Donizeti Raddi, 71 anos, corintiano, jornalista e professor de Educação Física aposentado. Hoje, trilheiro, montanhista amador, aventureiro e blogueiro ocasional.

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terça-feira, 27 de setembro de 2022

HUAYNA POTOSI/ACOTANGO: O LIMITE E A CONQUISTA

O amigo Flávio Lo Giudice no cume do Acotango, 6052M



 AVENTURA  DE 10 DIAS PELAS MONTANHAS  DE GRANDE ALTITUDE DA BOLIVIA FOI TÃO INTENSA, INESQUECÍVEL E GRATIFICANTE QUE NEM SEI POR ONDE COMEÇAR. ENTÃO, MELHOR COMEÇAR PELO COMEÇO. PELA CONQUISTA DO  ACOTANGO. OU SERIA MELHOR PELO FIM?   PELO LIMITE IMPOSTO PELA DUREZA DO BRUTO, O NEVADO HUAYNA POTOSI. NA CEREJA DO BOLO,   UM AMBIENTE TÃO ILUMINADO E  BELO QUANTO  DESAFIADOR,  GÉLIDO E HOSTIL. 

QUER SABER? NADA DISSO. COMECEMOS PELA "TURBULÊNCIA" DA VIAGEM PELA BOA, QUE, DE BOA, NÃO TEM NADA .










PÔR DO SOL NO PARINACOTA, AO LADO DE SUA IRMÃ GÊMEA




NA VOLTA DO HUAYNA POTOSI, UM DESCANSO PROVIDENCIAL







TERMAS, COM RIO E PISCINA NATURAL. ÁGUA QUENTINHA


FALTA POUCO!!! RSRS... MAS PRA MIM NÃO DEU




CAMINHEI MAIS UNS 20M E FIQUEI SENTADO NO GELO, BEM ONDE FLAVIO FIXA OS STICKS.



BRAVO!!! A CONQUISTA  DO ACOTANGO, COM O PARINACOTA AO FUNDO



SÓ FALTAVAM DUAS "CORCOVAS", UMA ETERNIDADE









JOSÉ, NOSSO GUIA DA  AGÊNCIA BOLIVIAN MOUNTANEERING


AO NASCER DO SOL, RUMO AO CUME DO ACOTANGO



ISTO POSTO, VAMOS AO QUE INTERESSA. SEM MUITAS DELONGAS. VIAJAMOS PARA LA PAZ NO DIA 13  DE SETEMBRO E RETORNAMOS NO DIA 22. EMBARQUE PELA BOA -  BOLIVIAN DE AVIACION - EM GUARULHOS ATRASOU UMA HORA, O QUE NOS CUSTOU MAIS CINCO HORAS  INTERMINÁVEIS PERDIDAS EM SANTA CRUZ DE LA SIERRA, CONEXÃO PRA LA PAZ. MORAL DA HISTÓRIA: EU E O AMIGO FLAVIO  LO GIUDICE SÓ CHEGAMOS À POSADA DE LA ARBOELA ( DA VOVÓ)  POR VOLTA DA MEIA-NOITE.  A BOA NÃO FOI UMA BOA. LAMENTAVEL!

NO DIA SEGUINTE, QUARTA-FEIRA, ÀS 10H, PARTIMOS PARA O PRIMEIRO DESAFIO DE ACLIMATAÇÃO, SABIDAMENTE JÁ COMPROMETIDA PELA LIMITAÇÃO TEMPORAL. DE VAN -LIQUIDIFICADOR, POR DUAS HORAS,   COM DIREITO A MUITA SUJEIRA POR DESCARTE DE LIXO, FOMOS ATÉ A BASE DO CHACALTAYA, ANTIGA ESTAÇÃO DE ESQUI,  CUJO CUME ESTÁ A 5435M DE ALTITUDE.

ASCENSÃO  CANSATIVA DE  APENAS 120M DE GANHO DE ELEVAÇÃO E  NADA SUPERIOR A 400M DE EXTENSÃO. MAS FALTOU OXIGÊNIO E A SATURAÇÃO FICOU INFERIOR A 90%.  NÃO ACUSEI NADA MAIS.  O FLAVIO NÃO SE SENTIU TÃO BEM, MAS CONCLUIMOS QUE FOI MAIS PELO SACOLEJAR DA VAN DO QUE PELA ALTITUDE. AFINAL, UM DIA ANTES SAIMOS DE 760M EM SANTO ANDRÉ, PARA 4025M NO AEROPORTO DE LA PAZ E 3600 NA PRÓPRIA CIDADE,  LÁ EMBAIXO, NO BURACO. POR SINAL, BEM FEIA, VIU?    SÓ MORRO. SEM HIGIENE, SEM COR, SEM REBOCO E SEM PINTURA. CAMELÔS AOS BORBOTÕES, PRA TODO LADO. RUAS ESTREITAS  E UM TRÂNSITO CAÓTICO, COM PREDOMINÂNCIA MASSACRANTE DE VANS. EM COMPENSAÇÃO, EMOLDURADA PELA BELEZA, ENTRE OUTROS NEVADOS ANDINOS, DO HUAYNA POTOSI E DO  GRANDE ILLIMANI, ÍCONES DA CORDILHEIRA REAL.


 SAJAMA,  ACOTANGO, PARINACOTA...


NA QUINTA FEIRA  -- AO SOM DE UMA  ÓTIMA PLAYLIST  DO FLAVIO QUE INCLUIA  ZECA PAGODINHO, MARTINHO DA VILA,  ELIS REGINA,  ROBERTO CARLOS, LEONARDO, BETH CARVALHO, MARISA MONTE, CHITÃOZINHO E XORORÓ, ALMIR SATER, SERGIO REIS E CIA  -- VIAJAMOS POR 4 HORAS, CERCA DE 300KM ATÉ O PUEBLO DE SAJAMA, POVOADO AOS PÉS DO   LINDO NEVADO SAJAMA, O MAIOR DA BOLIVIA COM 6545M, JÁ DENTRO DO PARQUE NACIONAL SAJAMA.  VIAGEM COM MUITA MÚSICA E IGUAL NUMERO DE REBANHOS DE OVELHAS,  LHAMAS E ALPACAS. PORÉM, QUASE NADA DE ÁRVORES E ÁGUA NOS RIOS. SÓ VEGETAÇÃO RASTEIRA. DESÉRTICO.  CHOCANTE!

JÁ NO  DIA SEGUINTE, ACORDAMOS POR VOLTA DAS 2H30MIN DA MADRUGADA. FEITO O DESJEJUM,   SEMPRE ENCABEÇADO  PELO FAMOSO CHÁ DE COCA E POR MUITA,  MUITA ÁGUA,   MAIS CERCA DE DUAS HORAS DE 4X4 ATÉ A BASE DO ACOTANGO, PERTINHO DO PARINACOTA (6342M)  JÁ NA FRONTEIRA COM O CHILE.

