belo e completo menu.

Após muita conversa e contemplação, é hora de descer. Quando o Neto perguntou se estávamos ok pra ainda encarar a caminhada até a Cachoeira do Funil, ninguém  titubeou. "Bora, manu! Aqui é  Curíntia!". Não me lembro bem o autor da frase... rsrs

Só sei que descemos pra caramba, entramos à direita e por menos de uma hora voltamos a caminhar junto ao leito  do rio. Cachoeira do Funil é bem bonita. Mergulho revigorante foi inevitável. Com algumas braçadas na água gélida. 

Voltamos já na boca da noite, pegamos as tralhas no seu Wilson e fomos pra dona Leia, uns 500m mais à frente. Também casa de pau-a-pique, energia limitada, fila nos dois banheiros,   Bohemia gelada, comida nota 7,  educação questionável,  cama quebrada, mas  sono pesado...

        CALIXTO: TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA!

Na manhã do dia seguinte tínhamos uma decisão a tomar: continuar na dona Leia ou voltar pro aconchego do seu Wilson, já que a casa da dona Raquel, nossa próxima parada, passava por reformas.  Decidimos sem titubear: voltaríamos pro sorriso da sempre educada jovem  Nara. 

Depois do café da manhã, deixamos a mochila pesada na casa do Agnaldo, meio do caminho entre seu Wilson e  dona Leia, e partimos pra vencer os 18km de ida e volta até a cachoeira do Calixto.

Andamos bastante. Sem  tantos sacrifícios. Trilha batida, sem esforço hercúleo para vencer  poucos morros e ladeiras. Pedras no leito do rio  exigiam muita atenção, mas já não representavam  obstáculos intransponíveis.

Cachoeira é de uma beleza ímpar. Mergulho e aquela cortada nas águas escuras de novo significaram músculos e mente revigorados pra retornar sem transtornos. 

Falar do lanche do Neto é chover no molhado; um exagero. E preciso contar que corri sério risco na cachoeira: não é que meninas e meninos de uma comunidade hippie acampada a uns 150m, na beirada do rio, resolveram mostrar seus dotes como ginastas e malabaristas? Verdadeiros artistas de rua. Ou de  rios e vales? 

Até aí tudo bem, mas em seguida as roupas  mínimas começaram a cair. Primeiro a loira novinha, depois a morena madura... Ficaram peladas justo quando eu olhava lá pra baixo e elogiava a destreza das meninas. 

Foi quando entendi o nome do filme de Arnaldo Jabour e da peça do excepcional  dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues,  "Toda nudez será castigada".  

Quando a Angela perguntou pro Neto se ele tinha spray de pimenta eu olhei pros lados e percebi que estava num mato sem cachorro e  que não tinha pra onde correr; o jeito seria nadar. Minha esposa virou uma suçuarana!  Uma onça! PQP!

Meio sem jeito, com aquele sorriso amarelo, o guia disfarçou e falou pra Ana que era melhor voltar porque estava ficando tarde. O céu azul deu lugar a "nuvens pretas, carregadas",  todas sobre a minha cabeça. 

Pior é que na volta tivemos de passar novamente no meio do acampamento. Por sorte  (?), meninas na moita, atrás da pedra;  meninos de costas, na água escura. E o Raddão com o rabo no meio das pernas, ganindo como um cachorrinho e  olhando pro chão, com medo de cobra. 

Brincadeiras e licença poética à parte, retornamos inteiros. Passamos da casa do Agnaldo pra pegar as mochilas, tomamos uma latinha de cerveja (R$ 10 bem pagos) e pelo menos uns três copos da caldo de cana cada um. Cortada e moída na hora, por apenas R$ 4 cada. Um néctar! Fora o bom papo do  forrozeiro Agnaldo, um dos muitos filhos da dona Raquel.

Mais alguns minutos, já no final da tarde,  e estávamos de volta ao "5 estrelas" do seu Wilson. Nossa suíte já estava ocupada, mas de novo a Nara nos alojou com carinho, num quarto limpinho, perto de quatro banheiros, da cozinha e dos tanques. 

Mais uma vez fomos tratados com carinho. De novo, um belo banho gelado e um jantar divino, com direito a arroz, feijão, macarrão, carnes, saladas, sucos e  doces de sobremesa.

No briefing diário do final do dia o G-10 já avisou que o nosso quarto desafio seria "massa". Cerca de 16km de caminhada, tendo o Mirante do Cachoeirão  e a difícil  Fenda como destaque. 

               CACHOEIRÃO: 270M DE ADRENALINA E BELEZA

De novo demoramos um pouquinho mais pra sair. Café da manhã deixa no chinelo a maioria de pousadas 3 estrelas por aí. 

Por volta das 8h33min, partiu Cachoeirão! Voltamos um pouquinho na trilha final do primeiro dia, ainda bem escorregadia por causa da chuva da madrugada,  e entramos à esquerda, direção contrária da Igrejinha.  Pegamos o  chamado Arrodeio  e atingimos outra vez as Gerais do Rio Preto. 

Caminhada não foi desgastante. Visual  fascinante! De fazer esquecer qualquer cansaço. Uma grandeza! Várias cachoeiras, com direito a arco-iris. São 270m de altura, quase três campos de futebol oficiais. 

Uau!!! Deu medo fazer fotos na ponta daquela pedra com o Pati ao fundo. Minha nossa! Mas valeu  a pena. 


Neto (profissionalismo nota 10) e Ana (determinação nota 10)

Sempre vale! 

