Donizeti Raddi, 71 anos, corintiano, jornalista e professor de Educação Física aposentado. Hoje, trilheiro, montanhista amador, aventureiro e blogueiro ocasional.

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sábado, 15 de agosto de 2020

MARINSINHO (PICO MAEDA)



















AQUI VAI UM RELATO CONDENSADO DA ASCENSÃO AOS 2432M DO PICO DO  MARINSINHO, PIT-STOP DA BELA  E DESAFIADORA TRAVESSIA MARINS X ITAGUARÉ, NA SERRA DA MANTIQUEIRA.

PASSEIO PRA DESESTRESSAR E FUGIR UM POUCO DO CORONAVIRUS MAIS PERIGOSO NA CIDADE GRANDE ACONTECEU, COM TODOS OS CUIDADOS SANITÁRIOS,  NO FINAL DE JULHO.

AFINAL, EU E A ANGELA TEMOS 65 ANOS E SOMOS DO GRUPO DE RISCO. CUMPRINDO PROTOCOLOS DE DISTANCIAMENTO SOCIAL, MASCARA, HIGIENIZAÇÃO CONSTANTE E USO DE ÁLCOOL GEL, FICAMOS HOSPEDADOS,  COM EXCLUSIVIDADE, NA POUSADA MAEDA, PEQUENO MUNICIPIO MINEIRO DE MARMELÓPOLIS, BERÇO DE UMA MARMELADA DELICIOSA.


FOMOS MUITO BEM ATENDIDOS PELA FAMILIA, COM DESTAQUE PRA CAROL MAEDA, TAMBÉM CONHECIDA COMO LOBA DA MANTIQUEIRA. MÃE DE DOIS FILHOS, A LOBA É UMA ESPECIE DE POSTO IPIRANGA DA POUSADA --  FAZ TUDO -- E AINDA ENCONTRA TEMPO PRA TREINAR NA MONTANHA E GANHAR MEDALHAS NA MODALIDADE CICLISTICA DE MOUNTAIN BIKE.

JÁ O SEU MAEDA É UMA FIGURA. UM ÍCONE DO MONTANHISMO NACIONAL. PERTO DOS 80 ANOS, HIDEKI MAEDA TEM CURRICULO INVEJAVEL -- INCLUINDO A CONQUISTA DO ACONCAGUA -- E É ROTULADO DE GUARDIÃO DA MONTANHA. É UM DOS PRECURSORES E DESBRAVADORES DA TRAVESSIA MARINS X ITAGUARÉ, DA SERRA FINA E, LÓGICO, ABRIU E CUIDA - COM A CAROL E O FILHO SAMUEL --  DA MANUTENÇÃO E SINALIZAÇÃO DA TRILHA ATÉ O MARINSINHO.

                A TRILHA


NOSSA PREVISÃO ERA FAZER A TRILHA SEM GUIA PORQUE NÃO HÁ TANTA DIFICULDADE DE NAVEGAÇÃO. SETAS AMARELAS DO SEU MAEDA E CORDAS AUXILIARES SÃO BEM-VINDAS.

PORÉM, RESOLVEMOS CONVIDAR A CAROL E ELA ACEITOU. IRIAMOS COM NOSSA BALA DE PRATA ATÉ O INICIO DA TRILHA, MAS DESISTIMOS QUANDO SOUBEMOS QUE UMA SEMANA ANTES ANDARAM FURTANDO PNEU ESTEPE NO ESTACIONAMENTO DO MIRANTE.

ENTÃO, POR R$ 20,  RESOLVEMOS IR DE CARRO COM O SEU MAEDA ATE O INICIO DA TRILHA. GANHAMOS CERCA DE 30 MINUTOS E NOS LIVRAMOS DE UM SUBIDÃO.FOI BOM.

