Donizeti Raddi, 71 anos, corintiano, jornalista e professor de Educação Física aposentado. Hoje, trilheiro, montanhista amador, aventureiro e blogueiro ocasional.

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domingo, 19 de fevereiro de 2017

São Bernardo vence clássico. Com méritos

O São Bernardo não só venceu o clássico de hoje de manhã no Estádio Bruno José Daniel como provou que  no momento é  mais time que o rival Santo André.

Vitória de 1 a 0 foi construída de forma consistente, com  personalidade, organização tática  e supremacia técnica. Especialmente no primeiro tempo.

Time dirigido pelo português Sérgio Vieira só ratificou o que já havia mostrado na injusta  derrota  para o Palmeiras, quando dominou mas falhou nas conclusões e tomou dois gols.

Já os comandados de Toninho Cecílio colocaram uma pulga atrás de orelha do torcedor, que enfrentou um calor infernal pra ver um futebol bem aquém do apresentado na bela e surpreendente vitória e 2 a 0 sobre o Corinthians.

Santo André do primeiro tempo apresentou as mesmas deficiências da estreia, quando empatou com o Ituano: sem volume de jogo, sem velocidade, sem intensidade, sem criatividade, sem compactação defensiva e sem aproximação ofensiva.

Por isso a organização do Tigre-- 4-3-3 ofensivo com ajuda dos atacantes Marcinho e Walterson na recuperação de bola -- foi determinante para dominar e aproveitar os espaços com sabedoria. Principalmente pela direita, onde o improvisado meia Fernando Neto ficou sobrecarregado.

Ramalhão -- 4-4-2 burocrático, sem dinamismo e pouco flexível --  não chegou uma vez sequer com real perigo na primeira etapa, enquanto que o São Bernardo ameaçou em quatro oportunidades. 

Na  principal delas o lateral-direito Jean  falhou feio ao tentar  atrasar a bola espirrada; o bom Walterson  se antecipou e bateu de primeira, na saída do goleiro Zé Carlos.

Assim como na estreia, o Santo André voltou para o segundo tempo mais aceso. O primeiro motivo com certeza foi a bronca do treinador no vestiário; o segundo pode ser creditado à entrada do  atacante Claudinho no lugar do pouco produtivo meia Eduardo Ramos.

Abalado emocionalmente, o lateral Jean também saiu para entrar Guilherme Garré  no meio-de-campo. Com isso Fernando Neto (agora mais protegido) voltou para a esquerda e Dudu foi deslocado para a lateral-direita.

Santo André ficou ofensivo, mas  igualmente generoso nos espaços.   Mais plantado, o São Bernardo preparava o bote no contra-ataque ou na sequência de bola parada. Como aos quatro minutos com Felipe Matheus, um meia sempre próximo dos três atacantes.

Mesmo com mais disposição, correndo mais riscos e agora com apenas dois volantes, um meia e três atacantes (o rápido Deivid entrou no lugar do apagado Edmilson, mas pela esquerda), o anfitrião pouco criou e demorou  26 minutos para ameaçar o gol de Daniel com Henan.

Blitz do  até então invicto Santo André só aconteceu mesmo dos 35 aos 39 minutos, quando levou perigo em três oportunidades com Deivid -- na principal delas ele perdeu gol incrível ao cabecear pra fora o bom cruzamento de Dudu -- e uma com Henan.

Já o São Bernardo, tão cansado quanto o adversário -- e não era pra menos pela alta temperatura --, chegou  apenas  mais uma vez com Edno. Mesmo assim ficou claro que tem mais time e pode chegar mais longe no campeonato.

Ambos estão em terceiro lugar nos seus grupos. Na quarta-feira o São Bernardo recebe o invicto Mirassol, que empatou com o São Paulo no Morumbi, e o Santo André vai a Araraquara pegar a Ferroviária, que ontem venceu o Santos na Vila Belmiro.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Ramalhão empata e Tigre perde

Santo André e São Bernardo estrearam na elite do Campeonato Paulista sem vitória. Dos seis pontos em jogo, os representantes do Grande ABC ganharam apenas um.

