Donizeti Raddi, 71 anos, corintiano, jornalista e professor de Educação Física aposentado. Hoje, trilheiro, montanhista amador, aventureiro e blogueiro ocasional.

Quem sou eu

Minha foto
Santo André, São Paulo, Brazil

Seguidores

quarta-feira, 17 de julho de 2019

TRAVESSIA MARINS X ITAGUARÉ EM 12 HORAS

Aqui vai um breve relato da  desafiadora travessia Marins x Itaguaré. Nada de três dias, o mais correto, prudente e tradicional. De novo sob a batuta do Leo (Araucária Expedições) e em  companhia do genro/filho Danilo, o objetivo era fazer em um dia. Light/fast -- leve e rápido. 

Desta vez sem muita preocupação com contemplações demoradas. Nem os pit stops foram superiores a 15 minutos. Tudo pra ganhar tempo e treinar forte pra novos desafios. 

Nossa mochila de 20/30 litros não carregava mais que seis quilos, já considerando os 2,5/3kg de água e Gatorade, dois lanches de salaminho e queijo, chocolate, mel, castanha, damasco e carb up, além de boné, lanterna de cabeça, stick e apenas  peças essenciais de frio. Corta-vento, fleece,  camiseta segunda pele e calça de trilha pra proteger dos bambuzinhos cortantes  -- fui vítima quando teimei em ficar de bermuda por sentir calor, me enrosquei e o sangue escorreu pela canela. 

Sem dúvida, ir leve foi uma boa escolha pra quem quer jogar pesado, revisitando Agulhas Negras ou conhecendo a Pedra do Frade. Ganho de elevação aproximado superior a 1600m, pouco mais do que o somatório de perdas. 

Pra superar 18km --  distância/referência secundária perto da altimetria e demais dificuldades físicas e técnicas -- foram exatas 12 horas de pauleira, com um trepa-pedra constante, assustadoramente constante e desgastante. Exceção às duas horas finais, quando a descida pela  trilha de pouca pedra e muita terra mata adentro não  terminava nunca.  

                                 TREPA-PEDRA SEM FIM 

Viajamos no dia 10 à tarde e dormimos em Passa Quatro, no Hostel Serra Fina, do jovem  Felipe, amigo do Leo. Tudo simples e a contento, com preço justo. Sono de cinco horas ( das 23h até as 4h) foi o suficiente até pra mim, que gosto de dormir 8 horas. 

Café tomado, estômago forrado, dente escovado, bota calçada, lá vamos nós,  às 4h30min. Não sem antes o Danilo observar que o teto do seu carro estava com gelo. Também, pudera, cerca de zero grau na madrugada. 

Demoramos uma hora pra vencer a estrada de terra e chegar ao "estacionamento" no final/início da trilha que leva ou traz do Pico do Itaguaré.  

Lá já nos esperava o possante Uno do seu Clóvis, conduzido pelo Maurício. Um piloto de Marmelópolis para o mundo.  E acelera!  Maurício Senna do Brasil, diria o intragável Galvão Bueno. O cara é fera viu! Ou louco!  PQP!  E nós corajosos PC!.

Chegamos ao acampamento base do Marins ( município de Cruzeiro) pouco antes das 5h30min, pagamos o transfer  atômico e em menos de 10 minutos  já estávamos iniciando a trilha no patamar de 1530m. Num pique danado, diga-se. (O que não me impediu de, na primeira grota, ouvir o pio protetor do meu inseparável nhambu amigo). Até pensei em perguntar pro Leo se queria matar o veinho ou fundir  o motor  do trator 6.4.

Os dois abriram o turbo; eu abri o bico... logo de cara. Tanto que chegamos ao primeiro pit stop -- ou stop and go? --, o Morro do Careca,  1800m, em cerca de 45min. De cara, uma bela visão do amanhecer, com sol, nevoeiro e  muito verde. 

No segundo mirante,  um colchão de nuvens brancas, aquela imensidão iluminada... um mar de montanhas de Minas Gerais. Aquela... que quem te  conhece não esquece jamais. Mais fotos e menos roupa. Temperatura inicial de 3° já beirava os 8°.  Presumo. 

Em ritmo um pouco mais conservador, superamos vales,  vários sobe-e-desce, inúmeros trepa-pedras difíceis, um paredão vertical de uns seis metros e chegamos ao Pico dos Marins, 2.430m, depois de 3 horas e 15 minutos de caminhada tão extenuante quanto gratificante. 

Ah, também superamos a falta de educação de pseudomontanhistas que fazem necessidades nas áreas de acampamento e ainda espalham sujeira pela trilha. Um absurdo! Questão de berço.

Subida da base ao pico dos Marins não é mole  não! Exige escalaminhadas e alguma técnica. Do acampamento base ao cume, aclive acentuado e muita laje de pedra, testando força, resistência, equilíbrio, flexibilidade, respiração, determinação,  joelhos, quadril e lombar. Lá no alto, depois do lanche merecido, aquelas fotos tradicionais e bora assinar o livro de cume.  Tudo nos conformes! 

Visual exuberante de grande parte das cidades do Vale do Paraíba. E com direito a Itaguaré de frente e Pedra da Mina mais ao fundo. Deu saudade!


Itaguaré com Pedra da Mina ao fundo


Sonhando com trepa-pedra até hoje







               MARINZINHO, PEDRA REDONDA E ITAGUARÉ

As 10h em ponto iniciamos a descida do Marins. Só fomos chegar à base do Itaguaré às 16h15min. Depois de superarmos os 2.350m do  Marinzinho ( bom ponto de reposição de água quase na base e o melhor lugar pra quem precisa abortar a travessia e descer para a pousada Maeda); e  em seguida   a Pedra Redonda, que  está em 2.300m e mais parece um enorme tóten com linhas retas. Sim, retas.

Ah, também deixamos pra trás inúmeros aclives e declives, verdadeiros mergulhos sem água, que em alguns momentos exigiram cordas, determinação e extremo cuidado para evitar acidentes. Especialmente quando se fica exposto nas alturas. Resumindo: a cada descida vertical cavalar, uma ascensão agressiva,  chocante. 

Cerca de 80m finais pra se chegar ao verdadeiro cume do Itaguaré (Pedra Sagrada, com 2315m) não é coisa para juvenil não! Pedras grandes e sem apoios confiáveis,  mais escalaminhadas, angulação significativa, falso cume, corda, precipício, elevador manual do guia, pulo do gato na volta e outros sacrifícios. Ah... perto da  base também tem água saudável, mas usamos clorin por precaução.

Fotos feitas  de forma acelerada. Só faltava assinar o livro do cume. Mas cadê o livro? Não estava na caixa de metal. Acho que o guardião -- seria o meu amigo Guto, o guia nota 10? --  levou e ninguém repôs. Paciência! Sem problema. 

O que vale é a conquista. A sensação de quão nos sentimos gigantes ao chegar e o quão nos sentimos um grão de areia ao olharmos ao redor e observarmos a grandeza da natureza. Sim! É a mão de Deus, como diz o Gutão. 

Iniciamos o mergulho final por volta das 16h45min. Laje de pedra bem inclinada merece atenção especial. Se escorregar ou tropeçar, o tombo vai ser federal. Em 30 minutos, sob o testemunho do por do sol alaranjado, adentramos a mata. 

Uma ribanceira interminável! Principalmente pra quem já caminhou mais de 10 horas, está no limite físico e psicológico,  e ainda precisa se preocupar com  tropeções nas raízes expostas. Se perder a concentração o destino é o chão. 

Meia hora derradeira, já com lanterna de cabeça devido à escuridão, é menos traumática. Terreno mais plaino, beirando os riachos, favorece. Danilo abre o lacre do turbo e acelera.  Não demoramos pra chegar. Cansados,  sãos, salvos e muito contentes. 