COM O TERMÔMETRO MARCANDO -6°, NOSSA PRIMEIRA AVENTURA COMEÇOU DE FATO POR VOLTA DAS 5H E TERMINOU ÀS 13H30MIN.  NO INÍCIO, NA COTA DE 5400M,  JÁ SUBINDO, DEU PRA PERCEBER QUE CONQUISTAR O 6MIL "MAIS FÁCIL"   ( KKKKKKK) DA BOLIVIA SERIA  UMA PEDREIRA.

AO PASSO, DEVAGAR, DEVAGARINHO, LÁ VAMOS NÓS. POR ENQUANTO, TERRA, AREIA, PEDRISCOS E PEDRAS LADEADOS POR NEVE E GELO. APÓS TRÊS HORAS DE CAMINHADA, DEI OS PRIMEIROS SINAIS DE CANSAÇO.  FELIZMENTE  NADA DE DORES LOMBARES, NO OMBRO LESIONADO OU NA PANTURRILHA. TAMPOUCO MAL DE ALTITUDE. FALTOU MESMO FOI CAIXA PULMONAR. TREINAMENTO  AERÓBICO INSUFICIENTE,  NÉ PROFESSOR RADDI?  

AMEACEI PARAR  NO FINALZINHO DO PRIMEIRO    SUBIDÃO MAIS PESADO, MAS  O GUIA JOSÉ CARREGOU MINHA MOCHILA E O FLAVIO SE ENCARREGOU DOS MEUS CRAMPONS.  LIVRE DE UNS 4KG, CHEGUEI AO DESCANSO PROGRAMADO,  COMI, ME HIDRATEI BEM  E GANHEI MOTIVAÇÃO  EXTRA PRA CONTINUAR.


A CONQUISTA E O  MEU LIMITE


POUCO DEPOIS,   JA NA PRIMEIRA CRISTA GELADA,   CHEGOU A HORA DE COLOCAR OS CRAMPONS  -- SEM EXPERIÊNCIA SUFICIENTE  E FADADOS A QUEDAS FATAIS -- E ENFRENTAR A NEVE E OS PENITENTES, ESPÉCIES DE ESTALAGMITES. IMAGINE CAMINHAR QUEBRANDO OU SE DESVIANDO DE "CONES" DE GELO. PQP! COISA DE MALUCOS.

APÓS SUPERAR PELO MENOS  TRÊS CRISTAS  MUITO EXPOSTAS, ONDE CAIR SERIA FATAL, CHEGAMOS A 5950M.  NUM PEQUENO PLATÔ. FOI AÍ QUE, CANSADO E COM  INDISFARSÁVEL MEDO  DO PERIGO, OLHEI PRA CIMA, PRA TRÁS E DECIDI:  POR SEGURANÇA NA VOLTA, PRA MIM DEU.

MEU AMIGO FLÁVIO CONTINOU  POR MAIS  UNS 90 MINUTOS E FEZ O CUME  ( 6052M) AO LADO  DO GUIA.   VIBROU COM A BELA CONQUISTA E SE EMOCIONOU  BASTANTE -- FOI NA RAÇA --,  ENQUANTO O RADDÃO FICOU POR UM TEMPO SENTADO, QUIETINHO, CONGELANDO, MEIO PROTEGIDO DO VENTO, NUMA ESPECIE DE POLTRONA DE GELO À FRENTE DE PENITENTES E RIBANCEIRAS NO ENTORNO.

COCHILANDO  DE SONO E COM MEDO DE MORRER CONGELADO --   ME LEMBREI DO LIVRO  " DEIXADO PARA MORRER", SOBRE A MAIOR TRAGÉDIA DO EVEREST --,  PENSEI, REFLETI  BEM E NÃO TIVE DÚVIDAS; PEGUEI OS STICKS E COMECEI A VOLTAR. ERREI AO DESOBEDECER O GUIA, MAS ERA PRECISO DECIDIR.

CORRI MAIS RISCOS NAS CRISTAS, MAS DEU TUDO CERTO.   AO REENCONTRÁ-LOS   FALEI COISAS DESCONEXAS, SEGUNDO O FLAVIO. PEDI DESCULPAS AO GUIA E PARABENIZEI MEU AMIGO. TIRAMOS OS CRAMPONS E DESCEMOS PELO TERRENO ARENOSO COMO SE FOSSE ESQUI.  UM MARTIRIO PRA SUBIR; BRINCADEIRA DE CRIANÇA PRA DESCER ATE O CARRO.

CONFESSO CERTA FRUSTRAÇÃO POR NÃO  TER FEITO O CUME AO LADO DO FLAVIO, MAS FOI APENAS UM MACHUCADINHO. NEM SANGROU. ADMINISTREI BEM.   AFINAL,  A VIDA  SÓ TEM GRAÇA PORQUE É FEITA DE VITÓRIAS E DERROTAS. FOI MAIS SENSATO PARAR ANTES DE POTENCIALIZAR RISCOS CALCULADOS, MAS DESNECESSÁRIOS. QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA INDIVIDUAL. PENSEI NA VIDA E NO  ALTO RISCO DE MORTE. ACERTEI NA ESCOLHA. TALVEZ ALGUNS NÃO ENTENDAM -- POXA, FALTAVA TÃO POUCO --, MAS, APESAR DE ADORAR A NATUREZA,   MINHAS PAIXÕES ESTÃO AQUI.


MONTECIELO, SAJAMA, TERMAS E CERVEJA


NO DIA SEGUINTE, FOLGA DA CIA. FIZEMOS APENAS ACLIMATAÇÃO NO MONTECIELO, 4550M, COM GANHO DE ELEVAÇÃO DE 300M. DEPOIS,  FOMOS DE CARRO ATÉ AS TERMAS, RIO  E PISCINA NATURAL COM ÁGUA QUENTINHA E CERVEJA GELADA. UAU!!! DELICIA!

 PROGRAMAÇÃO PARA DOMINGO ERA TENTAR FAZER O PARINACOTA. MAS PREFERIMOS CANCELAR E NOS ACLIMATAR MELHOR PARA O HUAYNA POTOSI, SEGUINDO SUGESTÃO DO MAXIMO KAUSCH, UM DOS ICONES DO MONTANHISMO MUNDIAL,  E A QUEM AGRADEÇO PELOS ALERTAS E CONSELHOS.    ELE DISSE QUE SERIA INSANO.  E FOI. MAS TREINAMOS. FOMOS UM POUCO ALEM DO CAMPO BASE DO SAJAMA. GANHO DE ELEVAÇÃO DE 500M. NA VOLTA, DE NOVO NAS TERMAS.  COM DIREITO A BANHO QUENTE. AFINAL, NINGUÉM É DE FERRO!


PRA CIMA DO BRUTO


APÓS QUATRO  DIAS DE SAJAMA, NA POUSADA DO TAMBÉM GUIA MARIO E AO LADO DE JOVENS DA ITALIA, DA FRANÇA E  DA REPUBLICA TCHECA, DE NOVO TROCAMOS A  CORDILHEIRA OCIDENTAL PELA REAL,  NO ENTORNO DE LA PAZ. 

