quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O fascínio da Trilha do Ouro


Sob o testemunho  de  montanhas, florestas, cachoeiras, céu e mar,  no último feriado prolongado de 7 de setembro  fizemos a histórica Trilha do Ouro. Foram mais de 50 quilômetros entre São José do Barreiro/Serra da Bocaina/SP e o distrito de Mambucaba/Angra dos Reis/RJ.

Bom lembrar  que critérios de avaliação sobre  beleza e dificuldade obedecem  a certa subjetividade.  Mesmo sem tantos visuais longos, amplos,  de serras e horizontes  a perder de vista, fica-se encantado com a exuberância da Mata Atlântica. Sons, cores,  perfumes, águas, história e visuais de tirar o fôlego.  Beleza específica,  bem diferente da desfilada na travessia da Serra Fina, onde o por e o nascer do sol são indescritíveis.

Quanto ao nível de dificuldade,  a princípio, moderado. Obstáculos apenas para obesos,  oncotôs ( pseudo turistas/trilheiros fora do contexto) e sedentários e/ou preguiçosos. Mas se chover muda muito e fica bem difícil em função da predominância de  pedras escorregadias   na descendente.

Trilha, propriamente dita, começou por volta das 9h30min de sexta-feira, na Pousada Recanto da Floresta, no alto da Bocaina. Zé Milton e Andrea dirigem com maestria a pousada e a MWT,  de
onde partimos para 26 km em dois veículos a partir do centro de São José do Barreiro.

Da pousada, cortando caminho pelo pasto para evitar a volta da estrada, em cerca de meia hora já estávamos na portaria do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Passamos bem próximos das águas ainda mansas   do Paredão e da Toca da Onça.

Vencidos os trâmites burocráticos, "partiu" Trilha do Ouro. No primeiro dia foram cerca de 25 km  até da pousada Palmirinha. Após leve caminhada de estrada, não tivemos maiores dificuldades pra chegar à esplendorosa cachoeira de Santo Isidro, com altura superior a 80m.

Entrada da trilha à esquerda está bem demarcada e degraus descendentes nos levam à grande piscina gelada. Por ali começamos a encontrar  vários trilheiros, quase todos com o mesmo destino.

Todos ficaram maravilhados com a exuberância da  grande queda d'agua. Poucos -- Ana, Érica, Alessandra e Pedro -- ousaram molhar além das canelas. Após descanso e lanche de aproximadamente 30 minutos enfrentamos degraus agora ascendentes, lógico, e voltamos à estrada de terra, convergindo à esquerda.

Pé na estrada novamente até encontrarmos uma placa à esquerda onde se lia ATALHO. Sem tombos e sem danos, cortamos caminho pela trilha sombreada em descendente até voltar à estrada  mais ensolarada que também leva à pousada Vale dos Veados. Mas  quem quer passear  até lá só encara sem medo se tiver com  veículo 4x4.

E lá vamos nós! Herbert ( pai da Ísis e nosso grande líder), Érica, Angela, Iris, Alessandra Tambellini, o casal Gaelle/Fernando, Raddi e o jovem Pedro, que fechava o grupo e coordenava as "fotos-de- bromélia", algumas  úmidas e rápidas; outras mais demoradas e cheirosas.

Num ritmo ótimo e respeitoso, e sempre com aulas de um biólogo com mestrado em botânica, o Herbert, progredimos sem percalços. Alguns  curtos ganhos de elevação nada mais provocaram do que a subida momentânea da pulsação.

                                                             CACHOEIRA DAS POSSES

Não tardou para chegarmos ao segundo ponto de descanso, banho e lanche/almoço. Placa visível, adentramos  à esquerda e pegamos uma descida curta mas com angulação significativa. Entre eucaliptos e araucárias sobreviventes,  ainda há restos de casas de uma antiga fazenda. Por isso muitos mochileiros acampam por ali na primeira noite.

A bela cachoeira das Posses, com pouca água mas mais de 40m de altura,  nos esperava de braços abertos. As pedras pareciam  servir de arquibancadas. Desta vez não resisti e entrei na água ao lado da Érica, da Alessandra e da Ana.

Pão, castanhas, amêndoas, salamitos, parmesão, damasco, chocolate, carb-up, barrinhas de cereais, gatorade, água e outros quetais. Estômagos forrados, mochilas nas costas e muita disposição. Bora subir a trilha pra voltar à estradinha e chegar ao destino.

Em homenagem ao meu saudoso pai, peguei o seu antigo pio e chamei um inhambu. Fiquei feliz quando ele respondeu. Uma vez foi suficiente. Depois ele percebeu que a propaganda era enganosa. Ninguém sabia, mas eu sentia;  meu caçador favorito nos protegia.

Daí até a casa de fazenda de pau-a-pique seriam pelo menos mais quatro horas. Quase sempre apreciando a beleza do entorno, dos riachos cristalinos, dos vales verdes e dos contrafortes das montanhas da  inesquecível Bocaina e da Serra do Mar.

 Agora com mais subidas intercaladas com descidas. Mas o clima ajudava. Não judiava. Mesmo com o dia claro e o céu com poucas nuvens. Plantas e pássaros,   pontes e pinguelas, trilhas e estradas...Não há espaço para tristeza. Nem cara feia. Companheirismo sim, egoismo não!

Na bifurcação que indicava pousada Barreirinha à esquerda e Vale dos Veados à direita,  pegamos  a primeira opção. Não sem antes o Herbert começar mas não terminar a  hilária história de um editor/oncotô apelidado de Sete-Léguas.

Só posso garantir que o Sete-Léguas deu um trabalhão danado por não estar preparado para a empreitada. Sei que o imprudente  trilheiro foi amparado por todos e chegou ao final da trilha. Estropiado, sem "flechas, sem  uma saca de café e sem  um grama de ouro sequer".

Voltando à  trilha. A  essa  altura, faltando  cerca de duas horas para o destino do dia, alguns companheiros nossos já estavam um pouco mais aliviados, já que o Naldo, filho da dona Palmira, veio ao nosso encontro com uma mula salvadora. Menos peso, mais disposição.

E lá vamos nós novamente! As  tagarelices diminuem, mas as informações relevantes do professor continuam. Agora as sombras já são mais frias e escuras. Antes das 18h somos orientados a lançar mão das  salvadoras lanterninhas de cabeça.

Foi quando minha esposa soltou uma pérola:"Chiii! Minha lanterna não ilumina nada. Olha só! O que será que aconteceu?" Parei, pensei e não resisti:"Chu, quem sabe se você ligar? Talvez acenda né?"  rsrsrs

Brincadeira à parte, já estava mesmo escurecendo. E nada de chegar nem mesmo na Barreirinha, pousada onde ficaram muitos outros trilheiros. Mas não nós, que optamos pela hospedagem da dona Palmira,  de quem só ouvíramos elogios.

Casa de pau-a-pique, sem energia elétrica, mas  extrema simpatia dos anfitriões. Banho quente sustentado pela serpentina do fogão à lenha e um  sonhado jantar  com  arroz, feijão,  macarrão, lasanha,  batata frita, carne de porco,  frango de panela, linguiça... Viajei na imaginação.

Meu Deus! Eu não comentei nada com ninguém, mas já estava salivando só de imaginar. Banho, comida e cama... Se tiver uma pinguinha... Estava cansado, mas não extenuado. Até que, após uma pernada de 25km,  chegamos à  aconchegante pousada,  por volta das 18h43min.