TRILHA ESTÁ MUITO BEM CUIDADA. EM ZIG-ZAG, FACILITA BASTANTE. NOSSO








PRIMEIRO DESCANSO PRA HIDRATACÃO E ALIMENTAÇÃO FOI NO   MIRANTE SÃO PEDRO, A 2135M DE ALTITUDE, COM BELA VISÃO DO VALE VERDE E  DAS MONTANHAS, ESPECIALMENTE DO PRÓXIMO E MEIO ASSUSTADOR MORRO DE SANTO ANTONIO, QUE FICA NA FRENTE E ENCOBRE O MARINSINHO, MAS NÃO A PEDRA REDONDA, A CAMINHO DO ITAGUARÉ.

ESSE ATAQUE FINAL LEVA CERCA DE UMA HORA E É O PEDAÇO MAIS DIFICIL DA TRILHA. MUITAS PEDRAS, ACLIVE  SIGNIFICATIVO E PELO MENOS SEIS CORDAS PROVIDENCIAIS ATÉ CHEGAR AO PICO DO MARINSINHO. SIM, ELE É 10M MAIS ALTO QUE O MARINS.

DEPOIS DE 3HORAS E 20MIN, UM VISUAL DE ENCHER OS OLHOS... ACIMA DAS NUVENS...MARINS, ITAGUARÉ E UMA BELEZA SEM FIM. DESCANSO, FOTOS, ÁGUA, GATORADE, SALAMINHO, QUEIJO, PÃO E MUITA ATENÇÃO NO TEMPO, QUE, DE CÉU AZUL JÁ PASSAVA A AMEAÇAR COM FRIO, VENTO E UMA NUVEM NEGRA QUE APARECEU DO NADA.

CAROL FICOU COM RECEIO E SUGERIU QUE EU E ANGELA ACELERÁSSEMOS PARA QUE, SE A CHUVA NOS PEGASSE, FOSSE APÓS A DESCIDA BRABA DAS CORDAS.

FELIZMENTE, DEU TUDO CERTO. A CHUVA NÃO CHEGOU E AINDA ACHEI OS STICKS QUE HAVIAM CAIDO DA MOCHILA.  DESCIDA FOI TRANQUILA..DEMORAMOS UM POUCO PRA CONHECER A PEDRA MONTADA --  BOM LOCAL PRA FOTOS E  ACAMPAMENTO --  E LOGO EM SEGUIDA QUANDO TENTAMOS DESENTUPIR UM CANO QUE FACILITAVA PRA PEGAR ÁGUA. NÃO DEU CERTO E O SERVIÇO SOBROU PRO SEU MAEDA. E PRA CAROL.

COMO ERA SÓ DECLIVE, NÃO PRECISAMOS DE CARONA QUANDO CHEGAMOS NA ESTRADA. POUCO DEPOIS DAS 15H JÁ ESTÁVAMOS TOMANDO CERVEJA NA SIMPLICIDADE E NO ACONCHEGO DA POUSADA MAEDA. DEPOIS, AQUELA COMIDA DELICIOSA, PREPARADA PELA LOBA DA MANTIQUEIRA.

OBRIGADO A TODOS.

PRÓXIMO DESAFIO É A TRAVESSIA DO RANCHO CAIDO, NO PARQUE NACIONAL DE ITATIAIA. TREINAMOS ISOLADOS NOS MORROS  DE SÃO BENTO DO SAPUCAÍ. SOB O TESTEMUNHO DA PEDRA DO BAÚ E DE UM POR DO SOL FENOMENAL.












segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Vulcão Villarica, o meu Everest

Objetivo  principal: ascensão ao Vulcão Villarica -- a cereja do bolo da viagem de 8 dias

Última erupção: março de 2015

Local: Pucon, centro-sul do Chile, região de Araucania, a  780 km de Santiago

Data: 27/ 11/2019

Altitude: 2847m

Distância percorrida: subida e descida, cerca de 10km

Tempo de ascensão: pouco mais de 4 horas, com vento,  gelo e  muita neve

Tempo de descenso: duas horas de skibunda, como criança; uma louca aventura

Ganho de elevação: cerca de 1400m 

Nível de dificuldade: pesado  

Temperatura: sensação de -5º (sol entre nuvens) na cratera/cume

Sentimento: conquista de quem atingiu o cume do Everest sem necessidade de escalar as montanhas de 8000m do Himalaia

Exigências principais: desafio requer boa cabeça e  preparo físico exemplar pra não dar vexame

Visual:  beleza indescritível, fenomenal

Agência responsável: Antü, Rios e Montañas.