Deu tudo certo. E a natureza nos premiou com uma beleza incomum. Chegamos quebrados, mas extremamente felizes. Lá estava o carro como deixamos. Brindamos com uma garrafinha de Pati -- pinga, gengibre, mel e limão. O vinho tomamos em casa, com a família. Afinal, merecemos. 

Obrigado Danilo! Obrigado Leo! Obrigado Senhor. 
Lindo por do sol na interminável descida do Itaguaré
 

Um trator 6.4 no pico do Itaguaré... rsrs
Danilo e Leo no Pico dos Marins















quinta-feira, 4 de julho de 2019

Mais sobre a Expedição Chapada


Conforme prometido,  faço aqui o relato  complementar  da viagem de maio à  inesquecível Chapada Diamantina. 

Nossa "Expedição Chapada" começou pela  incrível Travessia do Vale do Pati. Conforme já escrevi, foram cinco dias  de aventuras.  Cinco dias de rios, cachoeiras,  grutas, montanhas e muita trilha. 

No último dia de travessia,  depois dos deliciosos sorvetes de cachaça e de  graviola na Apollo, fomos conhecer o deslumbrante Poço Azul, próximo de Andaraí,  e de lá rumamos para  a aconchegante Mucugê, onde  jantamos e pernoitamos. 

Banho quente, boa comida, boa cerveja,  bom papo, bom sono... Prontos para encarar a cachoeira/poço do Buracão, no Parque Natural Municipal do Espalhado ( Ibicoara). 

Logo de manhã,  ao lado do amigo, motorista e também bom guia Zé Raimundo (Chapada Passeios), o Neto nos pegou na pousada, bem próxima ao iluminado cemitério bizantino. 

Foram cerca de duas horas até o parque, onde, agora sob a condução compartilhada com o  seu Janu,  caminhamos menos de uma hora, curtimos a linda cachoeira e  fizemos um rapel em paredões de 96m (cachoeira tem 85m), descendo nas águas geladas rodeadas por  rochas. 



Baixão: pousada da Bia, dona de simpatia ímpar




Rapel na cachoeira  do Buracão



Depois da aventura, nada mais justo  do que um almoço no capricho. Para variar nosso guia nota 10 mandou bem, com sucos, frutas, saladas e lanches variados. 

Barriga cheia, pé na areia!. Lá fomos nós para a pousada no povoado do Baixão,   da simpaticíssima dona Bia. Sorriso aberto,  suíte presidencial, limpeza impecável, banho bom e comida ótima. 

Sem contar a cerveja e aquela branquinha no capricho, ao som dos nambus alegrando o entardecer. Também foi legal conhecer os meninos Vitor (5 anos)e Leonardo (12), filhos de uma amiga da Bia.  O mais velho é corintiano roxo e quer ser goleiro. Já o Vitor torce pro Flamengo por influência do tio. Gozado que no Baixão pouco se fala  em Bahia e Vitória. 


Nosso sétimo dia na Chapada Diamantina foi especial. Desafio de 18km de trilha difícil pra chegar na cachoeira da Fumacinha ( mais próxima de Ibicoara, mas pertencente ao município de Mucugê) é totalmente compensador. 
Angela, Ana e Raddi flutuando no Poço Azul

Ana, Neto e Raddi na  belíssima Fumacinha:






Maravilhosamente gelada. Principal queda d'água tem mais de 100m de altura e beleza escultural. Trilhas de oito horas (ida e volta) entre matas, pedras e leito do rio são  extenuantes. Especialmente no final, faltando 200m para a Fumacinha. 

Nem todos conseguem chegar por pedras ou pela água. Nada que uma simples bóia,  puxada com  corda no máximo  por 50m, na correnteza, não resolva. Fica a sugestão capaz de evitar frustrações desnecessárias, como ouvimos  de um senhor  (Sérgio) no aeroporto de Tanquinho (Lençóis).  

Sacrifício  de muito trepa-pedra no rio valeu a pena.  Na minha opinião, uma das mais maiores e mais belas cachoeiras da Chapada Diamantina e talvez do Brasil.

Voltamos pro banho final na pousada da Bia. Não sem antes tomar um delicioso caldo de cana no início/final  da trilha. Depois, foram cerca de quatro horas de viagem cansativa até Lençóis,  onde ficamos e passeamos por mais quatro dias. 


                                          LAPA DOCE, MUCUGEZINHO  E PAI INÁCIO


Para fechar nossa expedição Chapada ainda visitamos várias atrações. A começar pela volta ao parque, com direito a cachoeiras, bacias,  antigos garimpos e salão de areia.  Nosso guia foi o Madson, outra figura comprometida com a profissão e conhecedor de detalhes históricos, geológicos e geográficos  da região. 

Ao lado de um guia local, Madson nos acompanhou  na  estonteante gruta da Lapa Doce (Iraquara), com cerca de 1km liberado aos turistas. Além da Angela e da Ana, por lá já passaram notáveis como Xuxa, Ivete Sangalo, Camila Pitanga, Ciro Gomes e tantos outros.

Depois passamos pelo Mucugezinho, onde nadamos no Poço do Diabo. Sempre sob a orientação e  cuidados do  atento Madson, que além de bom guia é taxista em Lençóis.  Tanto que nos levou ao aeroporto no dia de retornar. 

Pra completar o passeio do dia nós subimos o Morro do Pai Inácio, com uma visão espetacular  das  inúmeras montanhas da região, de onde só saímos na boca da noite. Visão é tão fascinante que nem mesmo a impossibilidade de assistir ao por do sol -- muitas nuvens --   gerou qualquer  sentimento de frustração. Foi lindo!



                              SOBRE POUSADAS, GUIAS E TRANSPORTE

Sobre guias  durante  todo o passeio nós já falamos de passagem.  Neto e Madson foram exemplares e podemos indicá-los sem restrições. Ótimos profissionais. Zé Raimundo, que nos acompanhou  no Buracão e na Fumacinha, também foi bem. Conhece do riscado. Melhor como guia do que como motorista -- pé pesado... rsrs.  

Sugiro contatos com guias autônomos -- de preferência  condutores que não incluam dependência de  maconha  no pacote de serviços, como presenciamos --  a partir de indicações confiáveis. Maioria das agências cobra bem mais. 

Quanto ao item alimentação, em Lençóis você estará sempre bem servido.  Comida pra  tudo quanto é gosto  e tudo quanto é bolso. Para aquelas comidinhas urgentes e lanches de trilha a sugestão fica por conta dos mercadinhos, sempre com preços acessíveis. 

Sobre as pousadas, no Vale do Capão ficamos na  Pé no  Mato. Gostamos. Limpeza,  banho, cama e café da manhã sem restrições. Só acho que o recepcionista não precisa forçar tanto a barra ao enaltecer  em excesso o café da manhã em detrimento da pousada como um todo.  Parecia tentar induzir  o hóspede de acordo com suas predileções pessoais.  Inconveniente. 

Maioria dos trilheiros parte  antes das 7h e o  belo café só é servido  a partir das 8h. Não  custa um funcionário entrar mais cedo de vez em quando e depois compensar.  Vila riponga  bem próxima da cachoeira da Fumaça ( 360m) é um charme. Indico.

Em Mucugê nós ficamos no Recanto da Chapada.  Tudo muito bom, inclusive o custo benefício. Só não  gostei  quando um senhora -- talvez proprietária --  colocou restrições ao  perguntarmos se nossos guias poderiam tomar o café da manhã conosco.  Como limitou o regalo ao "cafezinho", eles abriram mão, com o que concordei. Nada agradável. Só por isso eu não indico e não voltaria lá.  Preço justo, mas foi mão-de-vaca. 

Em  Lençóis, no centrinho,  nós ficamos  no Pouso na Trilha, onde também fomos muito bem tratados. Belo  e diversificado  café da manhã com cara de almoço, funcionários simpáticos e  prestativos, caipirinha da boa,  cama, banho e limpeza  a contento.  Preço nada abusivo.  Também indico. 

