Donizeti Raddi, 71 anos, corintiano, jornalista e professor de Educação Física aposentado. Hoje, trilheiro, montanhista amador, aventureiro e blogueiro ocasional.

Quem sou eu

Minha foto
Santo André, São Paulo, Brazil

Seguidores

sexta-feira, 8 de março de 2024

MONTE RORAIMA. A ANATOMIA DE UMA "CONQUISTA" HISTÓRICA



Caminho para um templo místico e lendário chamado Monte Roraima, à direita



 " A noite não tinha luar, mas algumas estrelas brilhavam e podia-se ver por um pouco a distância na planície. De repente, no meio da escuridão da noite,  algo passou voando, zunindo como um avião. Por um instante, todo o nosso grupo foi coberto por um dossel de asas coriáceas e eu tive a visão de um longo pescoço, parecido com uma cobra, um olhar feroz, vermelho, guloso, e um grande bico que se abria e fechava, cheio, para meu espanto, de pequenos dentes brilhantes. Por um instante, as asas monstruosas apagaram as estrelas, e depois a criatura desapareceu sobre o topo do penhasco acima de nós".


 

Encontramos!!!



Bem-vindo ao novo  velho planeta




Não é montagem! É a Clarice!


 

 

Vale dos Cristais
Um robô de pedra-cristal?


 








Festa no topo da Pedra Maverick...2810m.


 

Nosso "hotel" 6 estrelas, uma pra cada um do grupo









Quem pintou esse quadro? Deus!

 

Paredão sem fim


Os guardiãos da montanha




Cariocas no Copacabanas Jacuzzis


Caipira no açudinho transparente


Olha a chuva!




Dançando na chuva: Serge, Flavio e Renato


 

 


 


 Obrigado, Senhor!

Caramelus Curiosus


 

Guerreiros da montanha


 

O botafoguense e a dra

 

Sim..uma cachoeira no platô


 

Na Fenda

 

 


 

Homenagem aos oito netos


O amor é lindo...


 


Chegada triunfal à comunidade após sete dias de imersão total

 


 

Cadê a RG? Sem burocracia  e sem tanques na fronteira


 


Olha só a lua cheia! Que recepção! 


 

 

 


Precisa? No topo, Vai Curiiintia!!!

 

Lembra o Passo dos Anjos, na Serra Fina



 


Acampamento base


 





Céu azul: Henrique e Clarice nas alturas

 

Passo das Lágrimas, últimos metros perto do topo



 

Enfim, chegamos ao topo


 


 Yoga: veja  o que o Flavio fez assim que chegou ao topo



Boralá! Partiu Monte Roraima

 






Renato, a fortaleza dançante

















Cansadão no Acampamento Militar




Toyota lotada. Partiu!


Olha a libélula carioca...e o papagaio de pirata




 
Pqp!!! Nossa  primeira noite nos 34 km2 do místico e emblemático Monte Roraima não poderia ser mais assustadora, horripilante.

O engenheiro químico campineiro tremia que nem vara verde. Seus poucos cabelos estavam ouriçados. A companheira, gerente do Banco do Brasil, chorava grudada na sua cintura.

O casal carioca, marinheiros de primeira viagem, estava estupefato. A advogada e futura candidata a vereadora  não sabia se movia ação ou perguntava se a criatura gigantesca tinha título de eleitor no Rio.  " Vota em que zona?" Seu companheiro, funcionário do BNDES e torcedor do Botafogo, sorria de tão nervoso, mas deixava brotar dos olhos verdes duas lágrimas, as últimas, remanescentes da decepção com a entregada do time no Campeonato Brasileiro de 2023.

Corintiano, acostumado às agruras da vida,  sofredor por opção, o professor de Educação Física idoso/preferencial estava literalmente com o cu na mão (  amigos de grupo, vocês se lembraram da moça tarada,  insaciável, né?). Tiozinho olhava para aquela cabaninha verde musgo logo abaixo da barraca-cozinha. Sabia que, apesar do zíper estragado, era seu porto seguro. Afinal,  lá havia um troninho improvisado, com  cal no fundo do saco de lixo...fazer nas calças seria um vexame internacional.

O guia venezuelano nota 10 tentava de tudo para nos acalmar.  Orava, contava lendas e clamava pelos deuses da montanha.  Lamentava por o histórico  portal da salvação estar tão longe. Assoviava pra chamar o vento e se travestia de xamã ( respeito muito), movimentando os braços de forma ritmada pra tirar a paúra dos mais sensíveis. Sua companheira apenas sorria, calmamente, como se o monstro alado fosse um meigo beija-flor.

Por outro lado, Caramelo, preso à guia curta,  era sinônimo de impaciência.  Piscava sem parar, mas sem demonstrar  medo. Trocava os óculos vermelhos pelos pretos, estes pelos amarelos e voltava  aos vermelhos. Os azuis ele perdeu na Ótica Firenze.  em Santo André. Caracas!!! Era o único com  o celular online. Dedo nervoso! Pesquisava no dr. Google freneticamente. Seria um dinossauro? Imagina! Período jurássico, há 150 milhões de  anos!  Um iguanodonte? Também não!  Coisas pré-históricas. Uma serpente assassina do fantasioso Lago Gladys? Uma mariposa preta, enorme, de olhos vermelhos, devoradora de humanóides?  (Lembra, Yuri? Pousou em você e no Serge quando ele contava a história de xamãs espanhóis e mexicanos)  Um peixe-lagarto  voador de três olhos, uma serpente púrpura de 15m, um macaco antropóide, um estegossauro ( imensa ave feroz) ou um fororacos, o grande cervo?  Negativo! Período pré-cambriano. Ambiente inóspito.  Quase sem vida. Drummond recitava uma pedra no meio do caminho. Lá no alto, são pedras sobre pedras e inúmeras formações rochosas moldadas pela água e pelos ventos.