Dona Palmira, Naldo e Luciane são muito simples, prestativos e simpáticos. Tudo confirmado. Jantar à luz de velas estava ótimo. Cozinha  esfumaçada, com  linguiça e peças de porco dependuradas naquela vara alta sobre o fogão,  me fez lembrar da casa da vó Lica, na  saudosa fazenda Boa Esperança, onde praticamente fui criado.

Quanto ao sono, fomos privilegiados por dormir numa cama de casal. Simplesmente desmaiei. Só fui acordar lá pelas 7h. Ouvi o galo cantar mas fiquei quieto,  no quentinho. Café da manhã também estava delicioso, com bolo, pão de casa, mel, manteiga, queijo e extrema  cordialidade da dona Palmira.

                                               PONTES, PINGUELAS,  SOMBRA E ÁGUA FRESCA

Fotos, abraços, agradecimentos e despedidas. Partiu Trilha do Ouro, segundo dia. Apenas 10km. Mais descidas. Poucas subidas. Nada desgastante. Mas muito cuidado! O ditado  diz que "na descida todo santo ajuda", mas não é bem assim. É preciso  respeitar e manter o foco. Se vacilar toma chão.

Acho que saímos depois das 9h. Descansados e motivados para a nova e curta jornada até a casa do Zé do Zico.  Foram  poucas subidas e muitas descidas mata adentro,  já com o caminho trilhado por tropeiros sobre as pedras remanescentes do sacrifício de escravos.

Pra quem não se lembra, os primeiros a demarcar a trilha foram os índios Guaianazes. Depois o caminho teria sido alternativa para se descer com o ouro das Minas Gerais até Paraty, burlando o pagamento de impostos.

Em seguida, por meio de carroções de bois, serviu para o escoamento do café do Vale do Paraíba até o porto.
Hoje, apenas raros moradores do PNSB, guias e turistas trilheiros amantes da natureza. Como nós.

Percurso, entre matas, pontes e pinguelas, sempre margeando o rio Mambucaba, foi bem tranquilo para todos. Chegamos no  Zé do Zico por volta do meio-dia, se não me engano.  A famosa gaiola de tantas fotos parece estar aposentada. Para atravessar o rio e chegar andamos mais um pouquinho e  utilizamos uma ponte pênsil.

E  de cara já deu pra perceber que não seria tão tranquilo. Se na noite anterior os trilheiros se dividiram entre Barreirinha e Palmirinha, desta vez todos ficariam no mesmo espaço, dentro de casa ou em barracas próprias ou alugadas.

Pernoites definidos. As seis meninas ficariam num quartinho com três beliches. Nós, homens, ficamos em outro quarto. Também apertado, mas não menos limpo e aconchegante. Marcamos terreno, deixamos as mochilas e saímos para conhecer a famosa Cachoeira do Veado.

Nada mais  que  25 minutos,  de novo a ponte pênsil e outra pinguela. E lá estávamos nós diante de três esplendorosas quedas d'água que superam 100m de altura. A primeira não dá nem pra ver de perto.

Por pura  precaução, não entramos na correnteza. Mas fizemos fotos -- como a que abre o texto -- e curtimos muito por mais de uma hora. O suficiente pra  forrar o estômago, colocar a conversa em dia e aprender ainda mais  sobre botânica com o Herbert.

Na volta pra pousada a dúvida  principal era sobre o banho: frio no rio, sem fila, ou quente, no banheiro das meninas, com direito a "senha". A maioria do nosso grupo optou pelo rio e se deu  bem.

Eis que chega a esperada hora do jantar. Macaco velho, precavido, Herbert sugere que  antes das 18h a gente já fique por perto, no salão, jogando conversa fora até colocarem os panelões.

Com pouca luz de energia produzida por baterias, começam a colocar a comida para um verdadeiro batalhão, cerca de 65/70 pessoas: um panelão de feijão, um de arroz, um de purê, um de carne/churrasco,  um de cenoura... Não  me lembro se tinha macarrão.

Os panelões estavam no claro, na enorme  fila que se formou após o sinal do Zé do Zico predominava o escuro. Estratégia do guia provou-se acertada, já que fomos os primeiros a nos servir. Cara,  fiz um prato vergonhosamente montanhês. Eu quase não enxergava a Ana, à minha frente. Nome do abuso? Serra da Bocaina.  Juro que não repeti.

Gozado, e bom,  é que a fila andou muito rápido. Pelo jeito todo mundo estava com fome e acelerou nos panelões. Por isso quem pretendia  partir pro segundo tempo acabou caindo do cavalo.

Tinha  coca e até cerveja gelada, mas aquela pinguinha que sobrou no Naldo faltou no Zé. Diz a "lenda" que os pedreiros que foram fazer o novo fogão à lenha tomaram três litros. Resultado: fogão torto, mas comida boa.

Sem disposição suficiente  pra curtir a conversa  ao redor da fogueira, nosso grupo não demorou pra ganhar o caminho dos sonhos. Não sem antes se encantar com uma "procissão"  de vaga-lumes.  Cama simples e sono profundo. Só interrompido na hora de tirar "foto da bromélia úmida" e aproveitar para admirar o céu emoldurado por milhões de  estrelas.

(Vaga-lume ou pirilampo são denominações comuns de insetos coleópteros  das famílias Elateridae, Phengodidae ou Lampyridae, notórios por suas emissões de luz fosforescente).

(Bromélias: designações de plantas do gênero Bromélia, da família das bromeliáceas, com 48 espécies terrestres, nativas da América Tropical. Algumas têm fruto comestível e/ou fornecem fibras, mas são cultivadas como ornamentais) -- singela brincadeira em  homenagem ao nosso biólogo.

Então... Enquanto eu via estrelas lá  fora,  lá  dentro, de madrugada,  as meninas, especialmente Iris e Angela,  tinham a companhia de um gato miando no  alto das paredes sem forro, junto ao telhado meio esfumaçado.

Dúvida cruel:  não era uma suçuarana, mas a cada miado elas  se arrepiavam e  imaginavam que o danado poderia pular,  provocando um estardalhaço. Exatamente o oposto do segredado pelo Herbert, já que fazer silêncio era primordial pra quem  queria sair à francesa, sem acordar ninguém. 


                                       NA DESCIDA TODO SANTO AJUDA?

Conforme  sugerido e combinado com o Herbert, no terceiro dia acordamos  por volta das 5h, antes de todos os outros trilheiros. Fora da casa havia cerca de 35 pessoas ainda dormindo,  distribuídas em 17 barracas. Por isso tomamos café  simples antes de todos e, às 6h, fomos os primeiros a ganhar a trilha. Sempre na companhia do amigo "Mambuca".

Por precaução, já que a Gaelle não passava muito bem, o Herbert optou por alugar um burro. Providência mostrou-se acertada. Como todas as outras implementadas pelo guia/médico/amigo.

Foram 18 km muito interessantes. Piso secular, mata fechada, árvores frondosas como as figueiras,  plantas minúsculas,  água em abundância e pássaros  aos borbotões. Uma festa na floresta. Como convidados, cabe a nós respeitá-la e preservá-la.

Não vimos onça parda, nem pintada. Tampouco cobra peçonhenta,  macaco bugio ou muriqui. Mas ouvimos inhambu, pomba,  sabiá,  gavião, araponga, tucano... E vimos um bando de tangarás-dançarinos. Que privilégio! Uma bênção!