DIA 19,  VOLTAMOS PELOS MESMO 300KM DA ESTRADA BOLIVIA 4, QUE NO SENTIDO CONTRARIO LEVA AO CHILE. COMO A BOLIVIA NÃO TEM ACESSO POR MAR, MAIS DE 80% DAS  IMPORTAÇÕES ENTRAM   VIA CARRETAS.

POR VOLTA DAS 14H, CHEGAMOS À POUSADA DA RUA LINARES, POINT DO ARTESANATO LOCAL. ESPECIE DE CALÇADÃO QUE VENDE DE TUDO,  DESDE CHAVEIRINHOS E COPINHOS ATÉ BLUSAS E CHALES DE ALPACA 100%. ENFIM, BANHO QUENTE MESMO -- NA POUSADA/CASA DE FAMILIA  SIMPLES DE SAJAMA NÃO DAVA CORAGEM NÉ MEU AMIGO?  -- E CAMA  AGORA SEM NECESSIDADE DE CINCO COBERTORES GROSSOS PRA ENFRENTAR O FRIO.

AH, DETALHE ASSUSTADOR: SÓ PRA PUXAR OS COBERTORES PESADOS A PULSAÇÃO AUMENTAVA E A SATURAÇÃO/OXIGENAÇÃO CAIA PRA 84%/88%.  NORMAL NAS GRANDES ALTITUDES. EM CASA DÁ 98%.

DESCANSADOS, SEM PROBLEMAS DE ACLIMATAÇÃO E MOTIVADOS PELAS PERFORMANCES NOS TREINAMENTOS DE SAJAMA, NO DIA SEGUINTE PARTIMOS  LOGO DE MANHÃ PARA O ACAMPAMENTO BASE DO BRUTO. PREVENIDOS PELO MAL-ESTAR QUE NOS ABALOU QUANDO PEGAMOS  QUASE O MESMO CAMINHO PARA CHACALTAYA, TOMAMOS DRAMIN E PLASIL. BINGO! 2 X 0 PRA NOS CONTRA A VAN.





COM O PERDÃO DO TROCADILHO, PAGAMOS PENITÊNCIAS NOS PENITENTES. MINHA NOSSA!  ATENÇÃO NO FĹAVIO!


CHEGAMOS  NO ACAMPAMENTO BASE DO BRUTO -- 4700M --, DESCANSAMOS UMA HORA E JA PARTIMOS   CÉLERES E FIRMES PRO ACAMPAMENTO ALTO. AGORA COM A MOCHILA MAIS PESADA POR CAUSA DOS MITTONS (AQUELAS LUVAS GRANDES E GROSSAS SEM DEDOS) E DOS SACOS DE DORMIR.  FORAM MAIS DE DUAS HORAS PARA SUPERAR 500M DE DESNIVEL, NUM TREPA PEDRAS SEM FIM. FICAMOS NO ACAMPAMENTO ALTO 3, A 5200M DE ALTITUDE, JA QUE O 1 ESTAVA FECHADO E NINGUEM LEVOU CHAVE. QUE "LEGAL"!


O "MOLHA-PEDRA" E O  RECEIO DE O REFÚGIO VOAR  


LÁ NO ALTO, PEDRA, GELO, NEVE, FRIO E VENTO. NO REFUGIO APERTADO, NÃO PARAVA DE CHEGAR GENTE DE TODO CANTO DO MUNDO. ATE A NOITE, ÉRAMOS UNS 15.   APENAS DUAS MULHERES.  DOIS  BRASILEIROS TEIMOSOS E CORAJOSOS  -- AO MENOS POR ENQUANTO, RSRS  --,  QUATRO INGLESES,  CINCO ALEMÃES, UM COLOMBIANO,  DOIS POLICIAIS BOLIVIANOS...HAVIA AINDA UM QUARTINHO PARA OS GUIAS E UMA COZINHA. MAS NOSSA MESA FICAVA NO REFUGIO/DORMITORIO MAIOR.

DETALHE: QUANDO CHEGAMOS FOMOS RECEPCIONADOS PELO PROPRIETÁRIO/GUIA COM UM SORRISÃO E A FRASE: "BRASIL. PALMEIRAS". PQP! O MESMO NOME E PALMEIRENSE COMO MEU NETO, TAMBÉM VICTOR, COM QUEM, CONFORME PROMETIDO,  VOU COLAR E BATER FIGURINHA NA PRÓXIMA SEMANA. GRAÇAS A  DEUS!

VOLTEMOS AO BRUTO. JANTAMOS POR VOLTA DAS 18H. UM CALDO E UM MACARRÃOZINHO BEM CHINFRINS. NÃO DESCEU BEM. TANTO QUE PRECISEI IR AO BANHEIRO, A UNS 20M, FAZER O N2. BEM DESCONFORTÁVEL. ANTES DAS 19H30MIN17SEG, TODOS ANINHADOS NOS SACOS DE DORMIR -10°. UM SILÊNCIO SEPULCRAL.   TENSÃO NO AR. ADRENALINA A MIL. AFINAL, TODOS DEVERIAM ACORDAR À MEIA-NOITE E SE APRONTAR PRA SAIR COM O RESPECTIVO GUIA.

SÓ QUE..DORMIR COMO? TODO MUNDO QUIETO, MAS NINGUÉM DORMINDO. PELO MENOS EU E O FLAVIO. ALEM DA ADRENALINA E DO FRIO, UM VENTO CORTANTE, ENSURDECEDOR.   UM TERROR. A CADA MINUTO, NO MÁXIMO 2, UMA RAJADA ASSUSTADORA FAZIA O REFUGIO BALANÇAR. JURO QUE FIQUEI DE NOVO COM MEDO DE MORRER E REZEI SEM PARAR. PAPAI DO CÉU, #QUIQUIEUTOFAZENOAQUI?". DEITADO NUM COLCHÃO COLADO NUM CANTO,  JUNTO À "PAREDE" DE LATA REVESTIDA DE PANO GROSSO, ESPEREI A HORA CHEGAR. CALMA!  HORA DE SAIR,  NÃO DE PARTIR!  ANTES DISSO,  UM ENTRA-E-SAI DANADO. UM "MOLHA-PEDRA" SEM FIM. PARECIA PROCISSÃO.  POR DUAS VEZES, OUSEI  ENFRENTAR AQUELE VENTO GELADO PRA VER UM CÉU LINDAMENTE ESTRELADO. CONFESSO: NÃO FUI AO BANHEIRO. FIZ O SERVIÇO A TRÊS PASSOS DA PORTA.


CHEGOU A HORA. A CUÍCA VAI RONCAR 

ACORDO À MEIA-NOITE COM O JOSE ENTRANDO NO REFUGIO E CHAMANDO. JUSTO QUANDO CONSEGUI PEGAR NO SONO. ABRO OS OLHOS ASSUSTADO E SAIO DO SACO COM O ZIPER TRAVADO. É GENTE PRA TODO LADO, A MAIORIA DE UNIFORME VERMELHO, ESBARRANDO UM NO OUTRO.  MAS NADA A VER COM O INFERNO. OU SERIA? RSRS. TIVE DIFICULDADE PRA CALÇAR AS DUAS MEIAS E  A BOTA DUPLA.  INACREDITÁVEL!  ATÉ PERDI O FÔLEGO. DEPOIS, TRÊS CALÇAS E  AS QUATRO CAMADAS SUPERIORES, COM DIREITO A DUAS LUVAS, CADEIRINHA,   GORRO, LANTERNA E ATÉ O CAPACETE.   