De repente, eufórico, tremendo  de  frio, mas sorrindo e  dançando ao som de um  joropo venezuelano, Caramelus intelectus plenus se manifesta gritando.

-- Bingo! É um pterodactylus longirostris, um "dedo voador" que decola a 68km/h. Chega a 12m, 200kg e é da família dos pterossauros. Se alimenta de peixes, insetos e pequenos animais.  Fiquem tranquilos. Estamos salvos. Por enquanto. Sei como espantá-lo ou induzi-lo a voltar pra casa. É  monogâmico, romântico e apaixonado por uma loira de asa comprida.

Caramelo busca sua play list preferida.  Aumenta o som. Acha um ritmo colombiano na voz de uma mulher. Nada feito! A criatura curte Shakira, mas fica ali. Rondando. Mostrando dentes em forma de serra.  Caramelo tenta o balanço venezuelano ( caribenho/espanhol/africano). Esquece!  Que tal Almir Satter? Ptero ( intimidade é uma merda!) sobrevoa o acampamento do "hotel" Tauasan (?) balançando o esqueleto sem parar. Adora Chalana, Tocando em Frente e Romaria, aquela em parceria com Renato Teixeira. Mas insiste nos rasantes.  Pqp! A coisa tá feia!

--Achei a música que ele ama!  Agora ele vai embora de vez,  de raiva ou em busca da mulher amada. 

E o vira-lata lasca Roberto Carlos cantando sucessos inesquecíveis. Para nós! Outra vez, Lady Laura, Amigo, Como vai você, Cavalgada,  Amada Amante...e nada.

Aí a dra., "fã ardorosa" do Rei,  sugere a cartada final, uma linda música de corno,  de zona, como diria meu  amado irmão Moisés. "Que tal Evidências? Mas com Chitãozinho e Xororó".

 

Truco!  Casal maior na mão. Zape  e sete de copas. Ptero amolece, se derrete todo. Chora copiosamente. Faz lembrar o Passo das Lágrimas.  Com água.  Range os dentes, abana o rabinho (ou rabão?), pisca pro   carregador gozador Renato e bate asas sem dizer adeus. 





 

Pois é...tudo isso soaria como verdade inconteste se, antes da expedição ao surreal Monte Roraima, esse caipira aqui não tivesse lido O Mundo Perdido, fábula-romance de Arthur  Conan  Doyle,  criador de Sherlock Holmes  ( primeiro parágrafo transcrito acima está na contracapa do livro). 

Antes, pura  fantasia! Agora, um cenário tenebroso, quase sempre com brumas,  perfeito para sete dias de desafios e surpresas sequenciais. Sete dias para realizar um  sonho que chegou a estar bem distante. "Conquistar" oito das 10 montanhas mais altas do Brasil.  Nem o  ditador falastrão   nos segurou. Conseguimos! Graças a todos os envolvidos. Todos!

 



 


RIO TEK. ACAMPAMENTO BASE E TOPO 



Início  real da jornada triunfal aconteceu na comunidade indígena Paraitepuy, já 110km dentro da Venezuela.  Quinta-feira à tarde, 22 de fevereiro. Vegetação baixa, com raros capões de mato verde e poucas   árvores de no máximo porte médio. Além de córregos cristalinos.

Até o acampamento do Rio Tek foram cerca de 14km, com ganho de elevação  de apenas 300m,  em quatro horas.  Terreno plaino na maioria. Mas engana.  Não sofri muito! 

Quase ao anoitecer, banho frio,  de rio, e muito repelente pra encarar os vorazes  mosquitinhos puri-puri. Depois do  lauto jantar, é hora de  apreciar um mar de estrelas sem igual, sentar na cadeirinha especial,  jogar conversa fora,  mergulhar na barraca  e dormir o sono dos deuses.

No segundo dia a pernada começou logo cedo. Trilha serpenteia levemente por vegetação rasteira entremeada por árvores pequenas. Estamos nas franjas da Gran Sabana, espécie de cerrado brasileiro.

Ganho de elevação perto dos 850m em 10km até o acampamento base me quebrou. Mesmo com muita água natural. Sem purificador. Logo após o reconfortante banho de cachoeira,  sob sol a pino, numa subida íngreme, senti câimbras no músculo  posterior da coxa esquerda e dor no quadril. Precisei sentar nas pedras pelo menos três vezes. Ady, carregadora, cozinheira e guia auxiliar,  me acompanhou de perto. "Raddi, como esta su corazón. Todo bien?"..."Tudo bem. Gracias,  Ady. Só preciso respirar e relaxar um pouco".

 Abacaxi, descanso e almoço no Acampamento Militar me deram forças pra  sacudir a poeira da bota, chegar ao destino do dia e ler a placa de Parque Nacional Canaima. Ufa!!! As pernas pesaram. Mas  o coração recém-recauchutado  pela cirurgia ainda é valente. Muito valente!

O terceiro  dia prometia. Mais ou menos 10km de caminhada/escalaminhada, com ganho de elevação superior a 1000m até nosso "hotel seis  estrelas".

Sobe, sobe e sobe... dois barrancos íngremes logo de cara. Na sequência, sempre em zig-zague de descanso ativo enganador,  um trepa-pedras interminável, cansativo ao extremo. Mas mando melhor do que no dia anterior. No místico  paredão de arenito,  rezo um Pai Nosso, agradeço a proteção divina  e peço força e permissão aos deuses para atingir o topo da montanha tida como uma das velhas do planeta Terra.  Cerca 1,8 bilhão de anos.

No terço final, perto do portal, apenas duas descidas curtas antes de galgar os  derradeiros degraus da glória eterna. Ali se separam os homens dos meninos. É hora de a onça  beber água. Mesmo com o Passo das Lágrimas seco devido à estiagem providencial da última semana.