Sobre transporte, podemos começar pelo aéreo. Latam até Salvador. Ida e volta sem problema e com preços acessíveis. De Salvador a Lençóis fomos pela Azul. Preço abusivo por não ter concorrência e com apenas dois voos  semanais. 

Aeroporto de Tanquinho, distrito de Lençóis, também é bem chinfrim, sem infra-estrutura e com direito a banheiro sujo, sem papel higiênico e barata no saguão. Prefeitura e Azul poderiam investir pensando no turista.

Sem contar  os  constantes cancelamentos de voos por problemas técnicos ou  retornos por falta de teto em Tanquinho, onde não há aparelhos. Fique atento!  Ouvimos várias reclamações sobre cancelamentos de aéreos nada convincentes compensados por oito horas de estrada por meio de van ou ônibus. Cuidado!



segunda-feira, 3 de junho de 2019

VALE DO PATI, DE BRAÇOS ABERTOS PARA TI!

 Faz bem pros olhos; faz bem pro coração. Faz bem pro corpo; faz bem pra alma. Afinal, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Um quê de magia. Dois quês de liberdade. Três quês de superação. Quatro quês de sensibilidade. Cinco quês de admiração. Mil quês de respeito à natureza. 

Cachoeiras imponentes; rios de águas rasas e cristalinas;  poços  profundos de águas escuras como breu. Morros desafiantes; ladeiras íngremes. Grutas sinistras.   Campos gerais verde-amarelados a perder de vista. Exuberantes! Canions com paredões estonteantes.

Cenários cinematográficos. Paisagens deslumbrantes. Dignas de lágrimas; lágrimas de  emoção e  contemplação. De reverências à mãe natureza. Ali, só não ouve a voz  de Deus quem não quer. Só não sente a mão divina quem não quer. Reflexão inevitável. Quão pequenos somos nós, pobres mortais, sempre reféns de bens materiais. 

Vida simples; nativos  humildes, cativantes, trabalhadores braçais, sorrisos verdadeiros, anfitriões naturais. Assim é o baiano  Vale do Pati -- espécie de palmeira em extinção --, no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina, área de 152 mil hectares administrada (?) pelo Instituto Chico Mendes  -- ICMBio. 

O espaço  demarcado existe há  quase 34 anos. Nos limites, mais ao norte, ficam as  cidades de Lençóis e Palmeiras, com o charmoso distrito riponga do  Vale do Capão, onde dormimos e iniciamos nossa aventura.  Na parte central  estão Andaraí, o distrito de Igatu e a aconchegante Mucugê, antigo berço de diamantes, com o distrito de Guiné. Mais ao sul fica Ibicoara. 

Objetivo  da criação do parque é proteger  as serras do Espinhaço e do Sincorá, antigos berços de ouro, diamante, carbonato e silício. Lá existem três biomas predominantes, além de prados e campos rupestres: mata atlântica, cerrado e caatinga. E por ali serpenteiam rios, brotam quedas d'água e 300 km de trilhas de tirar o fôlego, em todos os sentidos.

Próxima ao Capão, a cachoeira da Fumaça, com 360m, é a mais alta da região. A do Cachoeirão, no Vale do Pati,  vem em seguida com 270m e aquela pedra, lugar cativo para fotos inesquecíveis.

Ao todo são 16 sítios arqueológicos, além do Marimbus, área alagada nos municípios de Lençóis e Andaraí. Uma pintura,   conhecida como Pantanal da Chapada.

Infelizmente, no parque não há  estruturas institucionais de apoio aos moradores e aos visitantes,  nem guaritas e tampouco segurança com guardas em número minimamente razoável.

Manutenção e conservação de tamanha beleza ficam mesmo mais por conta de guias e nativos, além da boa vontade de  trilheiros e turistas nem sempre tão conscientes e educados. Governos descompromissados praticamente nada investem no PNCD.

                                VALE DO PATI: DESAFIO E COLÍRIO

Fizemos -- Angela,  Ana e Raddi  -- a travessia em cinco dias, entrando pelo Capão.  Pati,   de braços abertos pra ti! Dia  6 de maio,  segunda-feira de manhã, pernas pra que te quero a partir das 9h desde o povoado do Bomba. Não sem antes ouvir as orientações do guia Neto, um condutor exemplar.  Agora um novo amigo. 

Mochilas nas costas, fotos de rostos  ainda saudáveis, lá vamos nós. De cara, equilíbrio para atravessar o rio. Em seguida a subida do Bomba. Frequência cardíaca sobe. Nada assustador.

Papo vai, papo vem: mais fotos  e mais informações locais  sempre relevantes do Neto, também corintiano e pai da Paloma, que adora futebol e se impõe nos campinhos e quadras de Andaraí.

Neto é daqueles profissionais realmente comprometidos com seu trabalho. Guia com segurança e conhecimento. Passa confiança.  Fala   da Chapada com desenvoltura, com detalhes históricos, geográficos, botânicos e culturais. 

Não tenho motivos pra duvidar, mas, a exemplo de muitos nativos daquelas bandas,  o Neto garante que viu OVNI quando trabalhava na Serra do Capa Bode -- na época de muito frio na montanha os testículos dos bodes desaparecem,  "sobem", dando a impressão de que os coitados foram capados. Ou seria obra dos ETs?

Então... bodes à parte... aclive superado, ritmo cardíaco controlado, ganhamos  a "planície"  Gerais do Vieira, por onde caminhamos por bom tempo em terreno encharcado. No seu final, antes do Rancho e da subida do Quebra-Bunda, pegamos uma chuvinha insignificante e uma densa neblina de boas-vindas. 

Porém, suficientes para exigir  corta-vento e capas protetoras, inclusive para as mochilas. A minha  agora mais pesada, porque, elegantemente,  a amiga Ana resolveu brindar a primeira noite na casa de nativos com um belo vinho chileno. Com certeza, valeu a pena. 








 Campos gerais do Vieira e do Rio Preto
Beleza ímpar e respeito à natureza


No final do Quebra-Bunda, inteiros, fomos  recompensados com janelas de visuais incríveis e  com o lanche/almoço do Netão. Pão caseiro, queijo, suco natural, mexerica,  manga, salaminho, atum, cenoura, pepino, tomate... meu Deus, que delícia.

Abastecidos. descansados, felizes e motivados, pé na trilha. Nada de subidas ou descidas no início. Um retão encharcado rodeado  por  belos morros, sempre nomeados pelo  G-10,  guia nota 10.  São as Gerais do Rio Preto. Vegetação baixa, já sem garoa e com temperatura ideal para caminhar.

Chegamos  ao famoso  mirante do Pati por volta das 17h,  com sol bem próximo de um horizonte colorido e infinito. Mais poses,  mais sorrisos, mais fotos,  mais alguns minutos... e começamos a descer a bem inclinada e temida Rampa da Ruinha/Igrejinha.  Um verdadeiro mergulho! Um "diponta" no açude , como se falava em Rio Pardo. 

Prestes a escurecer, não foi nada fácil. Risco de queda é iminente. Todo cuidado é pouco. Cerca de 30 minutos de  certa tensão, sem perder o foco.  Pior que  lá de cima dá a impressão de que a bem visível trilha final é fácil, plaininha.

Ledo engano! Tudo que desce também sobe; agora de lanterna na cabeça e um fiapo de lua no nível da montanha. Silhueta imperdível! Pra ficar na retina.

Só que a  casa do seu Wilson, depois da ladeira, lá embaixo, não chegava nunca. Nara, filha do  ausente anfitrião do dia, atendeu ao piscar de lanterna do Neto, mas depois a descida, no escuro, foi penosa. Um quiabo! Lisa, lisa! Escorreguei, mas como fechava a fila ninguém viu. Nem riu! 