TUDO PRONTO.  COM DIREITO A STICKS E PIOLET.  UMA DA MADRUGA. PARTIU HUAYNA POTOSI! TODOS ENCORDADOS,  A CAMINHO DO PARAÍSO (?). APOS UNS 300M, HORA DE COLOCAR OS CRAMPONS ( ARMAÇÃO DE FERRO ENCAIXADA SOB A BOTA PARA FACILITAR E DAR SEGURANÇA NA CAMINHADA NO GELO/NEVE). EM SEGUIDA,  UMA FILA INDIANA A PERDER DE VISTA. UMA BELA IMAGEM, DIGA-SE. COM AS LUZES DE LA PAZ LÁ LONGE, AO FUNDO.

NAQUELA ESCURIDÃO, UM DESAFIO DE GENTE GRANDE.  SOBE, SOBE E SOBE. RETO OU EM ZIGUE-ZAGUE, SEMPRE NO LIMITE. SOBRA HOSTILIDADE. TERRENO EM NEVE E GELO, COM VENTOS UIVANTES,  ÀS VEZES COM VELOCIDADE SUPERIOR A 50KM/H E SENSAÇÃO DE PELO MENOS 12° NEGATIVOS.  FORÇA DO VENTO  QUASE CHEGOU A DERRUBAR MEU AMIGO-IRMÃO DE MONTANHA.

NO SACRIFICIO, AO PASSO... 1,2...1,2...1,2..RESPIRA, PUXA O AR PELO NARIZ PRA FILTRAR E SOLTA PELA BOCA..1,2...1,2... UMA ROTINA MASSACRANTE. "RADDI, NO SEU RITMO", ALERTA O GUIA. PEÇO PRA DESCANSAR.

DEPOIS DE TRÊS HORAS, JÁ COM DOIS JOVENS ALEMÃES DESISTINDO, O CANSAÇO COMEÇA A PEGAR PESADO. FALTA OXIGÊNIO. TODO CUIDADO É POUCO PRA EVITAR O RISCO  DA HIPÓXIA CEREBRAL.  NO CAMPO ARGENTINO, DEPOIS DE GANHO DE ELEVAÇAO PRÓXIMO DE 400M, NA COTA DE 5600M, CHEGA A HORA DE DECIDIR. 

 EU JA NÃO ESTAVA LÁ ESSAS COISAS. NÃO GARANTO QUE CONSEGUIRIA  CAMINHAR MAIS UMAS CINCO/SEIS HORAS PARA GANHAR MAIS 488M E CHEGAR AO SONHADO CUME. JÁ O FLAVIO ACUSAVA  DEDOS DOS PÉS, NARIZ E CANELA CONGELANDO, ALÉM DE FORMIGAR. NOSSA COORDENAÇÃO E NOSSO PSICOLÓGICO TAMBÉM JÁ NÃO ERAM OS MESMOS. TALVEZ POR FALTA DE OXIGÊNIO NO CÉREBRO. AFINAL, ALTITUDE É SINÔNIMO DE AR RAREFEITO.  RISCO IMINENTE!

FOI AÍ QUE DECIDIMOS, JUNTOS, POR   ABSOLUTA SEGURANÇA, PRESERVAR A VIDA. FOI DURO VOLTAR. MACHUCOU. MAS ADMINISTRAMOS BEM. DESCEMOS POR 1H30MIN  NO ESCURO, AINDA ENCORDADOS, MEIO QUE POR INÉRCIA, ATÉ O ACAMPAMENTO ALTO. PIOR QUE NÃO CHEGAVA NUNCA E AINDA PRECISÁVAMOS TER CUIDADO COM GRETAS TRAIÇOEIRAS.

GRAÇAS A DEUS,  APÓS ALGUNS SUSTOS, DEU TUDO CERTO.  CHEGAMOS  NO REFÚGIO, DORMIMOS UMAS DUAS/TRÊS HORAS, TOMAMOS CHÁ DE COCA COM BOLACHAS E ROCAMBOLE DE DOCE DE LEITE, E PARTIMOS PARA O ACAMPAMENTO-BASE, ONDE A VAN NOS ESPERAVA PARA NOS LEVAR ATÉ A POUSADA "PARAÍSO".   LÁ, BANHO QUENTE, CAMA  BOA, ALMOÇO FARTO E CERVEJA PACEÑA.

NO DIA SEGUINTE, SEM ATROPELOS E  VÔOS  QUASE NORMAIS, EMBARCAMOS ÀS 13H, FIZEMOS CONEXÃO EM COCHABAMBA E DESEMBARCAMOS EM SÃO PAULO ÀS 18H. AINDA ANESTESIADOS,  AÉREOS, COM QUEIMADURAS NOS DEDOS -- MEU INDICADOR ESQUERDO ESTÁ QUEIMADO/CONGELADO ATÉ HOJE  -- , NO NARIZ E NOS LÁBIOS. PORÉM,  EXTREMAMENTE FELIZES PELA EXPERIÊNCIA ÚNICA. 

NÃO FOI PRECISO TRAZER  O CUME  DO  IMPONENTE HUAYNA POTOSI NO BOLSO. APENAS A MONTANHA NA ALMA. NÃO FOI PRECISO TER O BRILHO DOURADO DOS GRANDES CAMPEÕES. APENAS ADMIRAR  BEM  DE PERTO O BRILHO DO SOL A ILUMINAR UM CUME  QUE SEMPRE SERÁ  RESPEITADO.






VALEU, MEU AMIGO E PARCEIRO FLÁVIO. SIM, SOMOS VENCEDORES. APRENDEMOS MUITO. NÃO PRECISAMOS DE MEDALHA NO PEITO.  JÁ TIVEMOS A CORAGEM DE TENTAR. E  A CORAGEM DE VOLTAR. CORAGEM E HUMILDADE  PARA VOLTARMOS VIVOS E FELIZES.  GRATIDÃO ETERNA! 

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quinta-feira, 8 de setembro de 2022

COUTO, PRATELEIRAS E AGORA HUAYNA POTOSI E CIA

 


Antes tarde do que nunca! Apenas um   breve texto. Por favor, me desculpem, mas não confundam  textinho com testículo. Linguagem chula, né? Calma! Respirem! Mesmo porque,  passo ao largo  de  rompantes grosseiros tão autoritários quanto  frágeis e suspeitos, atrelados à manjada  falácia sobre sexualidade de garanhão. Turbante imbrochável ou mais um pseudomachista falastrão  a deixar rastro de Jangadinho, o boi  fujão? Qualquer  que seja  sua preferência,  mesmo que por mim não endossada, sempre será respeitada.

Voltemos ao que interessa. Pela terceira vez, voltei ao Pico das Prateleiras. Foi dia 13 de julho, novamente ao lado do amigo Fábio Turazza e dos guias Vitor Nunes e Sadak.