Ganho acumulado de elevação (GAE) chega a apenas  950m em três dias. Perda acumulada  beira 2,5 mil metros. Portanto, é  descida constante, a maioria sobre as pedras lisas colocadas  pelos escravos nos séculos XVII, XVIII e XIX. Vantagem é que a angulação é baixa e favorece.

Na descida todo santo ajuda? Nem sempre! Se estivesse chovendo, com certeza a trilha ficaria bem difícil e  não  chegaríamos ao distrito de Mambucaba sem  cortes, lesões e contusões. Mas foi tudo bem. Nenhuma baixa significativa.

Nosso descanso mais longo foi onde o rio Santo Antonio deságua no agora grande Mambucaba. Estômago forrado, sede saciada, corpo refrescado, lá fomos nós para os  4 km finais. Atravessamos uma ponte pênsil --  bem pensa  para um dos lados, por sinal -- e não demoramos para chegar  ao nível do mar.

Sinal de civilização. Não gostei. Especialmente porque  percebi que ali não existe qualquer portaria pra controlar entrada e saída de pessoas no PNSB. Um parque nacional bem maior do que o de Itatiaia mas que recebe verba irrisória  perto de suas necessidades básicas para conservação e fiscalização decentes.

Com a palavra, as  digníssimas autoridades estaduais e federais.  Se é que elas não se omitem e fazem vistas grossas exatamente porque ultimamente Angra virou terra-de-ninguém. O tráfico comanda e  pode já estar a ditar regras nas franjas do parque. 

 Então...dentro da hora marcada, 14h, lá estava a confortável van à nossa espera ao lado da ponte de arame. Com um bom motorista, não demorou muito para superarmos a  Angra dos Reis de nuvens carregadas pela Rio-Santos e depois da usina  nuclear entrar na direção de Lidice, Rio Claro-RJ, Bananal-SP, Arapeí e finalmente São José do Barreiro, num lindo final de tarde e início da noite.

Se valeu a pena? Sim, muito. Fascinante!  Família MW Trekking foi show de bola. Fica aqui nossa gratidão a todos, especialmente ao Herbert e ao Pedro.  E a todos pelo companheirismo, sinônimo de respeito quando o grupo está acima de cada um de nós.




   

 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Cordillera Blanca: um paraíso imperdível

Sim,  a Cordillera Blanca, ao norte de Lima, capital do Peru, é uma atração turística imperdível. É simplesmente maravilhosa. E desafiadora.
Pra quem gosta de aventura, um prato cheio.  Pra quem gosta de beleza, um colírio. Montanhas, nevados, vales e lagunas estonteantes. Muitos acima de 6 mil metros de altitude. 
Mais uma vez nosso passeio só se efetivou por obra e arte do Milton e  da Mari, companheiros de viagem  insubstituíveis.  Trilha Salkantay/Machu Pichu, Deserto do Atacama/Chile e agora Trek Santa Cruz/Cordillera Blanca.
Nossa doce loucura aconteceu  entre 9 e 21 de junho, logo no início da Copa do Mundo. Embarcamos dia 9 e voltamos dia 21. Avião da Latam ficou devendo. Decepcionante. Chinfrim!
Em Lima,  alugamos um  bom carro e viajamos  400 km pela Carretera Panamericana Norte até a capital do departamento de Ancash,  Huaraz, nosso quartel-general.
Entre as cordilheiras Branca e Negra, a cidade agora com 120 mil habitantes foi  destruída  -- assim como sua vizinha  Yungay -- pelo terremoto de maio de 1970. Sinceramente,  Huaraz (3.700m) é hospitaleira, mas feia. Com ferragens à mostra, construções inacabadas e sem pintura parecem prontas para mais um puxadinho pra receber noras e genros.
Guardadas as devidas proporções, o trânsito é tão caótico quanto o de Lima. Não há transporte coletivo. Vans malucas e táxis estridentes ditam o ritmo e o som. E dá-lhe buzina! 
Mas em uma semana dá pra acostumar. Inclusive com o  escandaloso domínio do Corolla branco. Aquele tipo banheira. Se Yungay é conhecida como Cidade Sepultada, a ressuscitada Huaraz merece o slogan de capital mundial do Corolla branco. Meu Deus! Um absurdo! Táxi, ambulância, pick-up... Supera até o tradicional e estranho tuc-tuc,  moto-táxi que só falta virar ônibus e metrô.

O comércio huaracino é forte, dinâmico. Especialmente no entorno da  conhecida Praça de Armas. Ruas principais parecem formigueiros. Inúmeros restaurantes e  mercadinhos são bons e  aplicam preços mais justos do que os nossos.
ACLIMATAÇÃO INDISPENSÁVEL
Fizemos vários passeios  indispensáveis de aclimatação antes de encarar os quatro dias pesados do famoso trek Santa Cruz, também dentro do Parque Nacional Huascarán, nome do  nevado mais alto do Peru, com 6.768m no cume sul.
No primeiro dia, de carro e com curta mas cansativa -- altitude! -- caminhada até o mirador,  conhecemos a  linda Laguna Paron,   circundada e protegida por nevados  não menos exuberantes: Pirâmide de Garcilaso ( 5.885m), Chacraraju (5.105m), Caraz (6.020m), Pisco (5.750m), Artezonraju ( diz a lenda que o nevado de 6.025m é a referência que aparece na abertura dos filmes da Paramount Pictures, mas há controvérsias) e os quatro Huandoy, o mais alto deles ao norte, com 6.395m.
No segundo passeio de adaptação à altitude o destino foi a Laguna 69, a  4.605m do nível do Oceano Pacífico. Desnível acentuado, com ganho de elevação superior a 700m. Trilha pesada, com mais de cinco horas de pernada encarando cotovelos  intermináveis. Mas   ver aquela água azul turquesa colada no  Chacraraju valeu a pena. Sensacional!
Pra chegar na 69, passa-se na região de Llanganuco, onde estão as  belas lagunas Chinancocha (fêmea) e Orconcocha (macho). Um paraíso de águas verdes, quase aos pés do imponente Huascarán.
No terceiro dia pegamos leve. Fomos de carro -- conhecemos a   planta puia Raymondi --  até bem próximo do Glaciar Pastoruri, com 5.245m de altitude. Muito bonito e com direito a encontrar um casal de Santo André -- Fernando e Luciana, se não me engano. Por causa do aquecimento global o glaciar perde em média 35 metros de gelo por ano e não sobreviverá a mais duas décadas. Que pena!
A altitude pegou. Faltou oxigênio na lenta caminhada de menos de dois quilômetros.  Sobrou frio. Vento também. E de repente nevou. Com menos de três graus, o remédio salvador foi o caldo de  cordeiro inigualável da dona Vitória. Naquele exato momento, o melhor do mundo. Batatas, ovos e milho especial pra acompanhar. Aí esquentou!
        