Enfim, às 19h, após 22km de caminhada e um céu encantador,  salpicado de estrelas, a Nara veio nos receber de braços abertos. Indicou os quartos e disse que o  jantar já seria servido. Pra não atrasar outros hóspedes, brasileiros e gringos. 
Casa do seu Wilson: aconchego de 5 estrelas


Eu e a Angela ficamos numa quase suíte, com direito a luz. Luz! Cama boa, aconchegante, e quarto limpo. Banheiro exclusivo, bem ao lado. Chuveiro/ducha com água gelada. No ponto! À disposição até  tanquinho e varal pra lavar e secar botas e camisetas imundas e malcheirosas. 

Só pra lembrar: internet só para os moradores; captação de energia solar pra carregar baterias e alimentar tomadas e pontos de luz. Geladeira depende do gás que chega a cada 15 dias. Como quase tudo por lá, no lombo de mulas.

Então... banho tomado,  havaianas nos pés, leveza, liberdade, vinho bom, mesa farta, comida deliciosa. Só nos restava agradecer a Deus pela proteção, fazer o briefing do dia seguinte, admirar o imensidão celeste mais uma vez e dormir o merecido sono dos deuses.


MORRO DO CASTELO (LAPINHA), GRUTA E FUNIL 
Ana, Angela e Raddão na gruta de acesso ao Castelo


Morro do Castelo (Lapinha, para os nativos)
   
       Na terça-feira, após um belo café da manhã, o destino é o Morro do Castelo, pelos nativos chamado da Lapinha. Castelo foi definição de hippies e turistas. Mesmo porque, os nativos -- hoje não mais que 12 famílias que vivem do turismo e não mais as quase 3 mil  pessoas que dependiam do  extrativismo e depois do plantio  de café -- não conheciam castelos.   No  vale, antes também ocupado por quilombolas,  havia muitas casas, igreja, prefeitura e  até escola, mas castelo ninguém viu não.  

Pelas dicas do G-10, na terça-feira seriam mais cerca de 14km, incluindo o   icônico Morro do Castelo (1470m de altitude) e a Cachoeira do Funil.

Partimos com mochilas leves, por volta das 9h, pois na volta pegaríamos tudo pra comer e  dormir na dona Leia.  Atravessando e beirando  o rio, logo entramos na mata e começamos a subir. Inicialmente por terra, sem judieira: depois com inclinação pesada e por pedras, tipo escalaminhada. Por sorte, a maioria do percurso acontece pela sombra. 

Mas não foi fácil não! Creio que subimos e descemos pelo menos uns 8km.  No final da ascensão adentramos numa gruta bem ampla. Na ida  para o topo são 100m: na volta pegamos uma bifurcação e percorremos cerca de 300m. 

Valeu a pena! Visual  do Vale do Pati,  com a cachoeira do Calixto, é um colírio. Fotos de praxe nos mirantes. Hora de descansar, curtir e lanchar. Pra variar, o Neto ofereceu um belo e completo menu.

Após muita conversa e contemplação, é hora de descer. Quando o Neto perguntou se estávamos ok pra ainda encarar a caminhada até a Cachoeira do Funil, ninguém  titubeou. "Bora, manu! Aqui é  Curíntia!". Não me lembro bem o autor da frase... rsrs

Só sei que descemos pra caramba, entramos à direita e por menos de uma hora voltamos a caminhar junto ao leito  do rio. Cachoeira do Funil é bem bonita. Mergulho revigorante foi inevitável. Com algumas braçadas na água gélida. 

Voltamos já na boca da noite, pegamos as tralhas no seu Wilson e fomos pra dona Leia, uns 500m mais à frente. Também casa de pau-a-pique, energia limitada, fila nos dois banheiros,   Bohemia gelada, comida nota 7,  educação questionável,  cama quebrada, mas  sono pesado...

        CALIXTO: TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA!

Na manhã do dia seguinte tínhamos uma decisão a tomar: continuar na dona Leia ou voltar pro aconchego do seu Wilson, já que a casa da dona Raquel, nossa próxima parada, passava por reformas.  Decidimos sem titubear: voltaríamos pro sorriso da sempre educada jovem  Nara. 

Depois do café da manhã, deixamos a mochila pesada na casa do Agnaldo, meio do caminho entre seu Wilson e  dona Leia, e partimos pra vencer os 18km de ida e volta até a cachoeira do Calixto.

Andamos bastante. Sem  tantos sacrifícios. Trilha batida, sem esforço hercúleo para vencer  poucos morros e ladeiras. Pedras no leito do rio  exigiam muita atenção, mas já não representavam  obstáculos intransponíveis.

Cachoeira é de uma beleza ímpar. Mergulho e aquela cortada nas águas escuras de novo significaram músculos e mente revigorados pra retornar sem transtornos. 

Falar do lanche do Neto é chover no molhado; um exagero. E preciso contar que corri sério risco na cachoeira: não é que meninas e meninos de uma comunidade hippie acampada a uns 150m, na beirada do rio, resolveram mostrar seus dotes como ginastas e malabaristas? Verdadeiros artistas de rua. Ou de  rios e vales? 

Até aí tudo bem, mas em seguida as roupas  mínimas começaram a cair. Primeiro a loira novinha, depois a morena madura... Ficaram peladas justo quando eu olhava lá pra baixo e elogiava a destreza das meninas. 

Foi quando entendi o nome do filme de Arnaldo Jabour e da peça do excepcional  dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues,  "Toda nudez será castigada".  

Quando a Angela perguntou pro Neto se ele tinha spray de pimenta eu olhei pros lados e percebi que estava num mato sem cachorro e  que não tinha pra onde correr; o jeito seria nadar. Minha esposa virou uma suçuarana!  Uma onça! PQP!

Meio sem jeito, com aquele sorriso amarelo, o guia disfarçou e falou pra Ana que era melhor voltar porque estava ficando tarde. O céu azul deu lugar a "nuvens pretas, carregadas",  todas sobre a minha cabeça. 

Pior é que na volta tivemos de passar novamente no meio do acampamento. Por sorte  (?), meninas na moita, atrás da pedra;  meninos de costas, na água escura. E o Raddão com o rabo no meio das pernas, ganindo como um cachorrinho e  olhando pro chão, com medo de cobra. 

Brincadeiras e licença poética à parte, retornamos inteiros. Passamos da casa do Agnaldo pra pegar as mochilas, tomamos uma latinha de cerveja (R$ 10 bem pagos) e pelo menos uns três copos da caldo de cana cada um. Cortada e moída na hora, por apenas R$ 4 cada. Um néctar! Fora o bom papo do  forrozeiro Agnaldo, um dos muitos filhos da dona Raquel.

Mais alguns minutos, já no final da tarde,  e estávamos de volta ao "5 estrelas" do seu Wilson. Nossa suíte já estava ocupada, mas de novo a Nara nos alojou com carinho, num quarto limpinho, perto de quatro banheiros, da cozinha e dos tanques. 

Mais uma vez fomos tratados com carinho. De novo, um belo banho gelado e um jantar divino, com direito a arroz, feijão, macarrão, carnes, saladas, sucos e  doces de sobremesa.

No briefing diário do final do dia o G-10 já avisou que o nosso quarto desafio seria "massa". Cerca de 16km de caminhada, tendo o Mirante do Cachoeirão  e a difícil  Fenda como destaque. 

               CACHOEIRÃO: 270M DE ADRENALINA E BELEZA

De novo demoramos um pouquinho mais pra sair. Café da manhã deixa no chinelo a maioria de pousadas 3 estrelas por aí. 

Por volta das 8h33min, partiu Cachoeirão! Voltamos um pouquinho na trilha final do primeiro dia, ainda bem escorregadia por causa da chuva da madrugada,  e entramos à esquerda, direção contrária da Igrejinha.  Pegamos o  chamado Arrodeio  e atingimos outra vez as Gerais do Rio Preto. 