De manhã, de volta ao Estádio Bruno José Daniel depois de nove meses sem competições oficiais, o Ramalhão começou atrás mas pelo menos conseguiu empatar de 1 a 1 com o Ituano.

Jogo só melhorou no segundo tempo. No primeiro, o campeão da A-2 de 2016 deixou bastante a desejar. Defensivamente, até que não comprometeu. Porém, do meio pra frente foi uma decepção.

Sem velocidade, sem criatividade, sem intensidade, sem compactação, sem verticalização, sem objetividade e com marcação muito baixa, sem pressionar a saída de bola, o Santo André encontrou um Ituano mais organizado taticamente, melhor postado  e com mais volume de jogo.

Mas chances de gol mesmo, só duas; uma de cada lado: o Ituano ameaçou com Morato cobrando falta no poste direito e o Santo André com Henan cabeceando pra fora. Pouco! Um futebol de segunda.

Na etapa complementar, no entanto, o ritmo foi outro; pelo menos não decepcionou. Ganhou em ofensividade, rapidez e intensidade. Provavelmente o técnico Toninho Cecílio tenha dado uma chacoalhada num time até então passivo, lento, preguiçoso e sem iniciativa.

Sem centralizar tanto e usando mais as beiradas do campo, o Ramalhão chegou com perigo logo aos cinco minutos com Edmilson finalizando mal após boa jogada de Eduardo Ramos pela direita.

No entanto, no minuto seguinte o Ituano fez 1 a 0: cruzamento veio da direita, Guilherme furou na tentativa de  conclusão mas deu sorte; a bola sobrou livre para o artilheiro Ronaldo abrir o placar. Coisas do destino: Ronaldo nasceu em Santo André e foi torcedor de arquibancada do clube por muito tempo.

Inicialmente o Ramalhão sentiu o gol, mas depois, pressionado pela torcida e pela desvantagem, voltou a tomar a iniciativa de atacar, o que, consequentemente, deu espaços generosos para o Ituano armar contragolpes perigosos.

Mais aberto, o jogo ganhou brilho, ousadia e riscos. O Santo André ameaçou com  Dudu aos 16, mas quase tomou o segundo gol dois minutos depois. Aos 23 o Ituano teve nova oportunidade com Ronaldo e aos 25 o Santo André  desperdiçou com o zagueiro Leonardo.

Mesmo com o Ituano mais consciente, melhor armado e  aparentemente senhor da situação, a igualdade do voluntarioso mas limitado Santo André veio aos 38 minutos:  o lateral Cicinho cruzou da direita e  David cabeceou pra baixo, sem chances para o goleiro Fabio.

Empolgado mas ainda condescendente na marcação, o Santo André esteve perto de tomar o segundo gol aos 43 minutos (Morato), mas teve grande chance de ganhar três pontos aos 49, quando outra vez Eduardo Ramos cruzou da direita, mas Claudinho finalizou errado.

À tarde, em Novo Horizonte, o São Bernardo merecia pelo menos o empate, mas acabou perdendo de 3 a 2 do Novorizontino. Edno e Valterson fizeram os gols do Tigre.



      

domingo, 29 de janeiro de 2017

França atropela Noruega e é hexacampeã mundial

Dona indiscutível do melhor handebol masculino do mundo nos últimos 15 anos, a França acaba de atropelar a Seleção da Noruega e conquistar o sexto título mundial.

Diante de 15 mil pessoas, lotando a Arena Paris, a fortíssima equipe francesa fez 33 a 26, após primeiro tempo de  apenas um gol de diferença -- 18 a 17.

Antes os franceses já haviam ficado com a medalha de ouro nos mundiais de 1995, 2001, 2009, 2011 e 2015. Hegemonia atual só foi quebrada em 2013 pela Espanha.