Guias para o quarteto brasileiro: Óscar e Pancho, nota 9.

Custos: cerca de R$ 500 por pessoa (mas vale a pena)

Outros eventos de destaque da viagem: 1)trilha dos Lagos no Parque Huerquehue ( 14 km de ida e volta, com 760m de ganho de elevação e seis horas de pernada, passando pelas lagunas Verde e El Toro); 2) trilha na reserva/santuário El Cañi ( 20 km de ida e volta em nove horas, com  difíceis 1400m de ganho de elevação, para curtir a beleza e o silêncio da floresta de araucárias em processo de regeneração,  passar pelas lagunas Las Totoras e Negra e atingir o alto do mirador Melidekiñ, de onde se contemplam quatro vulcões, entre eles o nosso Villarica. 

Aventureiros de Pucon: Milton, Mari, Angela e Raddi

Dedicação:  que fique como legado de orgulho aos meus netos Victor, Júlia, Davi, Matheus, Cecília e a doce caçulinha Beatrice. Foram tatuados na minha panturrilha e estão perpetuados no meu coração.

Gratidão eterna:  obrigado meu Deus

Fotos aleatórias:  
































quinta-feira, 31 de outubro de 2019

TRAVESSIA PETRO X TERE: 3 DIAS EM 13 HORAS

O bom senso e a inteligência mandam fazer a  travessia da  belíssima Serra  dos Órgãos (RJ) em três dias,  com dois pernoites nos abrigos do Castelo do  Açu e da Pedra do Sino.  E o período ideal, com temperaturas amenas e chuvas raras, vai de maio a setembro.

Porém, há pessoas teimosas. Percorrer os  difíceis cerca de 30 km de Petrópolis a Teresópolis em três dias já não é fácil. Fazer em um dia, então,  soa como loucura quando o corajoso não é atleta de montanha.

Pois é... mas não é que o cabeçudo aqui acaba de realizar tal proeza em menos de 13 horas? Novamente ao  lado do guia/amigo Vitor Nunes, de Resende, a façanha aconteceu na última sexta-feira. 

Inicialmente, a travessia tradicional estava prevista para a época adequada -- chuva  rara e temperatura amena -- talvez   maio/junho de 2020, ao lado de esposa e amigos da montanha.

Só que, depois da aventura   maluca do bate-e-volta na Pedra do Frade, em agosto,  acho que fiquei meio empolgado e decidi fazer  agora em outubro mesmo. Com o Vitor na guiada. 

Combinamos fazer  P x T em dois dias -- 22 e 23/10 --, dormindo só no Açu, mas não deu certo por compromissos de outra  pessoa que pretendia ir junto  e pelo mau tempo.

Preparado física e psicologicamente, na quarta-feira de manhã o caipira aqui fez uma proposta  quase indecorosa pro Vitor: "E aí Vitão, que tal encarar a serra em apenas um dia -- light and fast --, sem preocupação com a beleza cênica daquele paraíso?"

Meu amigo não titubeou:" Boralá Raddi! Demorô! Em um dia?Quando?"

"Sexta-feira agora" -- respondi, sem pestanejar.

            CORRE-CORRE, INGRESSO E PASSAGENS

Na quarta-feira à tarde já estavam providenciados ingressos e passagens de ônibus. Foi um corre-corre danado. Ingresso se compra pelo site do Parnaso ( Parque Nacional da Serra dos Órgãos -- fundado em 1939 e com 20 mil hectares de área).  Sessentão não paga. Só apresenta  CPF e o voucher impresso (rsrs).

Quanto às passagens,  pela viação Águia Branca, comprei na Tersa de Santo André e embarquei no terminal Tietê, na Capital. Ônibus executivo de São Paulo a Petrópolis custou R$ 160; saiu  dia 24 às 23h e chegou  dia 25 às 5h45min. Jean foi um motorista exemplar. 