Enfim, atingimos o teto do tepuy chamado  Monte Roraima (serras verdes), maior topo plaino do  mundo.  Bem-vindo ao planeta Marte. Tepuy tem formato de mesa. Emoção toma conta. Lágrimas de felicidade. Cumprimentos recíprocos.

 

Todos mandaram bem. Mas ainda andamos mais uns 3/4 km até o hotel Towasen. Pedras. Muitas pedras no caminho. Estou inteiro! Agora é só tomar banho ( vale "canequinha"  e depois lenço umedecido?)  gelado no lago e descansar após o jantar, com direito ao macarrão com carne moída do Renato, e emoldurado pela lua cheia atrás dos rochedos.




LA VENTANA, JACUZZIS E MAVERICK




Bora acordar, tomar café e conhecer aquele ambiente tão belo quanto estranho, inóspito, cheio de formações bizarras, fendas, cavernas, cachoeiras, mirantes e penhascos. Tartaruga voadora, catedral, carro,  hipopótamo, sapo, iguana, torres, guardião e tudo  mais que as intempéries do clima e a imaginação  forjarem ou permitirem. Começamos pelo penhasco, mas na famosa La Ventana a janela se fechou de repente. As nuvens viraram cortinas e as  melhores fotos foram pra casa do chapéu. 





Um platô não tão plaino






Mordomia pós-descida





Descendo o Passo.. só garoa




A janela não abriu. Esperei à toa



"Bonitão" na jacuzzi


Tá pesado, né Clarice? 



Elza no nosso "hotel" Towasen





Pontinhos: Flavio, Henrique e Clarice



O timaço nas Jacuzzis

Recepcionados pela lua cheia


Barracas vermelhas e tendas


Igreja abandonada


Rio Tek do primeiro banho




Pertinho do topo


Barraca Serge/Ady


Olha o barranco!




 Atravessando rio Kukenan



Em seguida, fomos conhecer as belas jacuzzis, onde tomamos banho e almoçamos, antes de o frio e a garoa fina nos castigarem. Mas, sob a lona/tenda improvisada,  nos divertimos com Serge, Flávio e Renato dançando sem parar. E meu amigo jura de pés juntos que não tomou qualquer chá de cogumelos gigantes. Nem de coca, como fizemos na Bolívia. 

Logo depois do "show", o tempo melhorou e fomos agraciados com a bênção da Pedra Maverick,  verdadeiro topo ( 2810m) do Roraima, em território venezuelano, detentor de 85%  da área. Homenagem ao carro da Ford, sucesso nos anos 1960. A Guiana detém 10% do monte e seu ponto mais alto chega a 2772m. Para o Brasil sobram apenas 5%,  onde está  o oitavo ponto mais elevado do País, com 2734m. Fotos feitas, inclusive com a bandeira do Corintians,  é hora de descer e voltar pro nosso aconchego sob marquises de pedra, tipo gruta rasa.



À noite, choveu e ventou muito, o que sacramentou de vez nossa desistência de andar 22km e fazer  Tríplice Fronteira, Catedral e El Fosso. Só  Caramelo, em excelente forma, toparia. Alternativa foi bem interessante. Tempo abriu e nos permitiu visitar o Abismo ( Prisão do Dragão), a Fenda, a Gruta dos Guacharos (aves barulhentas), a Caverna e o Vale dos Cristais. Valeu a pena perambular por muita água e  pedra sobre pedra por  aproximadamente 12km.


Nóis na Caverna



 


À noite, durante a conversa pós-jantar, uma mariposa marrom de olhos vermelhos apareceu. Colou na perna do  palmeirense Yuri e depois nas costas do Serge.

Calma, pessoal! Nada de enorme mariposa negra assassina, personagem do livro. Tampouco dinossauros carnívoros de 40m à espreita, atrás dos inúmeros maciços de pedra. Por isso, apenas interessantes lendas e histórias locais vividas e contadas pelo próprio Serge. Atenção,  respeito  e muitas risadas de um grupo sempre animado,  sensacional. Agora sim, de verdade,  com direito a reggaeton venezuelano,  Roberto Carlos e cia.

Lá em cima, além da mariposis yurianas campinis e dos guacharos,  vimos aranhas, escorpião, o sapinho preto endêmico e um quati  amarelado enorme, que mijou no saco de dormir e roubou o lanche dos alegres amigos cariocas. Só recusou o tomate. Pode isso, Arnaldo?




HORA DE DESCER E BRINDAR COM CERVEJA POLAR. GELADA!

 


A manhã de descida brotou sob frio,  garoa fina, neblina densa e dor nas minhas costas.  Felizmente, melhorou quando  o motor aqueceu. Porém, por meia hora o camarada Caramelo me acompanhou a cada passo, a cada subida ou descida de pedra mais arriscada. Parceirão!

Na boca do gol o tempo já clareou e o declive absurdo foi vencido com  muito cuidado. Passo das Lágrimas tinha pouquíssima água. Perdemos em charme e  beleza,  mas ganhamos  em coragem e segurança.

Num certo momento de descanso após uma raríssima subidona, já na floresta do entorno ( Gran Sabana e não Amazônica),  Serge liberou seus dois "cachorros". Estávamos felizes e motivados.

Caramelo olhou pra mim, mostrou os dentes e latiu grosso, abanando o rabo de tanta felicidade:" Mano, tô me sentindo livre  da guia. Machuca meu pescoço.  Sabe quando solta o cachorro da coleira e ele dispara feito doido? Que delícia, meu! Vamos acelerar e  chegar no acampamento base antes do estipulado --12h30-- pelo guia? Seu apelido vai ser Fila. Ok? Você é grandão! Ah, tira essa focinheira ridícula".

Latiu três vezes e ligou o turbo. Sem tanto peso nas mochilas, alcançamos o Renato e o Rick e só descansamos, todos juntos,  no Portal. Mais três latidos e  o vira-lata montanhês partiu até o paredão, onde encontramos a Ady com aquele mochilão nas costas. Pit stop serviu pra tomar água e agradecer aos deuses pela permissão e proteção à empreitada.