Na decisão do terceiro lugar, em virada sensacional,  a Eslovênia fez 31 a 30 ( 13x18) na Croácia  após estar em desvantagem de oito gols e ficou com a medalha de bronze.

O Brasil  mostrou virtudes e evolução, mas caiu nas oitavas de final ao perder da  boa seleção espanhola por um gol.

A grande final de hoje foi intensa, franca e ofensiva do primeiro ao último minuto. Na primeira etapa prevaleceu o equilibrio no placar, com  nítida supremacia dos ataques.

A jovem seleção do Norte europeu não se intimidou com o favoritismo dos anfitriões e  últimos campeões. Extremamente rápida e consistente na transição defesa-ataque, a Noruega só perdeu o comando do placar no último minuto.

Ofensivamente, os franceses até que mantiveram performances anteriores, mas a defesa não conseguiu bloquear e conter a velocidade norueguesa. Tanto que tomou 17 gols.

Segundo tempo, no entanto, foi totalmente diferente. E o que se viu foi um atropelamento; um show de tática e técnica  da França do início ao fim.

Com  melhor postura defensiva e dinamismo e agressividade no ataque, a seleção dos estupendos goleiros Gerard e Omeyer não teve dificuldades para sustentar  vantagens sempre entre três e cinco gols.

Tanto que a  esforçada Noruega fez apenas nove gols. Sofreu 15 e não teve o mesmo poder de reação mostrado na semifinal diante da Croácia, quando  brilhou e ganhou na prorrogação.

A zebra deu as caras no primeiro tempo, mas sumiu do mapa quando, com méritos,  os franceses mostraram por que são os melhores do mundo.   



quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A "cartolice" de Pery

Caramba, como deu pano-pra-manga  o polêmico manual de conduta dos servidores da Câmara de São Bernardo,  imposto e em seguida parcialmente revogado e/ou acomodado pelo presidente da Casa,  Pery  Cartola, jovem tucano com credenciais de  velho coronel.

Entre poucas coerências e algumas pérolas a cartilha vetava o uso de unhas e batons em cores mais vivas, maquiagem carregada,  roupas amassadas,  perfumes com fragrâncias marcantes, meias claras com roupas escuras ( meia seria extensão da calça e do sapato, ridículo).

Manual atentatório à modernidade e ao bom-senso também exigia que se fizesse barba diariamente e, pasmem,  cumprimento com mãos firmes, com  três sacudidas  e evitando tapa nas costas.

Imaginem se  tal determinação chegasse ao banheiro masculino. "Fica determinado que, após urinar,  o servidor deve, com mãos firmes,  balançar o bitelo três vezes e acomodá-lo à  esquerda. Se errar o vaso o servidor será advertido verbalmente; se não chacoalhar fica suspenso por três dias".  Tá de brincadeira nobre vereador!

Havia, ainda -- ou há? --, recomendação para que os servidores não trabalhassem de bermudas, chinelos e camisas de clubes de futebol, com o que concordo. Quanto a roupas mais ousadas, não vejo problema algum.

Também entendo que muitos servidores são mesmo mal-educados, têm comportamentos inadequados e não respeitam o cidadão como deveriam. Devem, sim,  ser orientados e, em caso de abuso, punidos.

No entanto, o senhor Pery  Cartola extrapolou, passou de  todos os limites em alguns itens extravagantes. Autoritarismo barato foi parar até no Fantástico e no Jornal Nacional, da Rede Globo. Uma vergonha!

O político e a cidade foram motivos de piadas de Norte a Sul do Brasil. E olha que São Bernardo não é comandada por antigos coronéis, como ainda acontece pelos grotões do País, naquelas cidadezinhas ausentes  até do mapa.

Fico até em dúvida de como definir a atitude infantil de alguém que deveria zelar  principalmente por coisas muito mais importantes mas perdeu tempo com uma cartilha recheada de incoerências, veleidades. Tudo em nome de um "atendimento de excelência".