Estive lá em 2002, 2010 e agora. Portanto, exatas duas décadas se passaram. Com 67 anos, juro que tive mais medo e dificuldades pra encarar o maciço. O tempo passa e não perdoa.



E olhem a  grata coincidência. No cume, sem nada combinado, encontrei o Jerônimo, guia que lá me levou há 20 anos.  Papos, lembranças e abraços. Até foto  histórica rolou.


Foram oito horas de aventura. Mais como treinamento para tentar fazer três montanhas de mais de 6 mil metros de altitude já na próxima semana, na Bolívia. Já estou no modo Huayna Potosi.  Ansiedade a mil. Com aquele friozinho na barriga que só passa quando iniciamos de fato a ascensão. Como naquela final de campeonato. Só passa quando o juiz apita pro jogo começar. Se bem que alguns fracotes travestidos de machões não se garantem em decisões. Cantam de galo, mas se borram e se livram das responsabilidades da bola num piscar de olhos. Quando não,  do cargo e  da vida.



Fizemos o circuito Couto/Prateleiras numa boa.  Mas não foi mamão com açúcar não. Assim, com o Morro do Couto,  pude completar a nona conquista entre as 12 maiores altitudes do Brasil.


Acreditem! Nem eu esperava, mas é verdade. Agora  só faltam o  Pico da Neblina (1°), o 31 de Março (2) e o icônico Monte Roraima (8). Já fiz Pico da Bandeira, Pico do Calçado, Pedra da Mina, Agulhas Negras, Pico do Cristal, Pedra do Sino de Itatiaia e Pedra do Altar. Ufa!



Os três restantes estão  sim no radar deste sessentão metido a besta. Mesmo há quase 100 dias  com problemas no ombro, na panturrilha e na lombar.  Não vou parar. Pena  que nossos pontos culminantes  fiquem tão distantes e exijam  logística de valores extratosféricos. Vamos ver.


Por hoje, na alça de mira, apesar das lesões, estão programados, agora ao lado do amigo Flávio Giudice,    3x6mil  nevados da Bolívia, em apenas seis dias. Vamos tentar Acotango (6052m), Parinacota(6342m) e Huayna Potosi (6088m). Difícil? Muuuuito! Impossível? Jamais! Não custa tentar. Mas,  desta vez, sem aclimatação adequada -- assumo o erro --,  para  conquistá-los  e abraçá-los vou precisar do incentivo,   das vibrações positivas e das orações de pelo menos duas torcidas: Coríntians e Flamengo.


Conto tudo quando voltar..se não voltar, fui porque Ele quis. Nada de lágrimas. Tome um vinho (bom) por mim. Fui embora feliz. 

Mas juro que volto. Compromisso inadiável! Promessa é dívida. Opa! Vixe!   Texto contaminado pelo momento triste e  turbulento protagonizado por quem deveria dar exemplos. Conversa  de político profissional. Com raríssimas exceções, farinha do mesmo. Ou seriam esterco do mesmo curral? Ou mesmo tribunal? Sim, ele mesmo, o Supremo. Para alguns, outro templo da vergonha nacional.


Porém, não estou em campanha eleitoral.  E entendo que mensalão e petrolão  também são frutos podres de corrupção deslavada.  De políticos destronados  tão  ultrapassados,  cínicos e nojentos quanto os empodeirados de plantão. Vide as  campanhas  medíocres e desrespeitosas de semideuses a um passo da divindade, da  "perfeição".  Pau a pau.  Mas ao rés do chão.  Um escárnio. Uma afronta  ao mérito e à inteligência do cidadão comum. 

Feliz e honestamente, pra mim,  pobre mortal, meu salário de aposentado  como professor de Educação Fisica e jornalista, de fato, é fruto saudável,  justo e suficiente de 40 anos de suor. Questão de berço!


Então, recados dados,  voltemos à terra. Afinal, meu querido neto, Victor, me espera pra bater bafo e completar o álbum com as figurinhas da Copa do Mundo. Ah, minha doce Julia pediu mais uma pedrinha do vulcão. Como não trazer?








segunda-feira, 9 de maio de 2022

UM SONHO, DUAS BANDEIRAS E TRÊS CUMES

Enfim, no topo do Cristal


Chegando no Bandeira




Na cabeça, um sonho acalentado há  exatas duas décadas,  ainda no alto das Prateleiras. No topo da  terceira montanha mais alta do Brasil, duas bandeiras a emoldurar um coração orgulhosamente rio-pardense/andreense. Na realidade, três conquistas sequenciais de cumes em menos de 10 horas. Feito respeitável pra quem ja passou dos 60!

No último dia 28 de abril, com temperatura entre 20° e 25°,     sob  um fantástico céu de brigadeiro a iluminar a Serra do Caparaó, enfim, Bandeira, Calçado e Cristal  nos receberam de braços abertos.

E que abraço!!! O melhor  do mundo. Como ombro de pai, colo de mãe, cumplicidade de irmãos, esposa e filhos,  e  sorrisos  inocentes de netos...

Hoje, de volta, eu  e o amigo Fábio Turazza, um parceiro nota 10,  ainda estamos transbordando de orgulho e  felicidade. Foi bem difícil, cansativo, mas valeu a pena. Gratificante! 

Bem na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo, encravada aos pés de montanhas produtoras dos melhores cafés do Brasil, a  jovem ( emancipada em 1995) e pequena  Alto Caparaó tem apenas seis mil habitantes. Pouco mais, pouco menos, talvez.

Diz a lenda que  três boiadeiros corajosos subiram a serra, laçaram e caparam um touro muito  bravo chamado  Ó, daí o nome Caparaó. Huuumm!

Também há mineiro hospitaleiro  a jurar que o nome do município   vem do tupi-guarani --  caaparo, coisa silvestre, do mato, como a água cristalina que desce da montanha.

Na véspera, de Santo André até lá foram 764km,  superados em 12 horas. Pista simples, muitas curvas, caminhões, lombadas e, no  trecho final,  sem acostamento e com invasão do mato, um buraco dentro de cada cratera.  Absurdo! Vergonha a ser creditada na conta do governo mineiro.





A grandeza do Cristal




Um ponto branco no meio da bela montanha


Um dia de Homem Aranha
Um caipira  6.7 no cume cristalino



QUERÊNCIA, TRONQUEIRA, TERREIRÃO...

No dia seguinte, após sono reconfortante na simples e aconchegante Pousada Querência, pulamos da cama logo cedo, tomamos café reforçado na padaria mais  próxima e fomos ao encontro do guia  nota 10. Como líder e condutor,  Sairo começou ainda  menino,  aos 15 anos.  Já são 23 de dedicação à preservação de natureza exuberante e a turistas do país  inteiro. Tão discreto e simplório quanto altamente comprometido com a profissão e com a serra. 

Fomos de carro.  Lógico! Oito minutos e 13 segundos até a portaria do Parque Nacional do Caparaó -- ingresso gratuito reservado pelo site -- e mais uns 18 minutos de estrada de terra apenas razoável até o estacionamento Tronqueira. 