Caminhada não foi desgastante. Visual  fascinante! De fazer esquecer qualquer cansaço. Uma grandeza! Várias cachoeiras, com direito a arco-iris. São 270m de altura, quase três campos de futebol oficiais. 

Uau!!! Deu medo fazer fotos na ponta daquela pedra com o Pati ao fundo. Minha nossa! Mas valeu  a pena. 


Neto (profissionalismo nota 10) e Ana (determinação nota 10)

Sempre vale! 

Raddi e Angela (cumplicidade e risco calculado)


  
Um  peão admira o arco-íris

 Mais um almoço do G-10. Antes, a Ana e o Neto retornaram uns 200m e foram dar um mergulho no rio. Ana adora água. Parece uma piabinha. Voltaram em poucos minutos. Hora do rango, regado a sucos de maracujá selvagem e cajá-manga. Pão caseiro sempre com salame, queijo, tomate, cenoura, atum e frutas frescas. Huuuummm! 

 Não me lembro ao certo, mas acho que saímos do Cachoeirão por volta das 14h17min. 

Havia um grande desafio a ser encarado. Descer pela famosa e íngreme Fenda e chegar à casa do seu Eduardo ( e do neto Domingos) antes de anoitecer. Lugar fácil de se perder. Tanto que poucos fazem esse caminho sugerido pelo Neto. Até mesmo certos guias têm respeito pelas dificuldades da trilha, que incorpora o Mirante da Fenda. 

 "Bora manu!  Aqui é  Curíntia!". Essa era a senha, na base da brincadeira com um baiano filho de garimpeiro que já morou em Itaquera-SP. Só como ilustração: com 15 anos o Neto foi acompanhar o pai no garimpo e quase morreu soterrado.  Foi salvo pelos garimpeiros e levado às pressas para Salvador. Só foi  se lembrar do ocorrido cinco anos depois.  (À noite conheceríamos  o hoje também guia  Humberto,  um dos garimpeiros que o salvaram). 

Então...Superar a fenda não foi brincadeira não. Ali se separam, sim, os homens dos meninos; as mulheres determinadas das meninas dondocas, patricinhas. Coisa bruta! 

Muita ribanceira colada no  paredão do morro.  Cabos de aço colocados estrategicamente ajudam bastante. Inclusive na hora de atravessar o riacho/cachoeira com corredeira, numa grota. Ali foi punk viu! Mas superamos com categoria. Sem tombos ficaria sem graça. Faz parte. Basta limpar o traseiro e seguir em frente.  

Quando ouvimos o som das águas e chegamos às margens do rio foi um alívio. Já era tarde para tentar fazer o Cachoeirão por baixo. Agora tudo plaininho até a casa do seu Eduardo.  

Final de tarde, ancoramos ao lado de outros hóspedes, todos meio quebrados .  De cara vimos que nossa mochila mais pesada,  naquele dia excepcionalmente transportada por mula, estava ali, inteirinha. 

Casa enorme, simples e, obviamente,  às escuras.  Energia racionada, luz minimizada,  banheiro apertado, banho gelado. Escolhemos um quartinho mais apartado, onde fiz da lanterna de mão com o fio do carregador de celular um belo  e salvador "lustre".  

Ambiente não prometia, mas me enganei redondamente nas deduções, confesso. O jantar e o café da manhã (5h) do Domingos estavam maravilhosos. 

Diz o ditado que "tempero de pobre é a fome", mas não foi isso não.  O jovem Domingos  manda bem mesmo na cozinha.  Café da manhã teve até cuscuz e bolinho de chuva impecável,  melhor até do que o da saudosa tia Guinha, lá na Boa Esperança.

              LADEIRA DO IMPÉRIO E TRILHA DO CALVÁRIO

Tomamos café da manhã reforçado por volta das 5h27min. Um almoço pra enfrentar os últimos 18km da travessia do Vale do Pati até a cidade do Neto e da Paloma,  a pacata Andaraí.  

De início, 6h25min, tranquilidade beira-rio. Até o momento de atravessá-lo equilibrando em pedras pequenas, às vezes pontiagudas. Me senti um Dumbo sobre o banquinho do circo.  Ridículo!

Pra me salvar, agora com mochila pesada e centro de gravidade alterado, abandonei a Angela pra trás. Egoismo latente. Companheirismo claudicante. Peço desculpas.


Subindo a  temida Ladeira do Império...

... antes  do Calvário até Andaraí


Mas lá vamos nós para encarar cerca de 4km subindo a temida Ladeira do Império. Calçamento regular e sombra da manhã ajudam bastante. Não chegamos a sofrer muito em momento algum. Menos pesada do que os relatos me fizeram imaginar.

Pra ser sincero, pra mim foi bem pior superar a descida nos cerca de 14km  restantes até Andaraí.  Minha nossa! Sofremos viu!  Não chegava nunca. Só declive, mas com muitas pedras pequenas soltas. Torção de tornozelo ou joelho poderia estragar nossa bela e desafiadora aventura. Um verdadeiro calvário.  Haja pecados! Paguei metade!

Depois de passar pelo mirante do Alto da Boa Vista, de onde se avista  parte do  Marimbus, o pantanal da Chapada,  além da cidade de Andaraí,  mergulhamos mais alguns quilômetros entre antigas áreas de garimpo, até desembocar na rua principal e chegar  ao centro, mais precisamente na tradicional sorveteria Apolo.  

Pregados, mas felizes por cumprirmos nossa meta  de atravessar o Vale do Pati e seus belos tentáculos  por cinco dias.  Cerca de 90km, média de 18km por dia. 

Abraços e agradecimentos mútuos. "Cheiroso", sem botas, já com havaianas nos pés ( não poderia ser na cabeça, né?), dois litros de água,  pernas pra cima e um  último pedido: "Duas bolas de sorvete, por favor. Uma de graviola e uma de cachaça".  Sim, cachaça. Um néctar. Merecido,  convenhamos.
Principais atrações do inesquecível Vale do Pati

(Nossa aventura  na Chapada continuou por mais alguns dias. Depois eu conto. Quando der vontade.  Agora vou caminhar. Preciso treinar pra fazer a travessia Marins x Itaguaré). Até. 



 





x

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O fascínio da Trilha do Ouro


Sob o testemunho  de  montanhas, florestas, cachoeiras, céu e mar,  no último feriado prolongado de 7 de setembro  fizemos a histórica Trilha do Ouro. Foram mais de 50 quilômetros entre São José do Barreiro/Serra da Bocaina/SP e o distrito de Mambucaba/Angra dos Reis/RJ.

Bom lembrar  que critérios de avaliação sobre  beleza e dificuldade obedecem  a certa subjetividade.  Mesmo sem tantos visuais longos, amplos,  de serras e horizontes  a perder de vista, fica-se encantado com a exuberância da Mata Atlântica. Sons, cores,  perfumes, águas, história e visuais de tirar o fôlego.  Beleza específica,  bem diferente da desfilada na travessia da Serra Fina, onde o por e o nascer do sol são indescritíveis.

Quanto ao nível de dificuldade,  a princípio, moderado. Obstáculos apenas para obesos,  oncotôs ( pseudo turistas/trilheiros fora do contexto) e sedentários e/ou preguiçosos. Mas se chover muda muito e fica bem difícil em função da predominância de  pedras escorregadias   na descendente.

Trilha, propriamente dita, começou por volta das 9h30min de sexta-feira, na Pousada Recanto da Floresta, no alto da Bocaina. Zé Milton e Andrea dirigem com maestria a pousada e a MWT,  de
onde partimos para 26 km em dois veículos a partir do centro de São José do Barreiro.

Da pousada, cortando caminho pelo pasto para evitar a volta da estrada, em cerca de meia hora já estávamos na portaria do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Passamos bem próximos das águas ainda mansas   do Paredão e da Toca da Onça.