Escolham, entre 60 opções sinônimas, em grupos de seis, a melhor definição para o capricho de Cartola:

1) absurdo,  risível, ilógico, improcedente, incoerente, inconsequente;

2) bizarro, insensatez, kafkiano, onírio, sem razão, paradoxal:

3) antirrético, contraditório, grotesco, surreal, estapafúrdio, despropósito;

4) descabelado, desarrazoado, disparatado,   parvoinho, sandio, tolo;

5) doidice, irreflexão, loucura, asneira, ação descabida, bernardice;

6)  borracheira, cabeçada, cacaborrada, desconchavo, despautério, destampice;

7) destempero, destroxo, diguice, dislate, disparate, patetice:

8) paradoxo, pedantice, tolice, maluquice, patacoada, torresmada:

9) heresia, alogia, borregada, quimera, incongruência, descoco:

10) destampatório, inimaginável,  desatino, veleidade, sandice e "cartolice".

Inventei o último adjetivo. Combina com cartola, aquele dirigente que abusa de torresmadas.



                                                      DE PRIMEIRA

*** Praça Iwao Ito, na confluência das ruas Humberto de Campos e Juquiá, ali na vila Eldízia (vila Linda) é mais um exemplo do descaso do Poder Público de Santo André. Sobra mato e falta iluminação no parquinho preferido do meu neto Davi. Culpa maior é da administração anterior, mas a atual precisa agilizar os mutirões de limpeza para a periferia.

*** Mais um recado aos secretários de Paulinho Serra: final da rua Visconde de Mauá, na vila Assunção, é estreito e não comporta mão dupla. Muito menos passagem de ônibus em velocidade incompatível. Sugiro avaliação rigorosa do Departamento de Trânsito.

*** Mais uma: novo secretário de Esportes, o médico Marcelo Chehade fala em parceria com o instituto de Ana Mozer e a Bridgestone para incrementar o segmento. Antes era com Giba, ambos do vôlei.  É bom prestar atenção nos detalhes e na contrapartida financeira.

***Também é bom lembrar que a administração petista  deu calote e deixou dívidas com muitos atletas e técnicos andreenses, especialmente da natação. Pior é  ninguém do Poder dá  sequer satisfação. Piscinas do Dell'Antonia estão sem aquecimento e em situação precária. Enquanto isso os caras discutem e providenciam a iluminação do vizinho Estádio Bruno Daniel... Acordem!!! Ambos são importantes.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O médico, o coveiro e o esporte

"É uma pessoa da cidade, tem representatividade e ligação direta com a área, inclusive é conselheiro do EC Santo André e do Aramaçan".

Essa a essência da justificativa protocolar do prefeito eleito Paulinho Serra para  escolher o médico ginecologista e obstetra Marcelo Chehade como novo secretário de Esportes de Santo André.

Esportes agora sem o Lazer, que, estranhamente, vai se juntar à Cultura. Tão estranho quanto seria se o Esporte fosse depender das rédeas e do orçamento da Educação, como se ventilou.

Convenhamos,  currículo  o digníssimo doutor é bem pobre na área esportiva. Se bem que  para assumir o cargo hoje ocupado por Marta Sobral ninguém precisa de histórico brilhante. Basta fazer o jogo político que interessa ao poder maior.

Ressalva importante sobre a grande pivô da Seleção Brasileira: a atleta olímpica e campeã mundial foi medíocre como gestora. Portanto, parece  humanamente impossível o  vereador eleito para o terceiro mandato ser ainda pior.

No fundo, no fundo, o motivo da preferência é bem outro. Ninguém é trouxa o tempo todo. Mais uma vez o Esporte é  utilizado como simples moeda de troca política.

Afinal, Marcelo Chehade, presidente do PSDB andreense,   também foi o mentor do retorno do prefeito eleito ao partido que fez do jovem Paulinho a bola da vez. Porque a única.  Pura exclusão!