OBRIGADO, MEU DEUS


Sairo, um guia de verdade



Fábio  Turazza e Sairo, parceria vitoriosa 


Daí pra frente, a partir das 7h20min,  por 3,7km, um show de beleza incomum. Sebo nas canelas, até passarmos pelas  lindas cachoeiras e poços cristalinos do Vale Encantado --  de um lado MG, do outro ES -- e chegarmos ao famoso Terreirão.

Ali,   trilheiros, aventureiros, turistas de ocasião e até peregrinos do Caminho da Luz, montam barracas ou apenas descansam e se reabastecem antes de encarar os 3,2km finais até o cume do famoso Bandeira. Aquele, então considerado o ponto mais alto do Brasil,  onde, em 1859, D. Pedro II mandou fincar uma bandeira do Império. 

Após tomar água gelada, gatorade e um café feito na hora pelo Sairo, retornamos pra trilha às 9h15min, no exato momento  em que quatro mulas chegavam com material para reformas de  duas  construções utilizadas por guias e funcionários do parque. Ah,   também ali fica a Casa de Pedra, que, do final de 1966 ao início de 1967, na chamada Guerrilha do Caparaó, teria servido como "QG" de  alguns militares cassados e guerrilheiros  de esquerda que se insurgiram contra a ditadura militar. Muita fumaça e pouco fogo.

Duas paixões: Brasil e Coríntians



PARTIU CRISTAL!


Sem perder tempo pra não voltar no escuro, cruzamos a pontinha  referência/divisa dos estados sobre um "corguinho" e, já em terras capixabas, aceleramos por cerca de 2km -- bem próximos de outros picos relevantes como Morro da  Cruz do Negro (2658m), Tesouro (2620m), Tesourinho e Pedra Roxa (2649m) -- , até a bifurcação: à esquerda, uma subida com muita pedra quase em linha reta até o Bandeira; à direita, uma trilha -- a das 3 Lagoas, que poucos fazem--, passando pela nascente do rio Caparaó,  onde tomamos água, até a base do Cristal, ponto culminante do Estado de Minas Gerais. Um sobe e  desce sem fim e sem  demarcações claras. Daí a importância de se escolher um bom condutor.

Nossa escalaminhada não foi fácil. Pra mim! Nosso guia praticamente não usava as mãos, enquanto  este caipira estava mais pra cabrito montanhês do que pra Homem Aranha.

Caraca! Inclinação chega a  assustar...se errar o passo, a ranhura,  o apoio, era uma vez. Alguém tomaria o  último vinho por mim...

Foram  uns 25 minutos pra conquistar uma das  montanhas  top 10 do Brasil.  Nem o confuso IBGE sabe oficialmente  se é a sexta ou a sétima entre as brutas. No cume, com 2770m,  descortina-se  cenário deslumbrante. Um mar de montanhas a perder de vista, com o casario  de Alto Caparaó fincado lá embaixo, ladeado por cafezais. À esquerda,  já no Espírito Santo, o acampamento da Casa Queimada, outro caminho de acesso ao Bandeira.

Livro de cume molhado mas rubricado com orgulho, cristal prometido pra neta Julia no bolso,  descemos com extremo cuidado, em 15 minutos.  Na base, reforçamos o estômago, jogamos conversa fora e  às 13h partimos pra cima, contornando o Calçado Mirim (2818m) por uma trilha estreita até atingir o Calçado, ainda  extraoficialmente considerado pelo IBGE  como o  quarto mais alto do País,  com 2849m.  Mas deve ser excluído da lista porque mais parece ombro do Bandeira.

Em seguida, com o coração na boca, a língua de fora e a musculatura da perna dando  claros sinais de cansaço, passamos pelo Pico 2 ou Pico do Cruzeiro (2852m), descemos um pouco, ganhamos a trilha principal e partimos definitivamente pra  atingir o Bandeira.


Chegamos ao topo, 2892m, às 14h,   ainda com céu azul, mas com neblina e nuvens se aproximando a partir do Cristal.

Muito alto. Visão de 360° de tirar o fôlego. PQP! Coisa  fantástica! Mais água, carb up,  castanhas,  doces, salamitos, cumprimentos mútuos, agradecimentos e  fotos  com as bandeiras do Brasil e do nosso Coríntians.

No  famoso livro de cume, fica, com orgulho,  um legado singelo, mas  para  a eternidade...os nomes dos meus oito  amados netos: Victor, Júlia, Davi, Matheus, Cecília, Beatrice, Gabriel e o caçulinha Gustavo.

E  lá vamos nós morro abaixo. Como diz o ditado,  o santo pode até ajudar, mas o cansaço empurra pra quedas inevitáveis.

Saímos  do Top-3 às 14h20min e só descansamos uns cinco minutos no Terreirão, pra chegar no Tronqueira às 17h  dentro da programacão proposta pelo torcedor do Flamengo de fala mansa, passos firmes, guiada segura e liderança quase silenciosa.

Graças a ele, as montanhas nos receberam de braços abertos. Graças  a Deus, nossos  sonhos viraram conquistas inesquecíveis. 

Graças a todos os anjos da guarda de plantão,  fui enaltecido por ter feito tudo isso --  cerca  de 16,5km,  ganho acumulado de altitude superior a 1350m e perda próxima de 1250m -- em apenas 9h40min.












Fábio, um guerreiro 6.3


 Aventura inédita sob o comando do Sairo. Pelo menos pra quem completa 67 anos daqui a 30 dias.  Ainda vou mais longe e mais alto. Acreditem!  Afinal,  amo, respeito e sou amigo da montanha. 

Faltou tempo pra curtir as belas cachoeiras e as invejáveis  plantações de café da região. Quem sabe um dia?

Muito obrigado a todos.








FABIO, SAIRO E RADDI















domingo, 9 de janeiro de 2022

O PICO, O RISCO, O MESSIAS E A FARSA





AFINAL, É PREFERÍVEL SER POBRE,  ÉTICO E  LEAL  A 20 LEITORES DE UM  BLOG QUALQUER, DESPRETENSIOSO,  OU SER MILIONÁRIO E  POSAR DE LIDER MESSIÂNICO PRA MAIS DE 2,5 MILHÕES DE SEGUIDORES,  POTENCIAIS CANDIDATOS A OTÁRIOS DE PLANTÃO?

RESPEITAM-SE ESCOLHAS DIVERGENTES, MAS PRECISO FALAR SOBRE A  TREMENDA IRRESPONDABILIDADE DO COACH MOTIVACIONAL/INFLUENCER DIGITAL  PABLO MARÇAL.O CARA SIMPLESMENTE COLOCOU 32 PESSOAS DESPREPARADAS EM RISCO PRA ESCALAR O PICO DOS MARINS SOB MAU TEMPO. UM DESAFIO ABSURDO, SUICIDA.