 O DESAFIO DO TREK SANTA CRUZ 
De 14 a 17 de junho, nosso grande desafio, o trek Santa Cruz. São cerca de 60 quilômetros,  de Vaqueria a Cashapampa. O normal seria no sentido inverso, mas, por sugestão do sempre prestativo Scheler,  da  agência Scheller Artizon, começamos por Vaqueria. Ainda bem! Foi mais suave.
O primeiro dia não foi tão pesado. Do povoado de  Vaqueria ( altitude de 3.500m) até o acampamento de Cachinapampa (3.700m) alternam-se descidas, subidas leves e terrenos plainos em sete quilômetros,  vencidos em  menos de seis horas.
Porém,  no segundo dia a pernada foi muito pesada. Depois do tradicional chá de coca pra combater o mal da altitude e do café da manhã reforçado foram mais de oito horas de caminhada para superar 12 km, com pelo menos uma subida e uma descida de fazer qualquer cristão  gemer pra pagar os pecados.
Ganho de elevação foi o maior do trek: mais de 1.000m. De descida foram cerca de 500m até chegar ao acampamento Taullipampa (4.250m). Ponto mais alto do dia e do trek foi o Punta Union,   passagem  em 4.750m de altitude, ao lado de  lindos nevados e duas lagunas de encher os olhos. Pra encerrar,  um belo jantar  da Justa e  aquele sono  sem tanto  frio e sem banho. Só na toalhinha umedecida!  (Rsrs)
Terceiro e quarto dias não foram tão estafantes.   De Taullipampa a llamacorral (3.760m) foram 11.5 km. Com ligeira chuvinha.
Não conseguimos avistar o belíssimo e famoso Alpamayo por causa da neblina e do tempo nublado. Mas o final da tarde foi recompensado pela  deliciosa cerveja Cusquenha ao lado da  guia e  boa cozinheira Justa --  pronuncia-se "Rusta" -- e do guia Nick. Seu Vicente, responsável por burros, cavalos e montagem de barracas e tendas,  preferiu uma  inka-cola. Gente boa!
No quarto dia foram 9.2 quilômetros e  menos de cinco horas de muito  mais  descidas ao lado do rio do que ascensões. Mas todo cuidado na ribanceira  final é pouco.  No somatório de sobe-e-desce mergulhamos cerca de 800m até Cashapampa (2.970m).
Chegamos  a tempo de ver o final da derrota  de 1 a 0 da Alemanha para o México. Apesar de muito cansados e felizes, não conseguimos ver o empate de 1 a 1 do Brasil com a Suíça. Afinal, foram  mais de três horas de van até Huaraz. Tudo por uma ducha quente, um banheiro  com vaso em vez de buraco na terra preta 9e uma cama  de verdade, sem isolante térmico nem saco de dormir.
No dia seguinte, nada mais justo do que um descanso, sem caminhada, com comida boa, vinho, cerveja, suco de granadilla e chocolate à vontade.
Pra encerrar nossa expedição Cordillera Blanca ainda encaramos a Laguna Rajucocha,  bem aos pés do Huantzan (6.395m). Com a estrada ruim, deixamos o carro no meio e  caminhamos mais de seis horas -- ida e volta -- ao  lado de gado e  de ovelhas brancas e negras. Tudo muito  plaino e bonito no vale. Valeu a pena!
No último dia,  depois de vencer os  intermináveis caracoles da carretera na saída de Huaraz, chegamos a Lima a  tempo de comer um ceviche delicioso no famoso bairro de Miraflores.
Quanto ao trânsito, deu vontade de chorar. Um caos!  Mas  nada que abalasse ou apagasse o brilho de olhos felizes e corações acelerados. Afinal,   o quarteto Trilheiros do Peru acabava de  conquistar e abraçar uma cordilheira digna da morada dos deuses.

domingo, 8 de julho de 2018

Serra Fina: enfim, o sonhado abraço

Felizmente, desta vez sem a dor da frustração. Enfim, o merecido abraço! Exatamente  ao meio-dia de quinta-feira, dia 5 de julho de 2018. Foi quando, na BR-354, em Itamonte-MG,  conseguimos -- Raddi, Léo e Daniel  -- concluir a difícil travessia da temida mas fascinante Serra Fina, na Mantiqueira.

Poucos sabem, mas significa a realização de um sonho acalentado desde  setembro de 2003. Isso mesmo! Há 15 anos, quando subi pela primeira vez o Pico de Agulhas Negras,  me lembro de ter perguntado ao guia Jerônimo, da Gute Expedições, sobre a tal Pedra da Mina:

-- Onde fica a Pedra da Mina?

-- Ali, bem à nossa frente. Deve ser oficializada pelo IBGE como quarto pico mais alto do Brasil, superando Agulhas.

-- Difícil subir lá?

-- Tá de brincadeira! Bem difícil. Só gente treinada, determinada e experiente. Dá pra subir e descer no mesmo dia, num bate-e-volta, mas o ideal é dormir lá, descansar e curtir por e nascer do sol.

-- Quem sabe antes dos 60? Ainda tenho 48 anos.

-- A Pedra da Mina pode ser, mas a travessia da Serra Fina é quase impossível.

-- Como assim? Que travessia?

-- Sim, uma travessia  de quatro dias que vence vários cumes acima de 2 mil metros de altitude, incluindo a Pedra da Mina (2.798m).

-- Nossa! Não é pra mim.

Assim terminou nossa conversa em 2003.

E não é que em 2015, com exatos 60 anos, eu  e a Ângela, minha esposa,  fizemos um bate-e-volta na Pedra. Sob o comando do Guto,  amigo e guia top de Passa Quatro, subimos o quarto pico mais alto do País em seis horas, descansamos e contemplamos a paisagem durante 60 minutos e  descemos até o Paiolinho em cinco horas. Uma senhora conquista, diga-se.

Então, por que não a travessia da Serra Fina? Ideia amadurecida, hora de treinar.

Primeira tentativa aconteceu em setembro de 2017, mas amigo irmão Zé Luiz sentiu dores insuportáveis nos joelhos. Fomos  até o Capim Amarelo, onde passamos a noite, mas retornamos no dia seguinte.

Fiz nova tentativa há dois meses,   em companhia apenas do Léo,  guia da Araucária Expedições. De novo a Serra Fina não me deu permissão. Fomos até a Pedra da Mina,  mas precisamos abortar pelo Paiolinho devido a chuva e raios, sinônimos de perigo a ser respeitado.

Como costumo ser teimoso e determinado, não me dei por vencido. Após fazer a belíssima Cordillera Blanca,  nas respeitáveis altitudes do Peru, resolvi novamente ir ao encontro da Serra Fina.

E desta vez não deu outra!  Ela, minha eterna  deusa,  me recebeu de braços abertos. Treinado, motivado, determinado e consciente de minha capacidade, encarei a bitela  na semana passada. Estava preparado para o desafio gigante, para as dores e para o frio. Tudo no limite.

Foram  dois dias, duas noites e mais 3h30min acima das nuvens para concluir cerca de 33km montanhosos de uma beleza indescritível. Um pega-pra-capar. Coisa de gente grande, bruta. Modéstia  à parte,  mandei bem. Tradicionalmente a travessia é cumprida  em quatro dias e três noites. Por gente do ramo, experiente e bem treinada.

Viajei para Passa Quatro  logo depois da vitória do Brasil sobre o México e dormi no hostel do Guto. Na terça-feira, eu e  o Léo saímos da Toca do Lobo às 7h15min.  Pegamos água, "desfilamos" no Passo dos Anjos depois de superar o Quartzito (2035m) sem muita dificuldade e após algumas cordadas e escalaminhadas chegamos ao Capim Amarelo (2490m) às 10h45min.