Na volta, de Teresópolis pra São Paulo, busão semi-leito custou R$ 168 e demorou oito horas. Dá muita volta e para em duas ou três cidades antes de Resende. Motorista Walmir  também deu conta do recado sem transtornos.

Intenção  inicial era começar a trilha às 6h, mas, pelo horário previsto de chegada do ônibus  já sabíamos que não daria. Encontrei o Vitor na rodoviária de Petrópolis, mas demoramos um pouco. Pagamos R$ 30 de Uber (Rogério, boa praça) até perto da portaria. 

Isso porque  antes não nos curvamos às primeiras pedidas abusivas de dois taxistas  e um  condutor de Uber: queriam cobrar R$ 90/100. Quase sugeri que fôssemos de ônibus, mas ia demorar muito. 


     QUEIJO, AJAX, ISABELOCA, CHAPADÃO E AÇU... 

Intenção   ficou na saudade! Vencida a burocracia normal para entrada no Parnaso, iniciamos a aventura exatamente às 7h45min, com previsão de conclusão em 12 horas, já às escuras. 

Como disse,  por encarar o desafio de caminhar leve e  rápido, praticamente não nos dedicamos à contemplação de tanta beleza. Desafio incluía  mais força, resistência, velocidade, equilíbrio, coragem, destreza, determinação e companheirismo. 

De cara, ainda no sombreado da mata e ao som dos riachos e do canto das aves, também não me esqueci de piar o inhambu, pedindo proteção ao saudoso pai, o seu Valério.

Normalmente o trekker mediano leva  de 6 a 7 horas até o abrigo do Açu . Como carregávamos apenas o necessário  na mochilinhas -- água, isotônico, lanches, castanhas, guloseimas, anorak, corta-vento, capa de chuva e troca de roupas pra não voltar fedidos --,  paramos pouco ( fotos na Pedra do Queijo e reposição de água no Ajax)  e cumprimos o trajeto de  8 km em 4h15min. 

Ganho de elevação nesta primeira perna chega a  pesados 1100m. Não é mole não! Dificuldade maior fica mesmo por conta da subida em caracol da Isabeloca,  antes de alcançar o Chapadão, o Cruzeiro e depois o abrigo. Muito sol e desnível acentuado.

Diz a lenda que o nome é homenagem à princesa Isabel, que nos tempos do Império costumava subir a montanha. Calma! A dondoca ia nos lombos de mula, sem ao menos sujar os meigos pezinhos, a charmosa sombrinha e o lindo vestido branco. 

Sonhando com um beijo da princesa, viajei  na maionese quando parei pra tomar água numa rara sombra e acabei esquecendo o stick (PQP! Essas mulheres!). Só percebi quando chegamos no  alto do Graças a Deus (auto-explicativo, né?). 

Até retornamos uns 300m, mas não adiantou nada.  Tive de fazer a travessia inteira sem o  sempre providencial e às vezes salvador e bastão de caminhada, porque lá é difícil encontrar madeira que dê um bom cajado. 
Castelo do Açu

Pico do Garrafão

Procura-se um Garrafão

Pedra do Sino: 2275m

Alegria: tudo vale a pena quando a alma não é pequena



Vitor e Raddi: companheirismo e gratidão

Visão  de Petrópolis

Graças a Deus




   ELEVADOR,  MERGULHO, CAVALINHO, COICE E SINO...


A segunda e teoricamente mais difícil perna da nossa  travessia tem cerca de 9km e  vai do Açu ao Abrigo 4,  próximo da Pedra do Sino -- ponto culminante da Serra do Órgãos com 2275m de altitude, contra 2150m do Castelo do Açu. É o trecho mais técnico da travessia.

Já com algumas nuvens escuras distantes, saímos do Açu ao meio-dia com previsão de vencer aquele mar de montanhas, lajedos e vales em cerca de cinco horas. Descanso rápido, e sebo nas canelas. Lá vamos nós!