Por absoluta falta de  melhor opção Serra cumpriu as próprias diretrizes.  Escolheu um político para o cargo e uma esportista para adjunta. Aparentemente, só pra inglês ver. Adjunto (a) não apita nada. Figura decorativa. Sei do que falo.

Dirigente  vitalício e ícone do Santo André, Celso Luiz de Almeida declinou do convite para voltar ao comando de um  Esporte cada vez mais sem norte. Fez o que pode em dois mandatos petistas. Mas não faz milagre.

Outro cotado, o empresário Fernando Gomes, ex-vereador e vice-presidente do PSDB municipal, ficou com a Secretaria de Inovação e Administração. Sem o mínimo perfil para o Esporte.

Nome  também citado -- ou plantado pra ver se colava? -- antes mesmo do segundo turno foi o de Bahia, ligado ao futebol amador do segundo subdistrito e vereador em fim de mandato. Seria um absurdo!

De qualquer forma, Chehade foi uma escolha exclusivamente política. Simples assim! Só pra variar. Sem essa de achar que ser da cidade e conselheiro de clube é sinônimo de credencial esportiva.

Isso não quer dizer que o doutor não pode ser útil. Deve ter moral com o chefe e jogo de cintura suficiente para lidar com o poder. Além disso, pode agilizar parcerias na área da saúde.

Laís Elena Aranha, ícone do basquete feminino nacional como jogadora e técnica, foi premiada como adjunta. Se vai dar certo são outros quinhentos. Tenho enorme respeito pela história da Laís, mas não sei se vai falar grosso e se o seu olhar vai ter a amplitude que o Esporte merece.

Sabe como é... se a visão for tacanha, focada apenas no sucesso do basquete feminino de tanta tradição, a vaca vai pro brejo. Se a brasa for puxada  só pra própria sardinha, danou-se. O Esporte vai continuar no fundo do poço.

E sem orçamento minimamente digno, aceitável, médico e esportista terão enormes dificuldades para cumprir metade do plano de governo divulgado pelo ex-goleador no Primeiro de Maio. Plano bem parecido com os vistos nos últimos 16 anos. Papel aceita tudo! É só checar!

Torço, sinceramente, para que ambos tenham sucesso. Porém, não acredito. Não basta o prefeito prometer.  To pagando pra ver. A Prefeitura deve pra meio mundo. Competência, boa vontade e parcerias talvez não sejam suficientes.

Assim como outros equipamentos esportivos, as piscinas do Complexo Dell' Antonia estão desativadas e muitos atletas e técnicos de várias modalidades -- natação, handebol, xadrez.. -- ainda estão sem salário. Uma vergonha!

Orçamento do Esporte nas últimas gestões foi uma merreca. Dinheiro de pinga! Que novidade né? Mas a obrigação é do senhor Grana. O atual prefeito não honrou a palavra e, de forma irresponsável, vai deixar o abacaxi para o Paulinho.

Como, repito,  a Prefeitura está atolada em dívidas, o Esporte vai depender de migalhas e abnegados. Esqueçam grandes obras de infraestrutura e conquistas no alto rendimento.

Se o setor, que um dia foi motivo de orgulho da população, anda em estado terminal há muito tempo, não será surpresa se empacotar de vez. Sem medalhas, sem eventos, sem escolinhas, sem professores, sem técnicos e talvez sem teto.

Pelo andar da carruagem, a tarefa está prestes a fugir das mãos de esportistas, médicos, parteiras, professores, políticos e outros quetais. Em breve estará nas mãos de um coveiro.

O  desrespeitado esporte de Santo André não vai sentir um pingo de saudade de Aidan Ravin e Carlos Grana. A bola está com Paulinho Serra. E jogo não se ganha só no gogó.