Vencidos os trâmites burocráticos, "partiu" Trilha do Ouro. No primeiro dia foram cerca de 25 km  até da pousada Palmirinha. Após leve caminhada de estrada, não tivemos maiores dificuldades pra chegar à esplendorosa cachoeira de Santo Isidro, com altura superior a 80m.

Entrada da trilha à esquerda está bem demarcada e degraus descendentes nos levam à grande piscina gelada. Por ali começamos a encontrar  vários trilheiros, quase todos com o mesmo destino.

Todos ficaram maravilhados com a exuberância da  grande queda d'agua. Poucos -- Ana, Érica, Alessandra e Pedro -- ousaram molhar além das canelas. Após descanso e lanche de aproximadamente 30 minutos enfrentamos degraus agora ascendentes, lógico, e voltamos à estrada de terra, convergindo à esquerda.

Pé na estrada novamente até encontrarmos uma placa à esquerda onde se lia ATALHO. Sem tombos e sem danos, cortamos caminho pela trilha sombreada em descendente até voltar à estrada  mais ensolarada que também leva à pousada Vale dos Veados. Mas  quem quer passear  até lá só encara sem medo se tiver com  veículo 4x4.

E lá vamos nós! Herbert ( pai da Ísis e nosso grande líder), Ana, Érica, Angela, Iris, Alessandra Tambellini, o casal Gaelle/Fernando, Raddi e o jovem Pedro, que fechava o grupo e coordenava as "fotos-de- bromélia", algumas  úmidas e rápidas; outras mais demoradas e cheirosas.

Num ritmo ótimo e respeitoso, e sempre com aulas de um biólogo com mestrado em botânica, o Herbert, progredimos sem percalços. Alguns  curtos ganhos de elevação nada mais provocaram do que a subida momentânea da pulsação.

                                                             CACHOEIRA DAS POSSES

Não tardou para chegarmos ao segundo ponto de descanso, banho e lanche/almoço. Placa visível, adentramos  à esquerda e pegamos uma descida curta mas com angulação significativa. Entre eucaliptos e araucárias sobreviventes,  ainda há restos de casas de uma antiga fazenda. Por isso muitos mochileiros acampam por ali na primeira noite.

A bela cachoeira das Posses, com mais de 40m de altura,  nos esperava de braços abertos. As pedras pareciam  servir de arquibancadas. Desta vez não resisti e entrei na água ao lado da Érica, da Alessandra e da Ana.

Pão, castanhas, amêndoas, salamitos, parmesão, damasco, chocolate, carb-up, barrinhas de cereais, gatorade, água e outros quetais. Estômagos forrados, mochilas nas costas e muita disposição. Bora subir a trilha pra voltar à estradinha e chegar ao destino.

Em homenagem ao meu saudoso pai, peguei o seu antigo pio e chamei um inhambu. Fiquei feliz quando ele respondeu. Uma vez foi suficiente. Depois ele percebeu que a propaganda era enganosa. Ninguém sabia, mas eu sentia;  meu caçador favorito nos protegia.

Daí até a casa de fazenda de pau-a-pique seriam pelo menos mais quatro horas. Quase sempre apreciando a beleza do entorno, dos riachos cristalinos, dos vales verdes e dos contrafortes das montanhas da  inesquecível Bocaina e da Serra do Mar.

 Agora com mais subidas intercaladas com descidas. Mas o clima ajudava. Não judiava. Mesmo com o dia claro e o céu com poucas nuvens. Plantas e pássaros,   pontes e pinguelas, trilhas e estradas...Não há espaço para tristeza. Nem cara feia. Companheirismo sim, egoismo não!

Na bifurcação que indicava pousada Barreirinha à esquerda e Vale dos Veados à direita,  pegamos  a primeira opção. Não sem antes o Herbert começar mas não terminar a  hilária história de um editor/oncotô apelidado de Sete-Léguas.

Só posso garantir que o Sete-Léguas deu um trabalhão danado por não estar preparado para a empreitada. Sei que o imprudente  trilheiro foi amparado por todos e chegou ao final da trilha. Estropiado, sem "flechas, sem  uma saca de café e sem  um grama de ouro sequer".

Voltando à  trilha. A  essa  altura, faltando  cerca de duas horas para o destino do dia, alguns companheiros nossos já estavam um pouco mais aliviados, já que o Naldo, filho da dona Palmira, veio ao nosso encontro com uma mula salvadora. Menos peso, mais disposição.

E lá vamos nós novamente! As  tagarelices diminuem, mas as informações relevantes do professor continuam. Agora as sombras já são mais frias e escuras. Antes das 18h somos orientados a lançar mão das  salvadoras lanterninhas de cabeça.

Foi quando minha esposa soltou uma pérola:"Chiii! Minha lanterna não ilumina nada. Olha só! O que será que aconteceu?" Parei, pensei e não resisti:"Chu, quem sabe se você ligar? Talvez acenda né?"  rsrsrs

Brincadeira à parte, já estava mesmo escurecendo. E nada de chegar nem mesmo na Barreirinha, pousada onde ficaram muitos outros trilheiros. Mas não nós, que optamos pela hospedagem da dona Palmira,  de quem só ouvíramos elogios.

Casa de pau-a-pique, sem energia elétrica, mas  extrema simpatia dos anfitriões. Banho quente sustentado pela serpentina do fogão à lenha e um  sonhado jantar  com  arroz, feijão,  macarrão, lasanha,  batata frita, carne de porco,  frango de panela, linguiça... Viajei na imaginação.

Meu Deus! Eu não comentei nada com ninguém, mas já estava salivando só de imaginar. Banho, comida e cama... Se tiver uma pinguinha... Estava cansado, mas não extenuado. Até que, após uma pernada de 25km,  chegamos à  aconchegante pousada,  por volta das 18h43min.

Dona Palmira, Naldo e Luciane são muito simples, prestativos e simpáticos. Tudo confirmado. Jantar à luz de velas estava ótimo. Cozinha  esfumaçada, com  linguiça e peças de porco dependuradas naquela vara alta sobre o fogão,  me fez lembrar da casa da vó Lica, na  saudosa fazenda Boa Esperança, onde praticamente fui criado.

Quanto ao sono, fomos privilegiados por dormir numa cama de casal. Simplesmente desmaiei. Só fui acordar lá pelas 7h. Ouvi o galo cantar mas fiquei quieto,  no quentinho. Café da manhã também estava delicioso, com bolo, pão de casa, mel, manteiga, queijo e extrema  cordialidade da dona Palmira.

                                               PONTES, PINGUELAS,  SOMBRA E ÁGUA FRESCA

Fotos, abraços, agradecimentos e despedidas. Partiu Trilha do Ouro, segundo dia. Apenas 10km. Mais descidas. Poucas subidas. Nada desgastante. Mas muito cuidado! O ditado  diz que "na descida todo santo ajuda", mas não é bem assim. É preciso  respeitar e manter o foco. Se vacilar toma chão.

Acho que saímos depois das 9h. Descansados e motivados para a nova e curta jornada até a casa do Zé do Zico.  Foram  poucas subidas e muitas descidas mata adentro,  já com o caminho trilhado por tropeiros sobre as pedras remanescentes do sacrifício de escravos.

Pra quem não se lembra, os primeiros a demarcar a trilha foram os índios Guaianazes. Depois o caminho teria sido alternativa para se descer com o ouro das Minas Gerais até Paraty, burlando o pagamento de impostos.

Em seguida, por meio de carroções de bois, serviu para o escoamento do café do Vale do Paraíba até o porto.
Hoje, apenas raros moradores do PNSB, guias e turistas trilheiros amantes da natureza. Como nós.

Percurso, entre matas, pontes e pinguelas, sempre margeando o rio Mambucaba, foi bem tranquilo para todos. Chegamos no  Zé do Zico por volta do meio-dia, se não me engano.  A famosa gaiola de tantas fotos parece estar aposentada. Para atravessar o rio e chegar andamos mais um pouquinho e  utilizamos uma ponte pênsil.