Pra se ter uma ideia, na primeira vez demoramos 7h15min: na segunda, 5h45 min, e agora apenas 3h30min.  Nem acreditei. Como previsto,  assinamos o livro do cume e passamos batido, já que a intenção era fazer a travessia em três dias.

Então  descemos o precipício do Capim até o acampamento Maracanã, onde encontramos e adotamos o pai da Sarah, mais conhecido como Daniel. Gente boa, escalador, formado em Farmácia e representante de laboratório farmacêutico, o moço de Pindamonhangaba foi excelente companhia. Show de bola  o respeitável Juvenil!

Decididos a dormir na Pedra da Mina, descansamos um pouco, nos alimentamos, matamos a sede e tocamos em frente. Sempre em companhia de pedras,  cristas estreitas, capim elefante e bambuzinhos.  Passamos pelo pico do Melano (2.570m) e depois de muito sobe-e-desce chegamos à Pedra da Mina, por volta de 17h.

Arrebentados, diga-se de passagem. Mas determinados e felizes.  Quando alguém pedia pra respirar era a salvação dos três.

Afinal, foi uma pernada de quase 10 horas para ver um por do sol inesquecível. Um  absurdo ganho de elevação acumulada de 2.200 metros nos credenciou a  acordar acima das nuvens e a ver um nascer do sol magnífico, com jeito de explosão nuclear,  a cores. Sem contar que  nesse dia descemos mais de mil metros e isso também pesa muito.

Não passamos frio porque acampamos 10m  mais abaixo,  protegidos do vento, ao contrário de outros trekkers que optaram pelo topo. No dia seguinte, quarta-feira,  tomamos o  bom café   sem açúcar do Daniel, assinamos o livro do cume e às 9h descemos em direção ao belo Vale do Ruah (vento, sopro de vida,  em hebraico).

Atravessamos  charcos margeando o Rio Verde -- lugar fácil de se perder no capinzal cortante e tropeçar nos tufos escondidos -- e em seguida vencemos o Pico do Brecha (2.570m). Sobe, desce, descansa, respira, faz piada, mata a sede... Pouco depois já estávamos no Cupim de Boi (2530m) e mais perto do Pico dos Três Estados (2.665m e 10° do país).

Bem pertinho da gente, o helicóptero Águia da PM-SP,  que durante todo o dia procurava o jovem Luís Cássio, perdido desde quinta-feira, fez um quase pouso sobre as pedras, onde saltaram dois bombeiros. Em seguida voltou com mais três.

Ficamos otimistas, oramos e na manhã do dia seguinte tivemos a confirmação de que Luís Cássio  fora resgatado com sucesso e passava bem. Inexperiente, só não deveria estar sozinho. Faltaram responsabilidade e bom senso. Sobrou sorte.

Eram 16h30  quando deixamos o Três Estados e  estrategicamente esticamos mais meia hora até o último acampamento antes do Alto dos Ivos (2.510m), adiantando a pernada do dia seguinte.

No segundo dia o ganho de elevação e a perda  foram semelhantes, cerca de  mil metros. Pernada de oito horas. Mas na Mantiqueira quilometragem é  item secundário; vale mais ter como referência o que subimos e descemos e quanto peso carregamos na cargueira, além de clima e temperatura.

Na quinta-feira, de novo um lindo dia. É a magia, o fascínio da  nossa Serra dos Bambuzinhos. Acordamos cedo, vimos o nascer do sol sob o testemunho de Agulhas e Prateleiras e saímos do acampamento às 8h30, logo depois da passagem dos bombeiros, que  após o ato heroico do dia anterior resolveram abdicar da aeronave e voltaram a pé até a BR-354.

Trajeto  final foi bem interessante  e tranquilo. Ultrapassamos e fomos ultrapassados pelos "heróis" várias vezes. No final, quando todos aguardávamos os  respectivos resgates na BR-354, conversamos  regados a  lanches, bolos, banana, suco, chocolate quente e queijo parmesão.

E conhecemos o Plínio, bombeiro que acabara de correr os 235km  da Uai, tradicional  corrida pelas bandas do Sul de Minas. Coisa pra gente grande. Gigantes!

Perto dos outros, o terceiro dia foi café pequeno. Muita descida perigosa, depois a delícia da  mata fechada, estrada até o sítio do Pierre --  pretensa pousada que não vingou por estar em área de proteção ambiental  e ferir a legislação -- e  finalmente a sonhada rodovia da vitória.

Na chegada, aquela sensação gostosa de leveza,  de felicidade, de  batalha vencida, de conquista, de gol decisivo no último minuto da prorrogação. Afinal,  no acumulado foram cerca de 3.2 mil metros de subidas e 3.2 de descidas.

Não tem moleza não! A serra dos bambuzinhos e dos elefantes faz suar, sangrar e chorar; de dor e alegria. Faz parar e contemplar. Faz o silêncio ganhar vida e virar poema. Faz  a sombra ganhar brilho e virar fantasia. Faz o vento ganhar rima e virar poesia.

Também faz sonho virar realidade.  Um momento mágico, emocionante. Faz ter certeza de que a conquista  deve ser partilhada com filhos, netos, irmãos, esposa e amigos. Aquela certeza de que sim, é possível. Aquela certeza de que  tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Obrigado Léo. Obrigado Daniel. Obrigado senhor!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Ode à grandeza da Serra Fina

A montanha
Ah, a montanha!
Quanta beleza, natureza
Quantos segredos

A montanha
Ah, admirável montanha!
Sobe, desce, sobe, desce...
Sol aparece, sol desaparece

A montanha
Ah, o vento gelado da montanha!
Quando quer ela congela o corpo
Mas  também aquece o coração

A montanha
Ah, que montanha!
Ela abraça, sussurra
Ela beija, dá colo, aconchego

A montanha
Ah, a montanha!
Ela sorri e também chora
Ela é da  Mantiqueira

A montanha
Ah, essa montanha!
Ela é serra, nos domina
É a  indescritível Serra Fina

A montanha
Ah, a surpreendente montanha!
Ela é bela, é fera, é fina
É mulher, é criança,  é menina

A montanha
Ah, dona montanha! Indomável!
Tu recebes e repeles
Igualmente induz e seduz

A montanha
Ah, essa montanha!
Ela é estrada, é trilha
Ela  é nascente, é toca, é lobo

A montanha
Ah, a montanha!
Riacho límpido, água rara
Travessia, magia, hipotermia

A montanha
Ah, esse mar de montanhas!
É garoa, chuva, raio e trovão.
Hora de reflexão!