Só voltamos a esbarrar na forte Ady no finalzinho da trilha. Cumprimos a promessa e chegamos, sim,  às 12h15min. Inteiros.

Valentim, um carregador de 44 anos,  nos recebeu com melão e suco vermelho de...sei lá o quê. Descansamos. Almoçamos o  delicioso arroz fresco  da Ady, com feijoada e ovos fritos.  Pqp!   Adoro. Salivei. Comi demais...

Às 15h, partimos para superar mais  10km até o Rio Tek. Agora nossa referência era o lépido Valentim com aquele cesto indígena (guaiary?) cargueiro lotado até o teto. Orientado por Serge, ele nos esperou  para atravessar o rio Kukenan. Sem molhar os pés.  Não sem antes passarmos entre resquícios de um grande incêndio apagados pelos indígenas ainda na  segunda noite de expedição.  Triste e recorrente. Depois, fomos juntos até a travessia, também a seco, do  rio Tek e chegamos ao acampamento, destino do dia.

Cerveja gelada -- só não rolou aquela caipirinha porque faltou a 51 --, banho frio, puri-puri;  mais cerveja, coca-cola, jantar e mais emoção. De surpresa, o guia nos entregou cartinhas motivadoras de esposas, filhos, netos, irmãos, pais e amigos do peito. 

A do meu  pequeno Davi, completando 10 anos hoje, dia 8, me balançou. Vô babão virou chorão ao ler a mensagem inocente e ver o  desenho do Monte Roraima com o  Raddão subindo. Emocionante! Amo esse moleque! 




Carinho do neto Davi. Tem preço?


 




 ENFIM, A CAMINHO DA LINHA DE CHEGADA




Os últimos   quase 20 mil passos  de caminhada da  aventura histórica nos reservavam mais 14km de sobe-e-desce, agora deixando  os mistérios do Monte  Roraima pra trás. A cada olhar, já sobra  um doce rastro de saudade. Afinal, foram  quase 100km e ganho de elevação de  2800m em sete dias tão desafiadores quanto gratificantes.

Até a comunidade indígena de Paraitepuy foram três horas, com direito a um morrinho estafante no final. Valentim chegou bem antes. Como estávamos felizes pelo feito e  secos por umas cervejas, tudo ficou menos difícil. Fomos recebidos com abraços e brejas geladas e festejamos ao lado de pessoas inesquecíveis. Meros desconhecidos que chegaram no topo como colegas legais e voltaram como amigos leais. 


Logo após as cervejas, passamos por rígida (?) revista no posto policial da comunidade antes da liberação. Afinal, há punições severas para clientes e agências caso algum pequeno cristal esteja na mochila.


Hora de subir na Toyota 4x4, ganhar estrada ( John, o motorista, nos mostrou a região onde teriam sido gravadas cenas do filme Jurassic Park), almoçar na Comunidade São Francisco ( onde recebemos belas medalhas da Clube Native) e trocar de carro. Despedidas  na fronteira da pequena Santa Elena de Uairén com Pacaraima ( na divisa.  ambas com muitas famílias em estado de pobreza), embarque nas Spin, parada no folclórico  restaurante Quarto de Bode -- pqp! todos no celular --, para superar a estrada esburacada  e desembarcar  em Boa Vista - hostel Clube Native -- por volta das 20h.

Caracas! Portão fechado.  De novo. Assovio alto. Caramelo entende. Ligeiro, pula o portão como um...gato. Resolvido. Bora arrumar as malas de roupas sujas,  fedidas, tomar banho normal, de chuveiro,  e ir com o  prestativo Matheus  para o aeroporto --  bem simplinho, pra não dizer meio chinfrim -- e embarcar depois da meia noite. Valeu a pena!



     GRATIDÃO ETERNA 




Obrigado ao amigo-irmão Flávio, parceiro/guerreiro de todas as horas e todos os  cumes e travessias. Aos  agora casais amigos Yuri/Elza e Henrique/Clarice pelo companheirismo e alto astral incomparável  nesta árdua jornada. Sim, com muito prazer, vocês quatro também fazem parte da nossa história.



Gracias ao  excepcional guia Serge, sua esposa Ady e toda equipe de suporte ( Valentim, Renato, Ricky, Eli e Abner).  Uma  dedicação incrível.  Indígenas pemón/tauperang foram  perfeitos. Palmas também ao pessoal da agência Clube Native, de Boa Vista, pela atenção e logística quase impecável.

 

Obrigado especial a quem confiou na determinação, na resiliência e na superação de um  caipira italiano idoso( exceção ao Flávio, todos os outros 11 componentes da expedição têm idade pra ser meus filhos), teimoso,  que no dia 2 de agosto de 2023 passou por  delicada cirurgia cardíaca pra colocação de uma ponte mamária. Gratidão eterna ao dr. Raphael Barreto e equipe da Prevent Senior. 

Dr. Raphael Barreto,  nota 10 e gratidão eterna

 


Agradeço também a quem subestimou e duvidou de um trator "velho", motor 6.8, pai de quatro filhos e avô de oito netos,  que bateu no peito  antes e depois da operação e disse alto e bom som: "Eu vou subir o Monte Roraima". Papai do Céu me acompanhou. E eu consegui. Graças a Deus! E a todos vocês.

Obrigado, senhor!



 

⁷
TOME UM VINHO POR MIM



A montanha


Aqui eu me sinto

Nos braços da paz 


 Se eu não voltar um dia

Por favor, simplesmente sorria!


Nada de lágrimas!
Fui porque Ele (ela) quis

 
Tome um vinho por mim 
Fui embora feliz... 




Ah, alguém  vai  ter de levar minhas cinzas e jogar num morro qualquer, por favor.  Altitude mínima de 2700m...rsrs..Agora só faltam dois: Neblina e 31 de Março pro top 10.