De cara uma subidinha, seguida de um descidão por pedras  e nova subida, agora forte, pra chegar ao topo do Morro do Marco, de onde, na descida do outro lado, converge à direita  quem vai aos estonteantes Portais de Hércules. 

Na sequência, outro  o vale e  o Morro da Luva, passando pelo famoso elevador, após a Cachoeirinha. São cerca de 50 degraus  em vergalhões de aço colocados de forma irregular. 

Detalhe que a exatos dois metros do primeiro degrau eu senti fortes câimbras nas duas coxas. Meu Deus! Puro cansaço, já que a hidratação estava ok. 

Após uns 3 minutos, alguns alongamentos e o incentivo do Grande Guia,  bora subir a escadinha bem semelhante às da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí.

Também passamos  sem percalços pelo temido mergulho, superamos o   difícil Morro da Luva  e o Dinossauro, e chegamos ao dorso da Baleia, bem próximos ao  famoso Pico do Garrafão e à Pedra do Sino. 

Em seguida chegou a hora mais estressante para  alguns montanhistas,  o temido  e exposto Cavalinho.  Nada mais do que a simulação de montar num cavalo.  De pedra! Pra quem foi criado na fazenda Boa Esperança, nada a temer. Com a ajuda do Vitor, nem precisei de corda ou fita. Ali muita gente empaca. 

Bem próximo está o Coice ( do cavalo, lógico). Pedra de difícil entrada. Mas, com jeito e alguma força, deu pra  superar sem grandes dificuldades. 

Subimos no contorno da Pedra do Sino e chegamos ao Abrigo  4 no horário previsto. Comemos o que restava, descansamos um pouco, repusemos a água e, já sob intensa neblina partimos exatamente as 17h pra cumprir a terceira e última perna da aventura. 

      NEBLINA, MATA, RAIOS, CHUVA, TÁXI...

Previsão era fazer os cerca de 11km descendentes -- "descanso ativo"  kkk --   até a barragem em 2 horas e 30 minutos. De lá, do fim da travessia, pegaríamos um Uber ou táxi até a rodoviária de Teresópolis. Coisa de 12 a 15 min de carro, passando pela portaria pra dar baixa na entrada e cortar a pulseira vermelha.

Logo no início da descida, onde há sinal de celular, o Vitor falou com um condutor de Uber, que pediu R$ 90 pelo transfer. Achei um absurdo. Ele reduziu pra R$ 60. Ainda achei caro. O Vitor propôs R$ 45, mas ele não aceitou.  Ficamos de voltar a ligar...  (Que cagada!   Depois explico). 

Então começamos a descer a passos largos e muita conversa. Só descida. Existe um risco calculado, mas vai dar tudo certo! De repente, conforme previsão das agências meteorológicas, começou a escurecer,  esfriar e ameaçar chover. Isso por volta de 18h15min, quando já estávamos com as lanternas de cabeça. 

E não deu outra! Os raios passaram  a cair  mais próximos e a floresta se iluminava a cada  2/3 minutos. Vez por outra enxergávamos, bem longe,  as luzes de Teresópolis.

Mesmo sem o stick, aceleramos o quanto deu pra fugir dos raios, mas em seguida chegou a chuva forte. Um trinômio assustador: chuva forte, raios próximos e  mata escura. Parecia aqueles filmes de terror. PQP! Tenebroso! Sombrio! Assustador!

Pra ser sincero, fiquei com medo dos raios. E comecei a rezar pedindo proteção. Pelo menos pra que os relâmpagos perigosos cessassem. Chuva molha, mas não assusta tanto se não tiver vento. Raio não! Já passei por isso na Pedra da Mina. E me lasquei!

Papai do Céu ouviu minhas preces e os raios foram ficando mais esparsos, além de se distanciarem. A chuva  também diminuiu, mas  continuou por bom tempo. 