A minha, a nossa montanha
De cada guia, de cada dia
Farol de luz,   garra e determinação
De respeito, companheirismo e devoção

A montanha
Ah,  "maldita" montanha!
Dá calor e carinho  apenas aos fortes
Faz correr sangue,  suor e lágrimas

A montanha
Ah,  bendita montanha!
É  cotovelo, é quartzito
É passo, é anjo, é precipício

A montanha
Ah, a montanha!
É camelo, é ombro, é corda,
É  bambu, é  livro, é cume

A montanha
Ah, minha cara senhora!
É capim elefante, cortante
É tico-tico, é beija -flor

A montanha
Ah, a montanha!
É conquista, é ouro
É o Capim Amarelo

A montanha
Ah,  que montanha!
É prosa, é verso
É concavo, é convexo

A montanha...
Meu morro dos ventos uivantes
Serra de tantos cantos e encantos!
Maracanã,  Melano, Tartarugão

A montanha
Deusa a povoar meus sonhos
Cachoeira Vermelha, Rio Claro
Vale do Ruah, Rio Verde e Cupim do Boi

A montanha
Ah, a montanha!
É  foto, é moldura, é depressão
É pôr do sol e lua cheia

A montanha
Ah, a montanha!
É Marins, é Itaguaré
É crepúsculo, laranja,  vermelho

A montanha
Ah,  montanha iluminada!
É aurora, é neblina
É Pedra da Mina

A montanha
Ah, a montanha!
Sobe, desce, cai, levanta
Vitórias, derrotas e dores momentâneas

A montanha
Ah, a montanha!
Céu, inferno, sombra,  paraíso
É hora de confessar e  ter juízo

A montanha
Ah, a montanha!
É tristeza, é decepção, é frustração
É alegria,  é  leveza, é esperança,

A montanha
Ah, a montanha!
É impotência, é paciência
É prudência, é resiliência

A montanha
Ah, a montanha!
É força, é resistência
Sabedoria,  conquista, inteligência,

A montanha
Ah, a montanha! Tu és única!
É foco, é atitude, é altitude
É sensibilidade, é parceria

A montanha
Ah, a montanha!
É loucura, é paixão
É clímax, ápice, emoção

Montanhas, pecados, sonhos...
Agulhas Negras, Pedra da Mina...
Aconcágua,   Everest
O topo do meu mundo

A montanha, a vida, os conflitos
Minha  amiga inseparável!
Com humildade e  muito respeito
À tua grandeza,  uma sincera reverência

Sinto que na montanha
Estou nos braços da paz
Se eu não voltar um dia
Simplesmente, sorria!

Nada de lágrimas
Fui  porque Ele quis
Tome um vinho por mim
Fui embora feliz

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A Serra Fina e a dor de uma frustração

Olá pessoal! Olha eu aqui outra vez.  Afinal, quem tá  vivo sempre aparece. Vivíssimo!

Após longo e tenebroso inverno,  volto ao blog pra falar de uma frustração pessoal. Uma dor momentânea que soa como um corte na alma. Mas há de cicatrizar. Vai cicatrizar!  Tenho certeza!

Afinal, é preciso perseverar. Desistir só machuca. Deixar de sonhar é o caminho mais curto para definhar. Para a derrota ser definitiva.

Pela segunda vez, não consegui completar como queria a  difícil travessia da Serra Fina, uma das belezas indescritíveis da incrível Mantiqueira, a montanha que chora.  Em tupi-guarani, gotas d'água.

Depois de fazer em 2015 um bate-e-volta  de  12 horas até o cume da Pedra da Mina,  até então o quarto pico mais alto do Brasil,  senti que deveria me preparar para a desafiadora travessia.

Na primeira semana de outubro de 2017 eu lá estava, ao lado do amigo Zé Luiz e do guia Leo, de Passa Quatro-MG. Tudo pronto. Logística aceitável,  com poucas falhas.

Porém, não passamos do Capim Amarelo. Meu grande amigo sentiu dores insuportáveis nos joelhos, o que o impedia de continuar e ficar na dependência de um resgate via helicóptero.  Nem pensar! Tamujuntu!

Tivemos de nos contentar com um pôr-do-sol incrível no Capim Amarelo, combinado com o nascer de uma lua cheia maravilhosa no vértice da Pedra da Mina, palco também do brotar do sol no dia seguinte, quando descemos com dor no coração.

Teimoso, não me dei por vencido. Subida,  descida; com peso, sem peso; rua, montanha, Pedra Grande, escada da igreja Matriz. Treinei muito. Me preparei muito pra tentar novamente superar o desafio. Singela homenagem aos meus cinco netos, hoje tatuados na minha panturrilha.

Logística detalhada e checada.  Mochila equilibrada. Equipamentos, vestuário, ração de trilha e demais componentes sem erros primários. Até a previsão do tempo jogava a favor, segundo as especialistas Windguru e a Mountain Forecast. Risco mínimo, de 0,4mm de chuva. Quase nada!

Motivado, consciente, feliz e bem preparado física e  psicologicamente, tinha certeza de que  uma segunda desistência estava totalmente fora de cogitação. Então, pé na estrada no domingo (6 de maio) pra encarar a bitela já na segunda.

Novamente ao lado do Leo, da Araucária Expedições, lá estava um italiano caipira, metido a besta,  disposto a abraçar a montanha com carinho. Pronto pra conquistá-la com força, determinação, respeito, sussurros e toques de sedução.

"Pra cima dela", como diz o Leo, pra quem a Serra Fina deveria se chamar Serra dos Bambuzinhos. Verdade! É bambuzinho a dar com pau. Nada fora da cargueira 60l, pra não enroscar.

Nossa travessia, mais tradicional e  inicialmente programada para quatro dias, foi alterada logo na primeira perna. Estávamos ótimos. O Léo com 31 anos e cerca de  25kg nas costas. Eu perto de completar 63 anos e com uns 12kg, já que desta vez não precisei carregar barraca, alimentação e tralhas de cozinha.

Toca do Lobo, Quartzito, Passo dos Anjos, Ombro, Capim Amarelo. Cinco horas e 45 minutos para cumprir 6,5 km e   absurdo ganho de elevação próximo de 1.250m. É subida de fazer inveja e sentir saudade do Quebra-Perna, no Caminho da Fé.

Questionado se queria tocar até o acampamento Maranacã, não tive a menor dúvida. "Vamos sim. Nesse ritmo podemos fechar a travessia em três dias" -- desafiei. "Boralá, Raddi" -- rebateu o guia.

Em uma hora e meia de descida braba temperada com bambuzinho e escorregões,  lá estávamos no Maracanã. Vazio,  frio, sem o calor da torcida, sem Fla-Flu, mas com tempo e vento de sobra pra conversar sobre tudo antes da ceia.

Inclusive sobre a inesquecível semifinal do Brasileiro de 1976, quando, sob chuva,  a torcida corintiana dividiu o Maraca pra ver o Timão eliminar o Fluminense nos pênaltis, após 1 a 1 no tempo regulamentar.

Esse é  o jogo da minha vida. Eu estava lá como um dos  apaixonados 75 mil corintianos e como repórter  do Diário do Grande ABC. Foi difícil escrever sem a companhia do coração.

Após jantar  macarrão com linguiça, nada melhor do que aninhar pra fugir do vento frio. Não dormi muito bem, mas nada que estragasse meu otimismo para a segunda perna, quando combinamos ir até  o bambuzal, na base do Pico dos Três Estados (2.665 m e 10º mais alto do País). Cerca de 7 a 8 horas de sobe e desce sem fim e mais de 700 m de ganho de elevação.

Após um belo e forte café do Léo com torradas e requeijão,  iniciamos a terça-feira com a corda toda. Logo de cara, uma sequência de sobe-e-desce na aproximação ao Morro do Melano, que ostenta praticamente a mesma altitude do Capim Amarelo (2490 m).

No  Melano o tempo, que já estava  meio fechado, cismou de ficar carrancudo. Antes das 11h a neblina ganhou a companhia da garoa. Depois uma chuvinha fina,  fria e chata. E pela primeira vez o Léo aventou a possibilidade de ter de abortar pelo Paiolinho.