Barraca verde:"Relaxa, Yuri, ninguém  tá vendo"







Yuri e Elza, sob o testemunho do por do sol




Fila caipira pede proteção para subir


Na descida, só nos resta agradecer



Força, Roberta! Falta pouco

Sócrates, in memorian


Mais uma vitória ao lado do amigo



Nuvens fechando a  Janela, com Roberta Sorriso lá longe






Amigos no cume, a 2810m. Nada de conquista (sem aspas). A montanha simplesmente nos recebeu com um forte e respeitoso abraço


Casal campineiro no Abismo







Na fronteira


Raddão chegando ao topo. De braços abertos para o doce abraço da montanha. Sim, meu coração foi valente.






Fila caipira alvinegro





Caramelo montanhês




 





 







sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

TRILHA DO OURO, DO SUOR E DA SUPERAÇÃO


Antes, índios,  escravos, bandeirantes,  colonos, tropeiros e contrabandistas. No passado, muito minério, particularmente o ouro das Minas Gerais. Depois, o café do Vale do Paraíba, mais na região da histórica Bananal, então dominada por barões milionários. Tudo sobre o lombo de mais de três mil mulas por dia.

Agora, nas mesmas pedras pé-de-moleque assentadas por escravos nos séculos  XVII e XVIII, a procissão é de turistas,  trekkers,  trilheiros e outros  aventureiros do mundo todo.

Na realidade, a Trilha do Ouro ( Caminho de Mambucaba, pra diferenciar da vertente com origem em Campos Novos, Cunha) sempre foi uma rota alternativa ao Caminho do Ouro, hoje conhecida como Estrada Real, de Ouro Preto a Paraty. 

No tempo do Império, para fugir dos barreiras alfandegárias e dos altos impostos da Coroa Portuguesa, o jeito foi aproveitar as  antigas trilhas indígenas. Para tornar  a tarefa de mulas, tropeiros e escravos menos penosa, construiu-se o belo e  histórico calçamento.  Tanto hoje quanto ontem, liso como sabão.

Se  chover, a trilha de mais de 50km passa de moderada a difícil num piscar de olhos. Além do piso "quiabal", a lama atolante também complica   a vida dos papa-léguas de plantão.

Graças  a Deus, há 10 dias, não foi o que aconteceu. Nada de chuva. Sim,  eu e o  amigo Flávio lo Giudice escorregamos. Sim, metemos a bunda no chão e  na pedra. Mas fomos poupados e agraciados pela mãe natureza. Afinal,  ela nos mostrou sua exuberante beleza e fez o sol iluminar a Mata Atlântica de cabo a rabo...da portaria do Parque Nacional da Serra da Bocaina/São José do Barreiro  (SP) até  a ponte de Arame, no sertão de Mambucaba/Angra dos Reis (RJ).

Aparentemente,  e considerando-se que me submeti a cirurgia cardíaca há quatro meses,  passamos no teste preparatório para a expedição ao  cume do Monte Roraima, oitava montanha mais alta do Brasil. De 22 a 28 de fevereiro de 2024, serão sete dias de imersão pura, na companhia de guias e índios venezuelanos. 

Isso se não der ruim em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, que insiste em anexar   Essequibo, região  rica em  petróleo e minérios, 70%  do território da Guiana.  Karacas!!! Mais uma aberração do ditador Nicolas  Maduro!  Pensa que babacas e boçais autoritários só comandam o Brasil? Até amiguinhos no topo do  poder o desequilibrado tem por aqui. Um absurdo! Se merecem!

Conduzidos pelo bom profissional e sempre atento guia Roberto Marcolino, foram 68.569 passos em dois dias de muito suor. Queimei 4.327 calorias. Literalmente, "moiei" o pano. E torci na beira do Mambucaba.  No total, desnível negativo (declive) superou a casa dos 2600m. Desnível positivo chegou a 1450m, calculo.  É bom ressaltar que, no caso,  altimetria,  tipo e estado do terreno são mais importantes do que a quilometragem rodada.

Subimos de carro  os 26km de Barreiro à portaria. A partir daí, pernas pra que te quero, das 8h até 15h. Portanto, sete horas pra cumprir cerca de 24/25km até a casa/pousada da dona Palmirinha. Mais subida do que descida. No Alto da Jararaca, altitude supera 1500m. Em Angra, apenas 50m, quase ao nível do mar.

E  no primeiro dia passamos por três lindas cachoeiras fora da trilha. Desvios também têm sobe e desce para se chegar à  belíssima Santo Isidro, à  Cachoeira das Posses e à do Bonito, onde escorreguei e judiei ainda mais do ombro esquerdo, sério  candidato à malfadada capsulite adesiva. Ossos da idade!!!



Cachoeira Santo Isidro

Cachoeira do Veado



Cachoeira das Posses
Flávio na ponte pênsil

Terra arrasada

Cachoeira do Bonito
Cachoeira das Posses



Raddão e Roberto, o guia

Um caipira na ponte pênsil

A brava Cachoeira da Camisa

Olha a tragédia

Raddi, Flavio, dona Palmira e Roberto








SJBarreiro ao fundo

Natureza exuberante

Na entrada do parque


Dona Palmira pilota com maestria  antigo fogão a lenha


Dona Palmira tem um sorriso matreiro,  cativante, que me encantou desde 2018, quando fiz o percurso em três dias, com um grupo da MW Trekking comandado pelo excepcional guia/ mestre botânico Herbert Serafim, que virou meu amigo. O filho da dona Palmira, Naldo, é mais discreto,  introspectivo. Nem por isso deixou de nos brindar com aquela pinguinha amarela.  Huumm! 