E  de cara já deu pra perceber que não seria tão tranquilo. Se na noite anterior os trilheiros se dividiram entre Barreirinha e Palmirinha, desta vez todos ficariam no mesmo espaço, dentro de casa ou em barracas próprias ou alugadas.

Pernoites definidos. As seis meninas ficariam num quartinho com três beliches. Nós, homens, ficamos em outro quarto. Também apertado, mas não menos limpo e aconchegante. Marcamos terreno, deixamos as mochilas e saímos para conhecer a famosa Cachoeira do Veado.

Nada mais  que  25 minutos,  de novo a ponte pênsil e outra pinguela. E lá estávamos nós diante de três esplendorosas quedas d'água que superam 100m de altura. A primeira não dá nem pra ver de perto.

Por pura  precaução, não entramos na correnteza. Mas fizemos fotos -- como a que abre o texto -- e curtimos muito por mais de uma hora. O suficiente pra  forrar o estômago, colocar a conversa em dia e aprender ainda mais  sobre botânica com o Herbert.

Na volta pra pousada a dúvida  principal era sobre o banho: frio no rio, sem fila, ou quente, no banheiro das meninas, com direito a "senha". A maioria do nosso grupo optou pelo rio e se deu  bem.

Eis que chega a esperada hora do jantar. Macaco velho, precavido, Herbert sugere que  antes das 18h a gente já fique por perto, no salão, jogando conversa fora até colocarem os panelões.

Com pouca luz de energia produzida por baterias, começam a colocar a comida para um verdadeiro batalhão, cerca de 65/70 pessoas: um panelão de feijão, um de arroz, um de purê, um de carne/churrasco,  um de cenoura... Não  me lembro se tinha macarrão.

Os panelões estavam no claro,  mas 9na enorme  fila que se formou após o sinal do Zé do Zico predominava o escuro. Estratégia do guia provou-se acertada, já que fomos os primeiros a nos servir. Cara,  fiz um prato vergonhosamente montanhês. Eu quase não enxergava a Ana, à minha frente. Nome do abuso? Serra da Bocaina.  Juro que não repeti.

Gozado, e bom,  é que a fila andou muito rápido. Pelo jeito todo mundo estava com fome e acelerou nos panelões. Por isso quem pretendia  partir pro segundo tempo acabou caindo do cavalo.

Tinha  coca e até cerveja gelada, mas aquela pinguinha que sobrou no Naldo faltou no Zé. Diz a "lenda" que os pedreiros que foram fazer o novo fogão à lenha tomaram três litros. Resultado: fogão torto, mas comida boa.

Sem disposição suficiente  pra curtir a conversa  ao redor da fogueira, nosso grupo não demorou pra ganhar o caminho dos sonhos. Não sem antes se encantar com uma "procissão"  de vaga-lumes.  Cama simples e sono profundo. Só interrompido na hora de tirar "foto da bromélia úmida" e aproveitar para admirar o céu emoldurado por milhões de  estrelas.

(Vaga-lume ou pirilampo são denominações comuns de insetos coleópteros  das famílias Elateridae, Phengodidae ou Lampyridae, notórios por suas emissões de luz fosforescente).

(Bromélias: designações de plantas do gênero Bromélia, da família das bromeliáceas, com 48 espécies terrestres, nativas da América Tropical. Algumas têm fruto comestível e/ou fornecem fibras, mas são cultivadas como ornamentais) -- singela brincadeira em  homenagem ao nosso biólogo.

Então... Enquanto eu via estrelas lá  fora,  lá  dentro, de madrugada,  as meninas, especialmente Iris e Angela,  tinham a companhia de um gato miando no  alto das paredes sem forro, junto ao telhado meio esfumaçado.

Dúvida cruel:  não era uma suçuarana, mas a cada miado elas  se arrepiavam e  imaginavam que o danado poderia pular,  provocando um estardalhaço. Exatamente o oposto do segredado pelo Herbert, já que fazer silêncio era primordial pra quem  queria sair à francesa, sem acordar ninguém. 


                                       NA DESCIDA TODO SANTO AJUDA?

Conforme  sugerido e combinado com o Herbert, no terceiro dia acordamos  por volta das 5h, antes de todos os outros trilheiros. Fora da casa havia cerca de 35 pessoas ainda dormindo,  distribuídas em 17 barracas. Por isso tomamos café  simples antes de todos e, às 6h, fomos os primeiros a ganhar a trilha. Sempre na companhia do amigo "Mambuca".

Por precaução, já que a Gaelle não passava muito bem, o Herbert optou por alugar um burro. Providência mostrou-se acertada. Como todas as outras implementadas pelo guia/médico/amigo.

Foram 18 km muito interessantes. Piso secular, mata fechada, árvores frondosas como as figueiras,  plantas minúsculas,  água em abundância e pássaros  aos borbotões. Uma festa na floresta. Como convidados, cabe a nós respeitá-la e preservá-la.

Não vimos onça parda, nem pintada. Tampouco cobra peçonhenta,  macaco bugio ou muriqui. Mas ouvimos inhambu, pomba,  sabiá,  gavião, araponga, tucano... E vimos um bando de tangarás-dançarinos. Que privilégio! Uma bênção!

Ganho acumulado de elevação (GAE) chega a apenas  950m em três dias. Perda acumulada  beira 2,5 mil metros. Portanto, é  descida constante, a maioria sobre as pedras lisas colocadas  pelos escravos nos séculos XVII, XVIII e XIX. Vantagem é que a angulação é baixa e favorece.

Na descida todo santo ajuda? Nem sempre! Se estivesse chovendo, com certeza a trilha ficaria bem difícil e  não  chegaríamos ao distrito de Mambucaba sem  cortes, lesões e contusões. Mas foi tudo bem. Nenhuma baixa significativa.

Nosso descanso mais longo foi onde o rio Santo Antonio deságua no agora grande Mambucaba. Estômago forrado, sede saciada, corpo refrescado, lá fomos nós para os  4 km finais. Atravessamos uma ponte pênsil --  bem pensa  para um dos lados, por sinal -- e não demoramos para chegar  ao nível do mar.

Sinal de civilização. Não gostei. Especialmente porque  percebi que ali não existe qualquer portaria pra controlar entrada e saída de pessoas no PNSB. Um parque nacional bem maior do que o de Itatiaia mas que recebe verba irrisória  perto de suas necessidades básicas para conservação e fiscalização decentes.

Com a palavra, as  digníssimas autoridades estaduais e federais.  Se é que elas não se omitem e fazem vistas grossas exatamente porque ultimamente Angra virou terra-de-ninguém. O tráfico comanda e  pode já estar a ditar regras nas franjas do parque. 

 Então...dentro da hora marcada, 14h, lá estava a confortável van à nossa espera ao lado da ponte de arame. Com um bom motorista, não demorou muito para superarmos a  Angra dos Reis de nuvens carregadas pela Rio-Santos e depois da usina  nuclear entrar na direção de Lidice, Rio Claro-RJ, Bananal-SP, Arapeí e finalmente São José do Barreiro, num lindo final de tarde e início da noite.

Se valeu a pena? Sim, muito. Fascinante!  Família MW Trekking foi show de bola. Fica aqui nossa gratidão a todos, especialmente ao Herbert e ao Pedro.  E a todos pelo companheirismo, sinônimo de respeito quando o grupo está acima de cada um de nós.