Contrariando qualquer previsão dos serviços meteorológicos, a grande surpresa da mãe natureza: pouco antes do meio-dia a chuva apertou e em seguida deu um  ligeiro refresco. Ao meio-dia em ponto, quando chegamos à nascente do Rio Claro -- base da Pedra da  Mina  --  e pegamos água, a chuva começou a apertar. De novo o Léo  falou em abortar a travessia se o tempo piorasse.

Adiamos a decisão por alguns instantes e resolvemos encarar a subida e atacar o cume. Afinal, a Pedra da Mina (4º ponto mais alto do Brasil com  2.798m) estava bem próxima.

Porém, no meio do ataque, como se não bastassem a chuva, o frio e o vento forte, fomos "premiados" com raios não tão distantes. O suficiente para o guia definir, definitivamente,  por absoluta segurança, que nossa travessia seria abortada na descida da Pedra da Mina.

Imaginem minha cabeça! Virou um trevo. Nada mais fazia sentido. Mesmo pensando em alguma alternativa -- talvez dar um tempo na base  antes de atacá-la  naquele momento -- o respeito à determinação  sensata do guia  era primordial. Mesmo discordando. Mais por frustração. 

Água,  vento, raios e trovões... E nós dois encharcados... subindo, subindo e chegando ao topo. Alvos prediletos de raios, correndo sério risco. Após 4h15min desde do acampamento, lá estávamos. Tentei escrever algo no livro do cume: " Travessia abortada. Chuva com raios. Raddi e netos".

E o caderninho ficou  todo molhado.  Meu  celular deu pau e o pedido de resgate antecipado quase não pode ser efetivado. Tudo molhado. Menos o que estava protegido dentro das cargueiras. Especialmente roupas e saco de dormir.

Em cerca de  15 minutos já estávamos na outra ponta, por onde desceriamos para virar à esquerda rumo à trilha do Paiolinho ( 1.200m de descida difícil) e não à direita, para a base dos Três Estados, o acampamento previsto para ser atingido em cerca de  três/quatro horas.

Triste, desconcentrado, cansado, gelado e com  pressa  para escapar dos raios, agora mais esparsados e distantes, iniciamos o mergulho. E não é que acabei  levando  até um chão que, por sorte, não teve maiores consequências?

Em menos de uma hora já estávamos no conhecido Enganador, falso cume pra quem olha de baixo pra cima. Um precipício pra quem olha de cima pra baixo.   Surpreendentemente,  já sem chuva. E eu sem a capa de chuva da mochila devido  à última forte rajada de vento.

De novo a natureza dando as cartas. À nossa esquerda, na direção do bairro Paiolinho,  já havia azul no céu e o sol aparecia discretamente. À direita, no entanto, no sentido do Três Estados, nuvens escuras anunciavam a continuidade de tempo ruim, segundo o Léo.

Depois de seis horas -- duas delas sob o escurecer  na mata e  com lanterna na testa --, muito cansaço e a mochila agora  bem "mais pesada", meus ombros acusaram "dores" quando chegamos na escolinha do bairro. Era o peso da frustração. A  triste dor dos derrotados.

Em nome da segurança, nossa travessia foi cumprida em 2/3.   E acreditem: sob um lindo  crepúsculo e o céu  salpitado de estrelas. Paciência!  Faz parte.

Assim é a vida. A montanha não quis. De novo!  Mas ela é minha amiga. A Serra Fina não vai fugir. Está lá! Imponente! Bela! Desafiadora! Da próxima vez ela há de me receber de braços abertos. Há de me oferecer colo e me dar aquele abraço gostoso.

Assim é a  Serra da Mantiqueira, a  grande montanha que chora. E  faz gente grande chorar.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O carnaval, a garagem e o secretário

Ninguém me contou. Eu vi. Ao vivo e a cores. A poucos metros de casa. Mais precisamente à direita, onde funciona um salão de cabeleireiras.

Tudo aconteceu  no fim de semana  anterior ao Carnaval. E tudo por causa do grito de carnaval promovido pelo Botequim Carioca, aqui na esquina, com patrocínio da marca Jeep.

Entre privilégios e contratempos, o evento forçou a interdição de pelo menos duas faixas de rolamento, na rua Santo André e na Coronel Ortiz. Mesmo porque, além da festança,  obviamente regada a muita cerveja, era preciso  dar  publicidade em lugar de destaque aos dois veículos Jeep.

Até aí, nada demais. Pelo menos aparentemente.  Afinal, sabe-se lá o que se esconde por detrás de um grito. O grito "qualificado" de alguns manda chuvinhas de plantão. Pretensos ou potenciais amigos do rei.

O problema é que havia  bastante gente e, como consequência, igual número de veículos. E um deles estava estacionado diante da garagem da dona Dulce, que costuma  trabalhar também aos finais de semana.

E não é que ela chegou pra entrar exatamente quando uma bela nave prata-perolizada ali estava estacionada! O que fazer? A quem reclamar?

Sem alternativas, a vizinha foi obrigada a estacionar seu Ka diante do Sindicato dos Rodoviários e mais tarde um pouco mais longe, antes de eu sugerir que parasse momentaneamente diante da minha  garagem.

Nesse ínterim, nada de o "nobre" e educado proprietário da nave aparecer. Quem seria? Onde estaria? Talvez   fosse familiar de algum doente do Hospital Municipal. Ou algum folião desastrado, distraído ou simplesmente mal-educado?

Após tentar, sem sucesso, contato com o pessoal do Trânsito, dona Dulce resolveu afixar um recado bem sugestivo no vidro da nave, questionando a atitude do figurão.

(Com direito a uma pergunta que não quer calar: será que se os servidores aparecessem teriam coragem de efetivar o auto de infração e   multar  alguém possivelmente tão próximo do poder? Será que a  penalização prevista  em lei seria mantida ou prevaleceria o peso da "otoridade"?)

Bom... vida que segue. A estas alturas, eu, corintiano,  já estava  dentro de casa vendo o jogo do Palmeiras. Enfim,  por cautela, não deveria  meter a colher  e  nem me indispor em nome de outrem. 

Quietinha,  lá estava a  belíssima nave prata-perolizada, placas EFY-3766/Santo André.  Enquanto a vizinha se resignava e o Verdão ganhava.

Findo o grito dos manda chuvinhas da província, eis que chega o dono do possante. Lê o recado, sobe as escadas e pede desculpas às vítimas de atitude nada educada. O que não o isenta de (ir)responsabilidade.  Apenas atenua.

Afinal, ficaria muito chato se um homem público,  o secretário de Inovação e Administração da Prefeitura de Santo André, não se dignasse nem ao menos a se desculpar.

Filho do meu amigo Eufly Gomes, já falecido e ex-proprietário do Colégio Pentágono,  bem que o autor do mau exemplo poderia ter  evitado tal papelão e seguido a cartilha do pai.

Lamento tal atitude. Ao senhor Fernando Buíssa Barros Gomes faltou o que tanto o saudoso pai  pregou aos seus milhares de  alunos: educação.
  

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A virada do Ramalhão na voz do grande Fiori

-- Neneca vai defender o gol de entrada do Estádio Bruno José Daniel. Cássio fica na cidadela dos fundos, ao lado do Clube Atlético Aramaçan. Agora você fica com a mais perfeita transmissão do rádio esportivo brasileiro, na voz vibrante do premiado Fiori Gigliotti.