Lá não tem energia. Só lampião e a nossa lanterninha de cabeça. Sem geladeira, cerveja não desce nem a pau. Nem precisou.  Cama simples mas limpa e  confortável, chuveiro quente por conta da serpentina via fogão a lenha e comida caipira, com direito  a carne suína conservada na lata, à moda antiga. Salivei! Lembrei da vó Lica e da tia Guinha,  da saudosa fazenda Boa Esperança.

Até mesmo pão caseiro, bolo,  banana e ovo cozido a família bocainense nos ofereceu pra concluir a pernada no dia seguinte. Não sem antes  mais uma pérola da dona Palmira:"Ceis  ficam aí de  conversa. Óia lá o véião indo embora. Já tá subindo a trilha". Pois é...o veterano (68 anos) aqui abriu a passada, mas em seguida  foi alcançado pelo cinquentão ( Flávio tem 54) e pelo "juvenil" (guia tem 43 anos). Adorei o véião...rsrs


 VEADO,  PÉ-DE-MOLEQUE,  TORNADO E CAMISA


 Saímos às 6h.  De cara começamos a descer pelo calçamento secular, obra dos escravos pra facilitar o   duro percurso do planalto para o litoral e vice-versa. A partir daí, uso do stick ( ou cajado) é imprescindível.

Cerca de 10km nos levaram à estonteante Cachoeira do Veado, atingida ao superarmos a pinguela  sobre o rio sustentada por cabo de aço. São duas quedas de cerca de 100m. Dizem que há, ainda, uma terceira queda,  lá em cima, mas não dá pra ver.


Calçamento histórico com pedras pé-de-moleque


Ficamos pequenos diante da raiz exposta

Flávio na pinguela com cabo de aço; acesso à Cachoeira do Veado

Nós no Alto da Jararaca


Uma cobrinha! A grande escapou da foto..rsrs
⁸
Flávio na Cachoeiras das Posses





Após escorregar, ombro lesionado precisou de água gelada 






Matriz de SJBarreiro

Mais pé-de-moleque. Um quiabo



Fotos feitas,  estômago forrado, voltamos cerca de  720m e atravessamos a ponte pênsil ali perto da pousada do Zé do Zico. A partir daí, uma rotina tão bela quanto estafante. Uma descidona e uma subidinha...outra descidona e  mais uma subidinha, sempre na companhia do rio Mambucaba, à nossa direita, e antenados pra pisar certo, entre as pedras, pra não cair.

Vez por outra, ou estrategicamente (rsrs),  uma parada pra amarrar a bota,  tomar água e respirar. Ali não falta água. Não precisa levar mais de um litro, não. Porém, sobram alegria,  disposição, bolhas,  suor e dor. Mas tudo isso não assusta. Faz parte do nosso uniforme. Né, Flavião?

Então, boralá! Num ritmo bem adequado imposto pelo Roberto, não demorou pra chegarmos ao local da Mata Atlântica castigado pelo tornado do dia 18 (?) de outubro.  Temporal derrubou muitas árvores e provocou a interdição da trilha por mais de 10 dias. Tanto que nossa travessia, inicialmente marcada para os dias 25 e 26, foi adiada.

Por cerca de 800m o ambiente era de terra arrasada.  Assustador! Triste! Incrível como a natureza não pode mesmo ser controlada. Quando passamos, agora com sol  quente e céu azul,  eram  troncos de árvores enormes caídos pra todo lado.

Superado o susto, voltamos ao convívio do verde, da sombra e das pedras escorregadias. E, no quinto final da travessia, mais uma beleza: a Cachoeira da Camisa. Trilha curta, mas íngreme, nos levou a uma queda d'água ampla e forte. Afinal, o Mambucaba já não era aquele riacho lá de cima. Valeu a pena superar o cansaço pra ver aquela maravilha. De novo a mãe natureza!

De volta à trilha e à rotina do relevo, não demoramos pra superar os bananais  -- sim, comemos banana do cacho no chão -- e transpor a ponte pênsil do rio Santo Antonio, afluente do agora grande Mambucaba, que, em tupi-guarani, especialmente para índios tamoios e tupinambás, significa abertura/passagem, rumo ao planalto paulista. Mas há controvérsias. Alguns dizem que mambuca era uma abelha-cachorro abundante no local e outros defendem origem numa planta.

Depois de  10 horas e muito sacrifício -- eu sentia dor nos quadris, mas nem me lembrava que passara por cirurgia,  chegamos à  famosa ponte de Arame às 16h.

Banho de "canequinha" no Mambuca (  após mais de 26km, intimidade é uma merda!), roupa encharcada trocada por bermuda e camiseta limpas e secas,  e botas  imundas dando lugar  àquelas havaianas deliciosas, subimos na Spin do seu Aluisio e partimos pra Barreiro.


Na estrada de terra que leva à Rio Santos ainda matamos a saudade da icônica Pedra do Frade, onde subimos há   quatro anos.  Um bate-e-volta em 13 horas. Saindo da rodovia, partimos morro acima. Parada estratégica em Lidice pra degustar  um espeto de frango com uma Heineken dos deuses. PQP!  Delicia!  Perfeita!

Entre Rio Claro e Bananal pegamos um temporal. Muita água e vento localizados derrubaram bambus na pista, mas e o Aluisio mostrou cuidado e categoria ao volante.

Chegamos no Barreiro às 20h30min13seg. Com tempo suficiente pra tomar banho e mais duas Heineken com pizza.

Assim  terminava nossa aventura. Sem dúvida, treino duro dentro do projeto Monte Roraima/2024. Para mim, particularmente, um exercício de superação.

Obrigado, Flávio! Obrigado, Roberto! Obrigado, dona Palmira! Obrigado, Senhor!