" BASTA QUERER. É TUDO EMOCIONAL.VAMOS SUBIR". RESULTADO: MAIS UMA VEZ O CORPO DE BOMBEIROS SALVOU VIDAS  DE QUEM TAMBÉM TEM CULPA NO CARTORIO. MESMO PORQUE, NINGUÉM TINHA UM 38 APONTADO PRA CABEÇA.

SOBROU IRRESPONSABILIDADE PARA O FALSO LIDER...FALTOU PERSONALIDADE AOS FANATICOS SEGUIDORES DO MESSIAS... BASTAVA DIZER NÃO. COM CHUVA FORTE E CONSTANTE, ALEM DE VENTOS PROXIMOS DE 100KM/H, NÃO DÁ NEM PRA TREINAR NO PARQUE CENTRAL.

PORÉM, O SONHO DE SAIR DA POBREZA (?) E  ENRICAR DO DIA PRA NOITE, SEM DAR DURO,  FALOU MAIS ALTO.  TALVEZ SIMPLES AMBIÇÃO DE INCAUTOS À ESPERA DE UM MILAGRE.  DESESPERADOS, MUITOS CAEM NA ARMADILHA DA SEDUÇÃO.

 AFINAL, " QUEM NÃO QUER CORRER RISCOS QUE FIQUE EM CASA ASSISTINDO STORIES", COMO ARGUMENTA PABLITO,  ALGUEM QUE USA O PODER DA PALAVRA (  QUASE TUDO PAPAGAIADA, DIRIA MEU SAUDOSO PAI) PRA  INGLUENCIAR, ILUDIR, SEDUZIR, ENCANTAR, CONQUISTAR,  APARECER E FICAR CADA VEZ MAIS RICO. QUEM SABE TROCAR O JATINHO?

IDOLO DE MUITA GENTE, AUTOR DE LIVROS E PALESTRANTE COM SABEDORIA ATE PRA USAR A PALAVRA DE DEUS, O COACH ACHOU QUE  SUBIR A MONTANHA SERIA COMO ABRIR O MAR E CONCLAMAR SEUS LEGIONARIOS.


LEDO ENGANO. PURA IRRRESPONSABILIDADE. QUANDO NAO SE REUNEM AS CONDIÇÕES NECESSÁRIAS E A NATUREZA NÃO QUER, NAO ADIANTA SÓ GOGÓ. LITERALMENTE, PALAVRAS AO VENTO.

ESSE JOVEM AGORA RICO, PAI DE QUATRO FILHOS, MERECE SER PUNIDO. PRECISA APRENDER QUE NAO PODE TUDO. NÃO BASTA QUERER. COMO LIDER, FOI UM FRACASSO. IMPETUOSO, MAS ARROGANTE,  EGOISTA E IRRESPONSAVEL. QUE TENHA HUMILDADE E APRENDA A LIÇÃO...PODE COMEÇAR PEDINDO DESCULPAS A SEUS SEGUIDORES E AGRADECENDO AOS BOMBEIROS.



P.S.: SO PRA LEMBRAR, A SERRA DA  MANTIQUEIRA É MEU QUINTAL. TENHO CERTA EXPERIÉNCIA PRA AVALIAR OS RISCOS. AO LADO DO GUIA LEO E DO GENRO DANILO, FIZ A TRAVESSIA MARINS ITAGUARÉ EM 12 HORAS. COM SOL,  CEU AZUL E ESTRELAS, DIGA.SE. TAMBEM FIZ O MARINSINHO ISOLAMENTE, PELA POUSADA MAEDA...TERRENO DIFICIL, DE MUITO TREPA-PEDRA E FACIL DE SE PERDER. IMAGINA COM CHUVA, FRIO E VENTO!!! PAGOU PRA VER! PERDEU!

AH, TAMBÉM TIVEMOS, EU E O LEO,  DE ABORTAR UMA TRAVESSIA DA SERRA FINA. CHUVA NOS PEGOU NA SUBIDA DA  PEDRA DA MINA E O REMÉDIO FOI DESCER ATÉ PAIOLINHO. NÃO SEM ANTES LEVAR UM TOMBO FEIO. APRENDI A LIÇÃO!  

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Pedra do Sino do Itatiaia

 Sinceramente, uns 10 anos atrás, cheguei a pensar ser o vizinho  Parque Central  meu único e aconchegante quintal fora de casa. Mas não! 

Ultimamente, cada vez de forma mais cristalina e intensa, percebo que a montanha é minha casa, meu quintal, meu Parque Central. Porém, em forma de latifúndio. Terras, cachoeiras,  pedras, vales e montanhas a perder de vista. 

Ainda não passei escritura, mas não vai demorar. Vou tomar posse da Serra da Mantiqueira,  da Serra Fina, do Parque Nacional do Itatiaia, da Serra da Bocaina, da Serra dos Órgãos, da Serra da Canastra, da Chapada Diamantina...

Já escrevi e  volto a reafirmar sem medo e sem blefe: se um dia eu não voltar, fui porque ELE quis... nada de lágrimas...tome um vinho por mim...fui embora feliz.

Faça chuva ou faça sol, lá é o meu refúgio. Sob calor escaldante ou frio congelante, lá é meu paraíso. Cansado, quebrado, dolorido... às vezes assustado,  quase sempre suado ou até sangrando, mas cantando refrões de  felicidade e declamando poemas de gratidão.

Semana passada, no PNI, não foi diferente. Para escapar da promessa de chuva forte e raios nada amigáveis, trocamos a quarta-feira pela quinta. E deu certo! 

De van, saímos -- Vitor Guia, Flávio, Gabrielle, Lucas, Angela e Raddão -- de Penedo às 5h15min da matina, pegando a Dutra e  saindo pra BR-354 em Engenheiro Passos. Depois de 24km, na Garganta do Registro, divisa com Itamonte-MG, entramos à direita. São 14km até o Posto Marcão ( estrada ruim até a portaria da parte alta).  Cumprimos a tarefa burocrática e começamos a caminhada às 7h40min, a partir do Abrigo Rebouças. 



AGULHAS NEGRAS





PEDRA DO ALTAR






Altar AO FUNDO
























Pedra do Sino


Circuito  começou de leve, quase um passeio no parque, passando pelo lago do abrigo e pela ponte pênsil, até chegar à bifurcação: direita pro  famoso pico   de Agulhas Negras e esquerda pra Pedra do Altar.

Aí a roda da trilha já começa a pegar. Subida exige bom condicionamento físico. Fôlego só volta ao patamar aceitável pouco antes  da Pedra do Altar (2665m, 11° do Brasil ao lado do Pico dos 3 Estados, na Serra Fina).

A partir do Altar, mesmo sem necessidade de tantas orações, o santo passou a ajudar. Descida até a Cachoeira do Aiuruoca, já vislumbrando Ovos da Galinha e o nosso principal objetivo da aventura, a Pedra do Sino do Itatiaia -- pra não confundir com o Sino da Serra dos Órgãos-RJ.

Superada e curtida a cachoeira ainda quase sem água, passamos pelas nascentes do Aiuruoca -- casa do papagaio em tupi-guarani --  e não demoramos pra chegar aos Ovos da Galinha.