-- Obrigado ao nosso competente repórter Roberto Silva.  Atenção! Apiiiita o árbitro! Abrem-se as cortinas e comeeeça o espetáculo! Júnior Dutra toca para  Jadson. Jadson recua a bola para Gabriel. Gabriel abre na direita para Fágner...

-- Bola subindo, bola descendo, cabeeeça na bola Balbuena, o moooço que veio de Ciudad del Leste. O xerife da zaga corintiana.

-- O teeempo paaassa: 15 minutos de jogo. Hora de ouvir a voz de quem conhece tudo de bola, Mauro Pinheiro.

-- Fiori, por enquanto um jogo bem igual. Mesmo ainda sem vitória no campeonato, o chamado Ramalhão adianta a marcação e dificulta a saída de bola do bom e organizado esquadrão de Fábio Carille. Abusando de chutões e bolas longas, o Coríntians esquece o toque de bola e  facilita a vida dos zagueiros adversários.

-- Este foi Mauro Pinheiro. O céu está carrancuuudo torcida brasileira! E lá vem o Coríntians pela direita com Romero. Ele teeenta passar mas não passa! Perde a bola para o lateral Paulinho e permite o contra-ataque.

-- O teeempo paaassa!  O Coríntians contra-ataca rapidamente pela esquerda. Júnior Dutra passa o pé sobre a bola, dribla Domingos, mas o cruzamento é interceptado por Soelinton.

--O teeempo paaassa! Agora são 17 minutos e o Timão acelera pela direita. Fágner domina. Ele gooosta da bola! Fágner cruza, Romero desvia de cabeça, a bola bate em Domingos; defeeende Neneca!. O  moço de Rondonópolis opera um verdadeiro milaaagre - certo Olho Vivo?

-- Sim, Fiori, um milagre. A zaga falhou e por pouco o gol não saiu. Se saísse, nada mais coerente para um time que passou a tomar conta do jogo.  Mauro?

-- Concordo plenamente Roberto! O Santo André já não marca tão bem a saída de bola e o  Coríntians, mesmo sem ser brilhante,  passou a dominar o meio-campo. O gol está maduro!

-- Lá vai Coríntians de novo! Balão subindo e descendo, pára no peito de Rodriguinho, o moço  de Natal domina com classe e toca para Jadson; Jadson para Gabriel; Gabriel para Pedro Henrique;  daí para Jadson; Jadson  enfia boa bola na esquerda pra Romero. Romero cruza, atenção, Júnior Dutra desvia e a booola beeeija o  pé do poste direito de Neneca! Por pouco o Coríntians não abre o placar.

-- Lá vem o Santo André! De Flávio para Dudu Vieira,  de Dudu para Joãozinho, que teeenta passar por Fágner, mas não passa! A bola fica  facilmente com a defesa corintiana.

-- Atenção! Perigo! Bateu Rodriguinho, de primeira. A bola passa  perigosamente reeente ao poste esquerdo de Neneca!  Festa da grande  torcida da arquibancada oeste. Mas apenas impressão de gol. Certo Mauro?

-- Sim, caro Fiori!  A bola passou muito perto. Fruto da superioridade do Coríntians, agora um time mais solto,  com toque de bola envolvente no setor intermediário. Ao  aplicado Santo André resta se garantir sem tomar o gol.

-- Atenção Mauro, pode ser agora! Cleyson desce em velocidade pela esquerda, passa por Jonathan Bocão, cruza pra trás, quase na marca penal; Rodriguinho chuta, é fooogo, é gooooooooooooooooool!  Uma beleeeza de goool!Agora não adiaaanta chorar, Neneca! Trinta e oito minutos, um para o Coriíntians, zero para o Santo André.

-- Finaaalzinho da primeira etapa! Júnior Dutra cruza, Fágner chega  pela direita, bate firme, Neneeeca! Sensacional!

                       A BEEELA VIRADA!

-- Fiori, o Coríntians volta igual para o segundo tempo, mas o Santo André faz uma mudança radical.  vem mais ofensivo. Sai o lateral-direito Jonathan Bocão, Dudu Vieira vai  para a lateral, Flávio fica como volante solitário, Joãozinho  vai para a direita e Hugo Cabral entra na esquerda pra partir pra cima de Fágner.  Assunto para o nosso comentarista.

-- Isso mesmo Roberto! O jogo vai mudar. O Santo André vai se expor para atacar e correr riscos de sofrer gols. Por isso o jogo vai melhorar. Vamos aguardar para ver como o Coríntians vai reagir!

-- Obrigado Mauro! Comeeeça o segundo tempo! Bola com Lincom...

-- Balão subindo e descendo; cabeeeça na bola  Domingos, o moooço  de Nazaré das Farinhas! Um baiano, gigaaante por natureza! O Santo André ataca pela esquerda. Joãozinho carrega em diagonal, toca para Tinga. Tinga ajeita na entrada da área, pé direito na bola. É fooogo. É gooooooooooooool!  Uma pintuuura! Uma beleeeza de gol torcida brasileira! Um tiro cooomprido do moooço de Bom Jardim,   no canto direito alto, sem chances para Cássio. Coríntians 1, Santo André 1. Oito minutos. Agooora não adiaaanta chorar Cássio. Bem que  você alertava, hein Mauro...

-- Pois é Fiori. O Santo André voltou  ligado, aceso, e o Corintians não se deu conta de que o jogo mudou. O menino Hugo Cabral tá fazendo uma fumaça danada pela esquerda.

-- O teeempo paaassa! Treze minutos da etapa complementar;  e só dá Santo André. Que ataaaca de novo com Hugo Cabral.  Hugo Cabral pára na frente de Fágner, tenta passar. Já passou! Vai cruzar, chega Balbuena e desmaaancha a obra-prima que se desenhava no tapete verde de Santo André.

-- Lá vem o Coríntians em busca de um futebol que parece ter ficado nos vestiários. O teeempo  paaassa! Dezoito minutos... Atenção cruzamento na cabeeeça na bola Romero, desvia e salva o centroavante Lincom, lá atrás ajudando a defesa andreense.

-- Triiinta e cinco minutos! A grande e fiel torcida corintiana está meio  quieta; será que pressentindo algo de ruim? A bola sobra na direita pra Dudu Vieira, ele ajeita e cruza. É fogo, é fogo, é goooooooool. Lincom, o moooço de Camapuã, cabeceia sem chances para Cássio, o moooço que veio de Veranópolis. Santo André 2, Corintians 1. Tudo normal Mauro?

-- Quanto à posição do centroavante, não! Ele estava com o tronco à frente, impedido, portanto. Mas o lateral não pode cruzar com tamanha facilidade e a zaga não pode ficar plantada. Falhou feio! Quanto ao resultado? Surpreendente mas justo,  pelo que o Santo André mostrou no segundo tempo. Mais compacto, mais rápido, mais organizado, mais veloz e com mais volume de jogo. Ao Coríntians faltaram criatividade e competitividade à altura de time grande.

-- O teeempo paaassa! Crepúuusculo de jogo no Bruno Daniel! Quarenta e nove minutos! Apiiita o árbitro! Tudo está  consumaaado! Fecham-se as cortinas e termiiina o espetáculo! Agora não adiaaanta chorar torcida corintiana! A festa é todinha do mundo azul!

(Este texto é uma singela homenagem a quem  teve o dom e a magia de fazer o menino sonhar)