O Esporte não reivindica prioridade; só clama para  ser tratado com  dignidade.  

domingo, 11 de dezembro de 2016

Um deserto, uma obra de arte

São Paulo, Santiago, Chile
Um avião, um aeroporto
Calama. Clima  muito seco
Pick ups  vermelhas

Mais uma hora de asfalto
Nada visto do alto
Energia eólica captada
Pedras sobre pedras

Um retão sem fim
Um mundo sem capim
Um morro sem jasmim
Um deserto só para mim

Eis que surge San Pedro
Um verde, enfim
Um pequeno oásis
Um belo jardim

Cidade pequena
Rio solitário
Terra batida, campo minado
Adobe no quintal

Uma casa impecável
Gente como a gente
Um francês nota 10
Uma  doce atacamenha

Um queijo, um vinho
Um pão quente, um  regalo
Croissant de dar água na boca
Uma saudade cortante

Uma deusa, uma foto
Uma lágrima, uma lembrança
Filhos, netos, sorrisos
Paixões infinitas

Sol  é abundante
Chuva é raridade
Estrelas incontáveis
Lua cheia na janela

Beleza encantadora
Arrebata; tira o fôlego
Céu azul é redundância
Esculturas em abundância

Vale de la Luna
Uma obra de arte
Vale de la Muerte
Paisagem de marte

Vento cortante
Por do sol paralisante
Superlua  empolgante
Vulcão de todos nós

Licancabur é infinito
É do povo de cima
Lascar é o pai de todos
Língua (cortada) de fogo

Altitude assusta
Mas não faz refugar
Vamos respeitar
E escalar sem medo

Antes, vamos aplaudir
Lagunas, gelo e dunas
Vulcões, cerros e  salares
Gêiseres, termas e cavernas

Um quadro perfeito
Pintores sem pincéis
Formas e contrastes sem anéis
Olhar divino,  sobrenatural

Sim, tem o dedo de Deus
Obra do sol e do  vento
Sim, aquilo já foi mar
Impossível não chorar

Cores e magia
Contos e encantos
Em cada ponto
Em cada canto

Cume e cratera
Desafio e conquista
Horizonte a perder de vista
Abraços. Promessa cumprida

De repente, parei
Orei, agradeci e pensei
Tudo que vi antes...
Rabisco,  mero rascunho

Ali, na aridez do Atacama,
Nos relevos lunares
Quintal de lhamas e flamingos
Natureza passada a limpo

Colírio para olhos
Beijo no coração
Afago na alma
Mundo inesquecível

Deserto! Oásis!
Pintura! Miragem!
Paraíso! Gratidão!!!

Obrigado senhor









quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Vulcão Lascar, expedição 230-A

Sem qualquer pretensão de ser melhor, apenas viver seus sonhos e atingir seus objetivos, a  "Expedição 230-A" passou duas semanas no Chile e na Argentina. Santiago, Calama, San Pedro de Atacama,  Toconao, Talabre,  San José del Maipo, Penitentes, Puente del Inca, Las Cuevas...

Com direito a deserto esculpido por deuses, montanhas altíssimas, vulcão ativo, lagunas "flutuantes",   asfalto, ripio,  vicunhas, lhamas, lobos, flamingos,geysers, águas termais,  nevados, vinícolas,  neve, caverna, estrelas,  gelo,  muito calor, muito frio, muito vento e muito vinho -- bom e barato..

Falar do céu sempre azul e da beleza  inigualável do por do sol no deserto do Atacama é redundância. E a  superlua cheia brotando ao lado do  Vulcão Licancabur?   Inesquecível!

Pra fechar com chave e susto de ouro,  no domingo, dia 20, 18h, um terremoto de 6.4º na escala Richter, na Argentina. Portanto,  aventura e emoção pra dar e vender.

Um dos pontos altos da viagem  foi a ascensão do temido Vulcão Lascar,  a 150km da pequena San Pedro de Atacama,  nosso quartel-general e de onde sua fumarola pode ser vista, especialmente pela manhã.