Caraca!  E agora? Lá está a almejada Pedra do Sino, 10° ponto mais alto do Brasil com 2670m. Não vai ser fácil. E não foi. Principalmente em tempos de pandemia, quando os treinos são reduzidos e as montanhas viram um desafio, uma exceção. 

Foi difícil evitar pit-stops sequenciais. Muito aclive, muita pedra e pouco oxigênio na caixa. Pelo menos da minha parte, já que o ritmo imposto pelo Vitor ( cel do grande guia é 24.981585085) foi bem forte. Nem poderia ser diferente pra quem pretendia, se desse tempo, completar o circuito no Morro do Couto, o 9° ponto mais alto do País, com 2680m de altitude, segundo dados do IBGE .

Ficamos no Sino cerca de 30/40 minutos. Tempo suficiente pra descansar, respirar,  se hidratar, se alimentar bem, contemplar a paisagem -- apesar da neblina e de  algumas nuvens passageiras -- e fazer as fotos de praxe com imagens privilegiadas de Agulhas Negras,  Pedra do Altar, Asa de Hermes, Morro do Couto e cia.

Iniciamos o retorno ao meio-dia, com o objetivo de chegar ao estacionamento da portaria antes das 15h. Descida cuidadosa foi um pouco menos estafante e mais rápida do que a ascensão. 

Atravessamos um pequeno charco com alguns bambuzinhos e capim elefante, contornamos  os Ovos da Galinha e aceleramos o passo, agora  superando as nascentes do Aiuruoca em terreno plaino, sem passar pela cachoeira,  até iniciar a  longa subida rumo ao Altar.  

Raddão e Angela,  apesar de sessentões determinados, ficaram uns 100/200m pra trás, mas nossos amigos mais jovens nos esperaram de novo no entrocamento do Altar. Em vez de voltar pelo mesmo caminho da ida, Rebouças, optamos pela direita, no circuito dos 5 Lagos,  que nos levaria até o posto Marcão.

Trilha em plano inclinado,  muito rochoso, com blocos enormes, exigiu extremo cuidado. Cair poderia significar rolamento mínimo de 10/20m. Perder o foco seria flertar com o caos e com o abismo. Então, melhor nem olhar pra direita.

Por mais que tenhamos nos esforçado e pisado no acelerador -- bom lembrar que não somos atletas nem estávamos em competição --, alternando sobe-e-desce,  não foi possível chegar ao estacionamento antes das 15h30min. Mesmo com os 15/20 minutos finais sendo em declive. 

Sinceramente, acho que nossa capacidade "atlética", aeróbica, foi superdimensionada, considerando-se que  objetivos principais do dia ficam em lados opostos do parque mais antigo do Brasil.

Por isso, pra não infringir as normas do espaço no quesito horário, optamos por respeitar e deixar o Morro do Couto pra outra oportunidade.

Ficamos muito felizes por cumprir os 23km de pernada, com  significativos 900m de ganho de elevação, em cerca de oito horas. Felizmente, sem pegar chuva. Sem dúvida, mais uma vitória, uma conquista. 

Festejada no "armazém" em reforma  do Breno, na Garganta do Registro. Neto do finado seu Miguel é uma figura ímpar, um vendedor nato. Coisa de DNA. Incrível... a mesma conversa, o mesmo sorriso, a mesma atenção. Até na hora de oferecer os queijos-aperitivos de cortesia,  preparar a pinga com mel sem cobrar e cortar os doces de leite com café/ goiabada e de abóbora com côco de dar água na boca. 
Ah, filho do Nelson também lembra o vô na hora de fechar a conta. Se o Breno te perguntar sua data de nascimento, melhor não revelar... ele pode somar (rsrs). Pena que ele não tenha mais o chope Kalena.


Mais uma vez, com a graça de Deus, em companhia de amigos nota 10, tudo correu sem problemas. Obrigado e parabéns a todos. 

         

Sapinho rubro.negro Flamenguinho

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O ADEUS DO GRANDE GUARDIÃO

 






INFELIZMENTE, SEU MAEDA NOS DEU  O ÚLTIMO ADEUS.   VÍTIMA DE UM ACIDENTE/INCÊNDIO DOMÉSTICO HÁ CERCA DE UM MÊS, O GRANDE GUARDIÃO DA MANTIQUEIRA NÃO RESISTIU ÀS QUEIMADURAS E  FALECEU HOJE DE MANHÃ, AOS 80 ANOS.

QUE A MONTANHA O RECEBA DE BRAÇOS ABERTOS. COM O  CARINHO, O RESPEITO E A GRATIDÃO QUE SEU MAEDA SEMPRE MERECEU.

QUE TURISTAS, GUIAS E,   PRINCIPALMENTE,  MONTANHISTAS JAMAIS SE ESQUEÇAM DE TUDO QUE  O PRECURSOR  EXEMPLAR FEZ POR TODOS NÓS. PEQUENO NO TAMANHO, GIGANTE NAS ATITUDES.

QUE A PARTIR DE HOJE,  O MARINSINHO,  INCRUSTADO NO SEU QUINTAL E NO SEU CORAÇÃO, PASSE A SE CHAMAR PICO MAEDA.

SIM, PICO MAEDA, UMA PEQUENA MAS JUSTA HOMENAGEM A UM  HOMEM QUE NASCEU PRA DEDICAR AMOR INCONDICIONAL À MONTANHA.

QUE CADA UM DOS SEUS 2432M SIGNIFIQUE UM GESTO  DE REVERÊNCIA A UM DOS MAIORES ÍCONES DO MONTANHISMO BRASILEIRO.

QUE CADA PEDRA DO COMPLEXO MARINS/ITAGUARÉ SE TRANSFORME EM LUZ. NAQUELA SETA AMARELA DO GRANDE JAPINHA A NOS MOSTRAR O CAMINHO.

QUE CADA PALMO DE TERRA, CADA BAMBUZINHO, CADA CAPIM ELEFANTE, CADA POR DO SOL E CADA VISÃO ESTONTEANTE DOS CUMES  DA SERRA FINA NOS FAÇAM LEMBRAR COM CARINHO DE QUEM AJUDOU A ABRIR TRILHAS DESAFIADORAS QUE DESEMBOCAM NUM LUGAR  CHAMADO FELICIDADE.

A FELICIDADE DE QUEM SE SUPERA. O ÊXTASE DE QUEM CONQUISTA. A GRATIDÃO DE QUEM JAMAIS SE ESQUECE.

AH, NÃO SE PREOCUPE TANTO, VELHO MESTRE. ALGUÉM HÁ DE CUIDAR COM DENODO DA SUA TRILHA PREFERIDA. DA ÁGUA, DOS MIRANTES, DA PEDRA MONTADA,  DAS SETAS INDICATIVAS, DO PICO MAEDA, DO MARINS, DA PEDRA REDONDA, DO ITAGUARÉ...DA SUA PAIXÃO POR MAIS DE MEIO SÉCULO.

OBRIGADO GRANDE MAEDA.  NOSSO CONVÍVIO FOI BREVE, MAS MINHA GRATIDÃO SERÁ ETERNA. QUE  DEUS O TENHA.