  P.S: só pra lembrar, o PNSB foi constituído em 1971, tem 104 mil hectares de área e contempla diretamente  quatro municípios paulistas ( São José do Barreiro, Areias, Cunha e Ubatuba) e dois cariocas ( Angra dos Reis e Paraty).  A pacata e aconchegante São José do Barreiro é considerada " paraíso do trekking no Brasil".





segunda-feira, 27 de novembro de 2023

CIRURGIA CARDÍACA, TREINO E FÉ NO PÉ



 APÓS LONGO E TENEBROSO INVERNO, EIS QUE O CAIPIRA BLOGUEIRO ESTÁ DE VOLTA.

MOTIVO PRINCIPAL  DA AUSÊNCIA? SURPREENDENTEMENTE,  PRA QUEM SEMPRE TEVE HISTÓRICO DE ATLETA, UMA CIRURGIA CARDÍACA PRA COLOCAÇÃO DE PONTE MAMÁRIA, DIA 2 DE AGOSTO.

POIS É...QUASE CAÍ DE COSTAS QUANDO A SEQUÊNCIA DE EXAMES DE ROTINA FOI ME CONDUZINDO PRA  A FRIEZA DE UMA MESA ATERRORIZANTE.

TESTE ERGOMÉTRICO, ECOCARDIOGRAMA, HOLTER, ANGIOTOMOGRAFIA E, POR FIM, O CATETERISMO, EXAME OURO PARA  A EQUIPE MÉDICA SE DEFINIR PELA IMPLANTAÇÃO DE STENT OU A CIRURGIA CONVENCIONAL, UM CORTE DE 25/30CM NO TÓRAX.

LAUDO APONTOU 70% DE CALCIFICAÇÃO NO TRONCO DA  IMPORTANTÍSSIMA ARTÉRIA CORONÁRIA ESQUERDA TRIFURCADO. INICIALMENTE, SERIA MESMO A CIRURGIA DE PEITO ABERTO, MAS DEPOIS ME ENCAIXEI NO PERFIL DA MINIMAMENTE INVASIVA, INCISÃO DE APENAS 6CM À ESQUERDA DO TÓRAX.

SE ANTES A PREVISÃO  DE RETORNO ÀS ATIVIDADES NORMAIS ERA DE 90 DIAS, DEPOIS CAIU PRA 30.

GRAÇAS À INTERVENÇÃO BRILHANTE DO DR. RAPHAEL BARRETO, DA PREVENT SENIOR, EM 20 DIAS O RADDÃO JÁ ESTAVA  DIRIGINDO, BRINCANDO COM OS NETOS E ANDANDO 8KM NO IPIRANGUINHA.

TUDO TÃO SURPREENDENTE QUANTO A PRÓPRIA CONSTATAÇÃO DO PROBLEMA. AFINAL, PRA QUEM PRATICA ESPORTES E NÃO TEM COMORBIDADES NEM HISTÓRICO FAMILIAR, SOBROU A ALTERNATIVA DO  MALDIDO ESTRESSE EMOCIONAL COMO CAUSA PRINCIPAL.

POIS É... "AGRADEÇO" A PSEUDO-AMIGOS E OUTROS BABACAS QUE CONSEGUIRAM ME IRRITAR, ME TIRAR DO SÉRIO. AFINAL, ALGUNS QUERIAM PORQUE QUERIAM QUE O CAIPIRA AQUI MONTASSE NA GARUPA DE UM ENCANTADOR DE ASNOS.   DE UM BOÇAL. UM DESRESPEITO INSISTENTE DE PESSOAS EGOCÊNTRICAS E COM VISÃO TACANHA. COMO SE EU FOSSE  MAIS UM IDIOTA JURAMENTADO, SEM OPINIÃO PRÓPRIA. O FANATISMO E O RADICALISMO,  DE DIREITA OU DE ESQUERDA, CEGAM ATÉ MESMO PESSOAS DO BEM.

A SEGUNDA  OPÇÃO  VINGOU, MAS ME ENOJA TANTO QUANTO A PRIMEIRA. NÃO PASSA DE OUTRO FALASTRÃO, UM ENGANA TROUXA A MENOSPREZAR A INTELIGÊNCIA OU A ABUSAR DA IGNORÂNCIA DO CIDADÃO COMUM.  ESPECIALMENTE DO MAIS POBRE. OU  "O CARA" SERIA UM ENCANTADOR DE MINHOCAS?  OU DE JEGUES? 

COM OU SEM ENCANTADORES, SEM SENTIR FALTA  DE QUEM REJEITA OU DESPREZA A POSIÇÃO DO VIZINHO, O QUE IMPORTA É QUE ESTOU VIVO E VENDENDO SAÚDE.

DEPOIS DE 100 DIAS DE TREINOS E  TESTES CLÍNICOS E FÍSICOS, COM UMA PITADA DE FÉ, DETERMINAÇÃO E RESILIÊNCIA, SINTO-ME PRONTO PRA SUBIR O MÍSTICO MONTE RORAIMA, EM FEVEREIRO, SEMPRE AO LADO DO AMIGO FLÁVIO LO GIUDICE.

MAS TREINEI VIU! FORAM CERCA DE 80KM POR SEMANA NO PARQUE CENTRAL E NO IPI. MUITAS VEZES COM 5/6KG NA MOCHILINHA  GRUDADA NAS COSTAS.


   80KM NO "CAMINHO DA FÉ"


NA SERRA DE ANDRADAS, DESTAQUE PARA O PICO DO GAVIÃO. NA FOTO, A CAMINHO DE PINHAL


MAURO E RADDI NO INICIO DA CAMINHADA, AINDA NA PRATA


PENÚLTINO TREINO MAIS PUXADO FOI NO CAMINHO DA FÉ. MAIS PRECISAMENTE ALI NAS REDONDEZAS DAS MONTANHAS DE ÁGUAS DA PRATA, POÇOS DE CALDAS, ANDRADAS E PINHAL. CERCA DE  80KM  DE MUITA SUBIDA E DESCIDA EM TRÊS DIAS TÓRRIDOS. OS 30 KM DA PRATA ATÉ ANDRADAS FORAM PESADOS, MAS SOFRI MAIS NOS 28KM  DE ANDRADAS A ESPIRITO SANTO DO PINHAL.