   

 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Cordillera Blanca: um paraíso imperdível






















Sim,  a Cordillera Blanca, ao norte de Lima, capital do Peru, é uma atração turística imperdível. É simplesmente maravilhosa. E desafiadora.
Pra quem gosta de aventura, um prato cheio.  Pra quem gosta de beleza, um colírio. Montanhas, nevados, vales e lagunas estonteantes. Muitos acima de 6 mil metros de altitude. 
Mais uma vez nosso passeio só se efetivou por obra e arte do Milton e  da Mari, companheiros de viagem  insubstituíveis.  Trilha Salkantay/Machu Pichu, Deserto do Atacama/Chile e agora Trek Santa Cruz/Cordillera Blanca.
Nossa doce loucura aconteceu  entre 9 e 21 de junho, logo no início da Copa do Mundo. Embarcamos dia 9 e voltamos dia 21. Avião da Latam ficou devendo. Decepcionante. Chinfrim!
Em Lima,  alugamos um  bom carro e viajamos  400 km pela Carretera Panamericana Norte até a capital do departamento de Ancash,  Huaraz, nosso quartel-general.
Entre as cordilheiras Branca e Negra, a cidade agora com 120 mil habitantes foi  destruída  -- assim como sua vizinha  Yungay -- pelo terremoto de maio de 1970. Sinceramente,  Huaraz (3.700m) é hospitaleira, mas feia. Com ferragens à mostra, construções inacabadas e sem pintura parecem prontas para mais um puxadinho pra receber noras e genros.
Guardadas as devidas proporções, o trânsito é tão caótico quanto o de Lima. Não há transporte coletivo. Vans malucas e táxis estridentes ditam o ritmo e o som. E dá-lhe buzina! 
Mas em uma semana dá pra acostumar. Inclusive com o  escandaloso domínio do Corolla branco. Aquele tipo banheira. Se Yungay é conhecida como Cidade Sepultada, a ressuscitada Huaraz merece o slogan de capital mundial do Corolla branco. Meu Deus! Um absurdo! Táxi, ambulância, pick-up... Supera até o tradicional e estranho tuc-tuc,  moto-táxi que só falta virar ônibus e metrô.

O comércio huaracino é forte, dinâmico. Especialmente no entorno da  conhecida Praça de Armas. Ruas principais parecem formigueiros. Inúmeros restaurantes e  mercadinhos são bons e  aplicam preços mais justos do que os nossos.
ACLIMATAÇÃO INDISPENSÁVEL
Fizemos vários passeios  indispensáveis de aclimatação antes de encarar os quatro dias pesados do famoso trek Santa Cruz, também dentro do Parque Nacional Huascarán, nome do  nevado mais alto do Peru, com 6.768m no cume sul.
No primeiro dia, de carro e com curta mas cansativa -- altitude! -- caminhada até o mirador,  conhecemos a  linda Laguna Paron,   circundada e protegida por nevados  não menos exuberantes: Pirâmide de Garcilaso ( 5.885m), Chacraraju (5.105m), Caraz (6.020m), Pisco (5.750m), Artezonraju ( diz a lenda que o nevado de 6.025m é a referência que aparece na abertura dos filmes da Paramount Pictures, mas há controvérsias) e os quatro Huandoy, o mais alto deles ao norte, com 6.395m.
No segundo passeio de adaptação à altitude o destino foi a Laguna 69, a  4.605m do nível do Oceano Pacífico. Desnível acentuado, com ganho de elevação superior a 700m. Trilha pesada, com mais de cinco horas de pernada encarando cotovelos  intermináveis. Mas   ver aquela água azul turquesa colada no  Chacraraju valeu a pena. Sensacional!
Pra chegar na 69, passa-se na região de Llanganuco, onde estão as  belas lagunas Chinancocha (fêmea) e Orconcocha (macho). Um paraíso de águas verdes, quase aos pés do imponente Huascarán.
No terceiro dia pegamos leve. Fomos de carro -- conhecemos a   planta puia Raymondi --  até bem próximo do Glaciar Pastoruri, com 5.245m de altitude. Muito bonito e com direito a encontrar um casal de Santo André -- Fernando e Luciana, se não me engano. Por causa do aquecimento global o glaciar perde em média 35 metros de gelo por ano e não sobreviverá a mais duas décadas. Que pena!
A altitude pegou. Faltou oxigênio na lenta caminhada de menos de dois quilômetros.  Sobrou frio. Vento também. E de repente nevou. Com menos de três graus, o remédio salvador foi o caldo de  cordeiro inigualável da dona Vitória. Naquele exato momento, o melhor do mundo. Batatas, ovos e milho especial pra acompanhar. Aí esquentou!
        
 O DESAFIO DO TREK SANTA CRUZ 
De 14 a 17 de junho, nosso grande desafio, o trek Santa Cruz. São cerca de 60 quilômetros,  de Vaqueria a Cashapampa. O normal seria no sentido inverso, mas, por sugestão do sempre prestativo Scheler,  da  agência Scheller Artizon, começamos por Vaqueria. Ainda bem! Foi mais suave.
O primeiro dia não foi tão pesado. Do povoado de  Vaqueria ( altitude de 3.500m) até o acampamento de Cachinapampa (3.700m) alternam-se descidas, subidas leves e terrenos plainos em sete quilômetros,  vencidos em  menos de seis horas.
Porém,  no segundo dia a pernada foi muito pesada. Depois do tradicional chá de coca pra combater o mal da altitude e do café da manhã reforçado foram mais de oito horas de caminhada para superar 12 km, com pelo menos uma subida e uma descida de fazer qualquer cristão  gemer pra pagar os pecados.
Ganho de elevação foi o maior do trek: mais de 1.000m. De descida foram cerca de 500m até chegar ao acampamento Taullipampa (4.250m). Ponto mais alto do dia e do trek foi o Punta Union,   passagem  em 4.750m de altitude, ao lado de  lindos nevados e duas lagunas de encher os olhos. Pra encerrar,  um belo jantar  da Justa e  aquele sono  sem tanto  frio e sem banho. Só na toalhinha umedecida!  (Rsrs)
Terceiro e quarto dias não foram tão estafantes.   De Taullipampa a llamacorral (3.760m) foram 11.5 km. Com ligeira chuvinha.
Não conseguimos avistar o belíssimo e famoso Alpamayo por causa da neblina e do tempo nublado. Mas o final da tarde foi recompensado pela  deliciosa cerveja Cusquenha ao lado da  guia e  boa cozinheira Justa --  pronuncia-se "Rusta" -- e do guia Nick. Seu Vicente, responsável por burros, cavalos e montagem de barracas e tendas,  preferiu uma  inka-cola. Gente boa!
No quarto dia foram 9.2 quilômetros e  menos de cinco horas de muito  mais  descidas ao lado do rio do que ascensões. Mas todo cuidado na ribanceira  final é pouco.  No somatório de sobe-e-desce mergulhamos cerca de 800m até Cashapampa (2.970m).
Chegamos  a tempo de ver o final da derrota  de 1 a 0 da Alemanha para o México. Apesar de muito cansados e felizes, não conseguimos ver o empate de 1 a 1 do Brasil com a Suíça. Afinal, foram  mais de três horas de van até Huaraz. Tudo por uma ducha quente, um banheiro  com vaso em vez de buraco na terra preta 9e uma cama  de verdade, sem isolante térmico nem saco de dormir.
No dia seguinte, nada mais justo do que um descanso, sem caminhada, com comida boa, vinho, cerveja, suco de granadilla e chocolate à vontade.
Pra encerrar nossa expedição Cordillera Blanca ainda encaramos a Laguna Rajucocha,  bem aos pés do Huantzan (6.395m). Com a estrada ruim, deixamos o carro no meio e  caminhamos mais de seis horas -- ida e volta -- ao  lado de gado e  de ovelhas brancas e negras. Tudo muito  plaino e bonito no vale. Valeu a pena!
No último dia,  depois de vencer os  intermináveis caracoles da carretera na saída de Huaraz, chegamos a Lima a  tempo de comer um ceviche delicioso no famoso bairro de Miraflores.
Quanto ao trânsito, deu vontade de chorar. Um caos!  Mas  nada que abalasse ou apagasse o brilho de olhos felizes e corações acelerados. Afinal,   o quarteto Trilheiros do Peru acabava de  conquistar e abraçar uma cordilheira digna da morada dos deuses.