Vitor e eu nem conversávamos mais. Só se ouvia o pisar pesado na água. A trilha virou um córrego -- na Boa Esperança da minha infância era corguinho --, com armadilhas em forma de poças, raízes e pedras. E a tal da porteirinha anunciando o fim da travessia não chegava nunca! Meu Deus! Que sufoco! Uma noite sem fim!

Pior  é que o horário previsto  já estava comprometido. Por mais que andássemos, não rendia. E meu ônibus sairia às 22h. O Vitor já havia decidido que dormiria numa pousada próxima da portaria...

Depois de muito esforço e muita água, eis que  cumprimos o desafio e chegamos à tal barragem, concluindo (?) a travessia às 20h15min. Total de 12 horas e meia. Modéstia à parte, coisa pra gente grande. 

Concluímos? Nada disso! Pra  conseguir sinal e tentar de novo falar com o Lucas,  motorista do Uber que nos levaria  até a rodoviária,  ainda teríamos de andar cerca de l km, até um banquinho na beira da estrada da Barragem.

Cansados, extenuados e molhados, chegamos ao local e ligamos. Lucas  até atendeu,  mas disse que  já estava em Petrópolis e que já havia encerrado  o expediente do dia. E não tinha -- ou não quis? --  quem indicar pra nos salvar.

Ainda tentamos chamar carro  pelo aplicativo, mas não havia disponibilidade no entorno do parque. PQP! Ferrou! Tudo por minha culpa,  por não querer pagar os R$ 60 que o cara pediu no primeiro contato. 

Já eram 8h45min quando perdi a paciência. Afinal,  ainda faltavam 2km até a sede e minha viagem estava em risco. Sugeri que o Vitor continuasse  andando e tentando pelo celular,  enquanto eu iria correndo até a sede pra  pedir ajuda. 

Após 29 km ( 28 + 1) de montanhas, de um sobe e desce sem fim, de quase 2300m de ganho de elevação e 2200 de perda, ainda encontrei forças para correr com a mochila nas costas. Papai do céu de plantão. 

Pior é que na metade do trajeto minha lanterninha já não iluminava direito mais à frente; tive de andar  depressa pra enxergar sem cair. Cambaleante, mais de uma vez fui em direção às guias do caminho,  pra depois voltar para o  meio da estrada de bloquetes  e paralelepípedos e me aprumar. Afinal, era preciso chegar. 

E cheguei na portaria às 21h em ponto. Pedi e consegui ajuda importantíssima dos guardas-parque/seguranças Euclides e Geovane, a quem agradeço muito. 

Enquanto o Vitor não aparecia eles tentaram várias vezes,  por uns 20 minutos, até que o Euclides falou com um amigo taxista, o André. Às 21h32min o táxi chegou e mal deu tempo de me despedir do Vitor, que chegara há uns 10 min. 

André  demorou exatos 13 minutos para me levar até a rodoviária, onde consegui ir até o banheiro, tomar  um "banho de gato"  e  colocar roupas secas e limpas. Estava irreconhecível. Mas aliviado.

Embarquei às 22h  e cheguei no terminal Tietê após 8 horas de viagem. Mais uma vez quebrado, com sono, mas extremamente feliz pela conquista. Pronto pra voltar em maio, agora pra fazer  a travessia em três dias e curtir uma beleza rara. 

Mais uma vez, obrigado meu guia e obrigado meu Deus. 





















  

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Sobre GUIAS e guias

Há algum tempo, troquei mensagens bem interessantes com o Marcelo Delvaux,  conhecidíssimo e respeitado guia profissional de montanha. Intenção era montar  espécie de Os 10 Mandamentos do Guia de Montanha nota 10. 

Por isso mantive contato preliminar  também com vários guias, a maioria pelos quais já fui conduzido. Texto não rolou por falta de tempo de alguns para responder. Outros por esquecimento,  opção pessoal ou  até  certa má vontade. Sem problemas, entendo; continuo respeitando e grato a todos pela convivência sempre amiga, leal e profissional.