Mais belo, mais próximo, onipresente, inativo, inofensivo e  imponente, o Licancabur (5.950m), "vulcão do povo de cima" exige pelo menos dois dias de atividades intensas. Quem sabe na próxima!

Última erupção mais representativa  do Lascar -- língua  e fogo ou cortada no dialeto quéchua --  aconteceu em abril de 2006 e  sua fumaça chegou ao  Brasil. São 5.592m de altitude até o cume. A cratera fumegante, um pouco abaixo, tem 750m de diâmetro e 300m de profundidade.

Depois de quase cinco dias de adaptação  ao clima e à altitude, com inúmeros passeios, cansativos mas fabulosos,  chegamos ao ponto culminante na sexta-feira, dia 18 de novembro último.

Tudo pronto! Véspera sem exageros alimentares nem alcoólicos. Só chá de coca. Também sem excessos. Não precisa tanto. Cria dependência desnecessária para a maioria.

Roupas adequadas em três camadas sobrepostas, meias especiais,  luvas, gorro, bota de trilha, bandana, óculos escuros, soro fisiológico, colírio, protetor solar e sticks pra auxiliar na dura caminhada com aclive  bem acentuado. Tubinho de oxigênio ficou na mochila. Sem uso.

Com cara e  coragem,  companheirismo, bom preparo físico e psicológico, também  levamos bastante água, castanhas, chocolates, gel e barrinha de cereais. Tudo sem muito peso na mochila. Consumimos pouco.

Saímos às 7h da manhã do Holiday House Atacama Soleil.  Locação da casa do francês nota 10 Phillipe e da  doce atacamenha Viviana foi um achado, impecável, inesquecível. Nosso muitíssimo obrigado a ambos.

Com apoio da tecnologia --  GPS, Google Maps,  Wikiloc -- nossa  Hilux 4x4 vermelha, alugada no aeroporto de Calama, encarou um verdadeiro rali.

Asfalto, terra e depois muito  ripio; solavancos  intermináveis em costelas até a  bela Laguna Lejia, onde entramos  à esquerda e  atravessamos um  trecho de deserto repleto de marcas de pneu.

Mas o mapa de estradas e trilhas foi preciso. Por isso, embora reconheçamos importância e  profissionalismo, dispensamos guia e agências, com custos nem sempre ao alcance de todos.

Paramos no sopé do doce monstro, parceiro do Vulcão Águas Calientes (também chamado Simbad), que fica ao lado, é um pouco mais alto ( 5.924m) e gera confusões. Especialmente naquelas  lindas fotos de divulgação tiradas ao lado da laguna.

Demos sorte. Céu claro, limpo,   frio suportável, pouco vento e trilha bem marcada,  em zig-zag.  Sinceramente, não havia como errar. Guia não é imprescindível, se estivermos preparados e se o tempo ajudar.

Começamos a maratona às 9h. Inclinação assustadora. Terreno difícil.  Arenoso e com pedriscos deslizantes. Passos não rendem.  Os pés afundam. Por isso a importância dos bastões de caminhada.

Primeiros 30 minutos são cruciais.  Não adianta forçar. Extremamente cansativos. Cheguei a pensar que estava indo para o inferno, não para a cratera. Como dizem que o inferno é pra baixo, continuei subindo.  Coração de atleta (veterano) saltitante.

Segredo é subir ao passo, como ensinou nosso guia Amoroso, na travessia Salkantay/ Machu Picchu,  Peru. Quase 5 mil metros, ar rarefeito. O bicho pegou! Optei por ditar o ritmo em 80 passos. Subi pra 100, voltei para 80, 60, 50 e cheguei nos 30 no final do primeiro terço do desafio.

Depois,  mais adaptado, focado  e sempre bem hidratado, optei pelo número mágico: 80 mini passos, descanso estratégico "para ver a  linda paisagem", sem sentar,  e um pouco de água a cada 15/20 minutos. Foi uma boa. Sobrevivi com certo louvor, sem dores nem temores.