SAI DA PRATA ÀS 7H E DE CARA FIZ AMIZADE COM O MAURO, CICLISTA DE CURITIBA.  BOA GENTE! PAPO VAI, PAPO VEM, O BIKER CURITIBANO PREFERIU CAMINHAR AO MEU LADO ATÉ MESMO QUANDO O TERRENO PLAINO OU EM DECLIVE FAVORECIA  O PEDAL.

COM MUITO ACLIVE, DESCANSAMOS NA PONTE DE PEDRA E SÓ NOS SEPARAMOS APÓS O PICO DO GAVIÃO, QUANDO NOSSA ÁGUA JÁ ESTAVA NO TALO E A LÍNGUA NOS PÉS.  MAURO COLOCOU A BIKE NA ECOSPORT DE UM AMIGO E SE MANDOU DE CARONA. A PARTIR DALI O RELEVO AMENIZA PARA EM SEGUIDA VIRAR UMA LADEIRA ABAIXO SEM FIM, ATÉ ANDRADAS.

FOI  AÍ QUE ENCONTREI O RONI, CAMINHONEIRO DE SÃO JOÃO DA BOA VISTA,  SEDENTARIO CONFESSO E DEBUTANTE NO CAMINHO DA FÉ. FOMOS MAIS DEVAGAR E AINDA PARAMOS PRA PEGAR JABUTICABA E  NA ENTRADA DA CIDADE, NO BAR E CAFÉ OÁSIS, ONDE FOMOS MUITO BEM TRATADOS PELA PROPRIETÁRIA, A TÂNIA.

LÁ, VOLTAMOS A NOS JUNTAR AO ADEILTON, CICLISTA QUE POUCO ANTES  ENCONTRARA MEU  INSEPARÁVEL BONÉ TIPO LEGIONÁRIOS. PERDI O DANADO QUANDO PAREI PRA TOMAR ÁGUA.  O ADEILTON ACHOU E DEVOLVEU. COISAS DO CAMINHO DA FÉ!

CONVERSA FLUIU ACOMPANHADA DE COXINHA DE COSTELA,  HEINEKEN E ÁGUA DE COCO. POR ISSO SÓ CHEGAMOS NO PALACE HOTEL ÀS 16H. MAS VALEU A PENA. JANTEI COM O MAURO E NO DIA SEGUINTE TOMEI CAFÉ DA MANHÃ COM RONI E ADEILTON. AGRADEÇO AOS TRÊS PELA COMPANHIA E PELAS NOVAS AMIZADES.


CALOR INFERNAL ATÉ PINHAL




FORÇA E FÉ NO PÉ ATÉ PINHAL, A MAIS DE 40°


NO DIA ANTERIOR O CALORÃO FOI AMENIZADO POR NUVENS E PELO  SOMBREADO  AMIGO DE MUITAS ÁRVORES. PORÉM, ATÉ PINHAL A COISA FICOU PRETA. MINHA NOSSA!  QUE ROUBADA!

SAÍ ÀS 7H DA MANHÃ PRA CUMPRIR 26KM DE ESTRADA E MAIS 2KM  DENTRO DA CIDADE, ATÉ CHEGAR À RODOVIÁRIA. MEU DEUS!  NÃO CHEGAVA NUNCA.

ÁGUA ERA SUFICIENTE, MAS COM O SOLÃO NAS COSTAS O LÍQUIDO PRECIOSO ESQUENTOU TANTO  QUE NÃO DAVA PRA TOMAR. SÓ MOLHAR A CABEÇA E O PESCOÇO QUANDO PARAVA PRA  DESCANSAR NAS RARAS SOMBRAS E DEGUSTAR MAÇÃ, CASTANHAS, BANANINHA, MEL E BARRINHA DE CEREAIS. AH, A GELÉIA DE MOCOTÓ  DERRETEU! LÓGICO! MAIS 40° NO ASFALTO.

SEMPRE COM O PICO DO GAVIÃO À DIREITA E FICANDO PRA TRÁS,  EM PLENO FERIADO DA REPÚBLICA, SÓ CONSEGUI ÁGUA GELADA (2L) NUMA EMPRESA, QUANDO FALTAVAM 6KM. GRAÇAS A DEUS!


CHEGANDO EM ANDRADAS. JABUTICABA!!! IRRESISTIVEL!


ANTES DE CHEGAR À RODOVIÁRIA, EXATAMENTE ÀS 13H, E EMBARCAR PRA SÃO PAULO, PAREI NUM QUIOSQUE E TOMEI  UM LITRO DE SUCO DE LARANJA. DELÍCIA! PERFEITO!

ÀS 10H DA NOITE EU JÁ ESTAVA EM CASA. QUEBRADO,  MAS FELIZ POR TER CUMPRIDO A CONTENTO A PRIMEIRA PARTE DE UM TREINO PUXADO. AFINAL, O PROJETO RORAIMA VAI VIRAR REALIDADE EM BREVE.

ROUPA SUJA NO TANQUE, MOCHILA NO CANTO, BANHO TOMADO, BORA FAZER A PATAGONIA DESLIZAR GOELA ABAIXO. AFINAL, NINGUÉM É DE FERRO. 

TESTE  PRATA. CORAÇÃO MAIS FORTE DO QUE NUNCA! SABE POR QUE? ANTES DE TUDO ISSO EU FUI EM ITAQUERA VER CORINTIANS 1 X 1 SANTOS, QUANDO O DARONCO INVENTOU  UM PÊNALTI NO FINAL DO JOGO. MEU TIME, SIM, UM FIASCO, É TESTE PRA CARDÍACO!

TIMÃO, VERDADEIRO TESTE PRA CARDÍACO



 OBRIGADO SENHOR!