Raddi e Angela (cumplicidade e risco calculado)


  
Um  peão admira o arco-íris

 Mais um almoço do G-10. Antes, a Ana e o Neto retornaram uns 200m e foram dar um mergulho no rio. Ana adora água. Parece uma piabinha. Voltaram em poucos minutos. Hora do rango, regado a sucos de maracujá selvagem e cajá-manga. Pão caseiro sempre com salame, queijo, tomate, cenoura, atum e frutas frescas. Huuuummm! 

 Não me lembro ao certo, mas acho que saímos do Cachoeirão por volta das 14h17min. 

Havia um grande desafio a ser encarado. Descer pela famosa e íngreme Fenda e chegar à casa do seu Eduardo ( e do neto Domingos) antes de anoitecer. Lugar fácil de se perder. Tanto que poucos fazem esse caminho sugerido pelo Neto. Até mesmo certos guias têm respeito pelas dificuldades da trilha, que incorpora o Mirante da Fenda. 

 "Bora manu!  Aqui é  Curíntia!". Essa era a senha, na base da brincadeira com um baiano filho de garimpeiro que já morou em Itaquera-SP. Só como ilustração: com 15 anos o Neto foi acompanhar o pai no garimpo e quase morreu soterrado.  Foi salvo pelos garimpeiros e levado às pressas para Salvador. Só foi  se lembrar do ocorrido cinco anos depois.  (À noite conheceríamos  o hoje também guia  Humberto,  um dos garimpeiros que o salvaram). 

Então...Superar a fenda não foi brincadeira não. Ali se separam, sim, os homens dos meninos; as mulheres determinadas das meninas dondocas, patricinhas. Coisa bruta! 

Muita ribanceira colada no  paredão do morro.  Cabos de aço colocados estrategicamente ajudam bastante. Inclusive na hora de atravessar o riacho/cachoeira com corredeira, numa grota. Ali foi punk viu! Mas superamos com categoria. Sem tombos ficaria sem graça. Faz parte. Basta limpar o traseiro e seguir em frente.  

Quando ouvimos o som das águas e chegamos às margens do rio foi um alívio. Já era tarde para tentar fazer o Cachoeirão por baixo. Agora tudo plaininho até a casa do seu Eduardo.  

Final de tarde, ancoramos ao lado de outros hóspedes, todos meio quebrados .  De cara vimos que nossa mochila mais pesada,  naquele dia excepcionalmente transportada por mula, estava ali, inteirinha. 

Casa enorme, simples e, obviamente,  às escuras.  Energia racionada, luz minimizada,  banheiro apertado, banho gelado. Escolhemos um quartinho mais apartado, onde fiz da lanterna de mão com o fio do carregador de celular um belo  e salvador "lustre".  

Ambiente não prometia, mas me enganei redondamente nas deduções, confesso. O jantar e o café da manhã (5h) do Domingos estavam maravilhosos. 

Diz o ditado que "tempero de pobre é a fome", mas não foi isso não.  O jovem Domingos  manda bem mesmo na cozinha.  Café da manhã teve até cuscuz e bolinho de chuva impecável,  melhor até do que o da saudosa tia Guinha, lá na Boa Esperança.

              LADEIRA DO IMPÉRIO E TRILHA DO CALVÁRIO

Tomamos café da manhã reforçado por volta das 5h27min. Um almoço pra enfrentar os últimos 18km da travessia do Vale do Pati até a cidade do Neto e da Paloma,  a pacata Andaraí.  

De início, 6h25min, tranquilidade beira-rio. Até o momento de atravessá-lo equilibrando em pedras pequenas, às vezes pontiagudas. Me senti um Dumbo sobre o banquinho do circo.  Ridículo!

Pra me salvar, agora com mochila pesada e centro de gravidade alterado, abandonei a Angela pra trás. Egoismo latente. Companheirismo claudicante. Peço desculpas.


Subindo a  temida Ladeira do Império...

... antes  do Calvário até Andaraí


Mas lá vamos nós para encarar cerca de 4km subindo a temida Ladeira do Império. Calçamento regular e sombra da manhã ajudam bastante. Não chegamos a sofrer muito em momento algum. Menos pesada do que os relatos me fizeram imaginar.

Pra ser sincero, pra mim foi bem pior superar a descida nos cerca de 14km  restantes até Andaraí.  Minha nossa! Sofremos viu!  Não chegava nunca. Só declive, mas com muitas pedras pequenas soltas. Torção de tornozelo ou joelho poderia estragar nossa bela e desafiadora aventura. Um verdadeiro calvário.  Haja pecados! Paguei metade!

Depois de passar pelo mirante do Alto da Boa Vista, de onde se avista  parte do  Marimbus, o pantanal da Chapada,  além da cidade de Andaraí,  mergulhamos mais alguns quilômetros entre antigas áreas de garimpo, até desembocar na rua principal e chegar  ao centro, mais precisamente na tradicional sorveteria Apolo.  

Pregados, mas felizes por cumprirmos nossa meta  de atravessar o Vale do Pati e seus belos tentáculos  por cinco dias.  Cerca de 90km, média de 18km por dia. 

Abraços e agradecimentos mútuos. "Cheiroso", sem botas, já com havaianas nos pés ( não poderia ser na cabeça, né?), dois litros de água,  pernas pra cima e um  último pedido: "Duas bolas de sorvete, por favor. Uma de graviola e uma de cachaça".  Sim, cachaça. Um néctar. Merecido,  convenhamos.
Principais atrações do inesquecível Vale do Pati

(Nossa aventura  na Chapada continuou por mais alguns dias. Depois eu conto. Quando der vontade.  Agora vou caminhar. Preciso treinar pra fazer a travessia Marins x Itaguaré). Até. 



 





x