Superados os  malditos falsos cumes, segundo e terceiro terços foram engolidos sem tantos transtornos. Confiança, otimismo, nada de incômodos musculares insuperáveis e sem transtornos com a altitude, cada vez mais significativa.

Chegamos à cratera, e não ao inferno,  em 2horas e 45min. Cheiro de enxofre não chegou a incomodar tanto.  Uma visão extraordinária. Um paraíso repartido com outros dois grupos, com dois guias e mais seis corajosos .

Extenuadas mas recompensadas, Marilene e Angela ficaram na boca da cratera conversando com uma brasileira. Eu e o Milton  conversamos, calculamos e encaramos o cume confiantes.

O guia do casal brasileiro falou em mais 50 minutos pra subir e uns 20 pra descer.  Subimos em 33min e descemos em 10min. Sem medo, com sticks  e pernas mais abertas. E sem freio. Caí de bunda numa pedra mas o Milton nem viu. Por isso não riu.

Mochilas leves nas costas, aceleramos um pouco na descida  da cratera, mas não conseguimos alcançar as esposas, que "fugiram" enquanto estávamos no cume,  onde gritei, agradeci a Deus e  orei junto ao pequeno cruzeiro e uma mini-estação meteorológica -- pelo menos deduzi por causa dos fios.

Contando com a via de emergência --  aquela para caminhões em declives acentuados --, por nós apelidada de "caixa de brita",  soltamos os freios. Por sorte, deu tudo certo. Os joelhos operados reclamaram um pouco,  mas suportaram com louvor. Sem falar que já tive duas tromboses.

Um tombinho aqui outro ali é inevitável. Faz parte.  Mesmo porque, cortamos caminho, agora optando pela trilha em linha reta. Porém, é preciso não querer descansar sentando. E também não se levantar rapidamente quando beijar o chão. Aí a pressão cai e a tontura é inevitável.

Uma hora depois, quando chegamos no carro, as duas já estavam acomodadas. Mesmo porque, eram mais de duas da tarde e o vento cortante  agora começava a judiar. Ainda bem que não nos pegou na montanha.

Nariz escorrendo e  certa dor de cabeça  também  compõem o pacote vulcânico por causa da descompressão. Descer muito rápido não é bom negócio. Nem sempre na descida todo santo ajuda.

Cansados, mas extremamente felizes pela conquista, pegamos a estrada de volta. Com a certeza de que o Lascar  merece  muito respeito mas não é nenhum bicho-de-sete-cabeças.

Um desafio, uma conquista, um abraço. Afinal, somos amigos da montanha.

 À noite, aquele jantar festivo, regado a um belo vinho chileno com queijo de primeira.  Sem contar o delicioso churrasco de despedida do nosso anfitrião nota 10.

Sem falsa modéstia, merecemos! Coisa de loucos ou gente grande;  não é pra qualquer cristão não.

A  vitoriosa expedição 230-A acabava de atingir mais uma meta. Só pra lembrar: somos três aventureiros  amadores e sonhadores com 61 anos de idade e um com 47. Na soma, dá 230.

E já estamos  pensando  na próxima. Assim meus  cinco netos poderão ouvir e curtir mais  causos e histórias vividas pelo vô babão. Quem  sabe as lendas dos quase 7 mil metros do Aconcágua, o topo da América?

Só pra não passar batido: na semana seguinte ao Lascar chegamos bem pertinho de Confluência/ Acampamento Base  do Aconcágua na visita ao parque argentino. Ficamos em Penitentes/Puente del Inca, nas barbas do terremoto de San Juan, com epicentro a mais de 100km de profundidade.

Sei que o Aconcágua é muito  difícil. Desafio pra pelo menos 15 dias e gente experiente no ramo. Vou amadurecer a ideia. Afinal, nada é impossível enquanto temos a ousadia de sonhar e a coragem de tentar.