Isto posto, aqui transcrevo a resposta por escrito do Marcelo, a quem agradeço muito. Espero que o relato seja útil a guias e clientes, principalmente:

"Sobre guia, eu enfatizaria que deveria estar qualificado e possuir habilidades  requeridas para o exercício da profissão. Por exemplo, se é um guia de turismo, deveria possuir formação técnica ou superior em turismo. Se é um guia de trekking ou de montanha, deveria ter um título ou certificação correspondente.

Infelizmente, muitos guias do mercado, principalmente na área da alta montanha, não possuem a qualificação necessária para o exercício da profissão. Qualificação oferecida somente em outros países.

Inclusive, disponibilizam serviços onde essa qualificação é exigida, como no Aconcágua, por exemplo, burlando as regras desses  lugares. Isso, além de antiético, vai contra a tendência de profissionalização do mercado de aventura. 

Ter a qualificação para os serviços oferecidos é demonstrar  postura ética e de respeito para os clientes. Também são importantes as habilidades requeridas para as funções exercidas. 

Tem gente oferecendo serviços de guia de montanha que não sabe escalar, o que é incompatível com os requisitos exigidos para se conseguir certificação de guia de montanha, além de trazer insegurança para os clientes.

É fundamental que o guia esteja familiarizado com as técnicas necessárias e com o ambiente onde atua. Se oferece serviços em alta montanha, mas mora e passa a maior parte do tempo no Brasil, onde não há alta montanha, há algo de errado. 

Dando um exemplo na área de turismo convencional, se é um guia de turismo que leva clientes para a Disney, mas não fala inglês, também não está correto. 

Serviço de turismo, convencional ou de aventura, é algo especializado e um guia deveria oferecer aos clientes serviços compatíveis com suas habilidades. 

Marcelo Delvaux, o  GUIA



          

     POSTURA, ÉTICA, RESPEITO, EDUCAÇÃO...

Acho que outras características que o guia deve possuir estão bastante relacionadas com a qualificação e as habilidades requeridas: postura, ética, respeito ao cliente, paciência, educação e respeito com as populações locais, entre outras. 

Também acho que o guia deve ser alguém que detenha  amplos conhecimentos sobre a cultura, a história e as características das regiões onde trabalha, e não apenas oferecer  serviço de conduzir o cliente por roteiro específico. 

Ainda como complemento, lembro aqui algumas da competências técnicas específicas do guia de montanha: escalada em rocha ( mínimo sexto grau francês), escalada em gelo, trânsito em glaciar, trânsito em terreno alpino, resgate em gretas, autorresgate, resgate em terrenos verticais, primeiros socorros e medicina de montanha, guiada com corda curta e  guiada em terrenos verticais (rocha e gelo).

Os requisitos variam de lugar para lugar, bem com o currículo mínimo, que inclui  x montanhas acima de 6500m,  x acima de 5000m, x acima de 4000m, x graus de dificuldade D, x graus de dificuldade AD, x  graus de dificuldade PD, x invernais etc. O x depende da escola, do tipo de certificação etc. Portanto, não há um padrão para esses critérios.

Esclarecimento final: o  termo "guia de montanha" é único no mundo e inclui guiadas em montanhas como neve, gelo etc. Por isso não há diferenciação de um guia de montanha para o Brasil. 

Para o ambiente brasileiro se encaixa melhor guia de trekking ou guia de escalada para lugares que requerem  técnicas  verticais, como escalar o Pão de Açúcar, por exemplo.

Se formos usar a nomenclatura praticada no mundo, um guia de escalada que trabalha no Rio não poderia ser chamado de guia de montanha. Quando alguém diz "mountain guide" estão implícitas as competências mencionadas".




***MARCELO DELVAUX é guia profissional de montanha com título de guia  superior de montaña obtido na EPGAMT. É associado à AAGM e à AAGPM, além de credenciado no Parque Provincial Aconcágua. Pratica escalada  em rocha desde  a década de 1990 e alta montanha desde o início dos anos 2000, tendo realizado mais de 80 ascensões nos Andes e no Himalaia. É o terceiro brasileiro com mais montanhas acima de 6000m de altitude.